O PRESSÁGIO

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O PRESSÁGIO

Mensagem por Warlock em Seg Jan 15, 2018 11:02 am

o presságio
A primavera é uma  estação, em conjunto ao outono, de tempo muito instável. É tão comum ver chuvas dispersas durante os sete dias de uma semana, assim como a luminescência fervorosa dos raios solares. Céu fechado. Céu aberto. É um ciclo incontrolável, quase imprevisível a estações meteorológicas em meio a época. A população é americana é familiarizada com esses eventos climáticos.

A virada do inverno para a primavera foi marcada pela dominância do sol, dando a impressão a toda extensão dos povoados estadunidenses que o verão anunciou-se mais cedo nesse ano. Englobou o raio de radiações ultravioletas, até mesmo, os vizinhos como México e Canadá.

No entanto, quando marcou maio no calendário de todos, repentinamente, a atmosfera foi engolida por uma escuridão, mesmo estando em turno diurno.

O que era mais estranho em tal fato é que abrangia todos os povos, sem exceções. As nações ficaram coagidas com as nuvens obscuras. Embora, o fator que mais chamava a atenção dos setes bilhões de pessoas no plano terreno era o odor de enxofre, o qual emanava dos gases acumulados no espaço entre o solo e a estratosfera. Quem inalasse muito do químico gasoso sofreria com problemas superficiais de saúde como lacerações na cabeça, crise de espirros frequentemente e vermelhidão e inchaço na pele.

Tudo era uma questão de saber cuida de si mesmo.

Os postos de saúde foram visitados tantas vezes em um dia em comparação aos dias já preenchidos, do ano de dois mil e dezessete, depois do nascimento do filho de Nosso Senhor. Centro de culto a religiões foram alvejadas pelos seguidores, que oravam pelo findamento da calamidade global, esta que iniciou-se há pouco tempo e já causava aversão e medo; os crentes acreditavam que era o prólogo ou a introdução ao último livro do cristianismo, este nomeado como “Apocalipse”.

Se não bastasse só o cenário sem exibição do astro rei e o olfato captando um aroma irritante e doentio, a tormenta nos continentes continuou e afetando os outros sentidos. O áudio ambiental tido, certas vezes, era de estrondos assustadores, enquanto feixes luminosos cruzavam o céu. Vale ressaltar que o segundo, os raios, possuía uma aparência diferente do que o normal: não eram alvos e, sim, nitidamente avermelhados.

Finalmente, o que estava tardando a chegar, daria as caras em breve.  

Outro item a ser adicionado na lista de “anormais”. O que parecia ser chuva, expelida a enormes quantidades líquidas e pingos pela atmosfera, era vermelho. A impressão de todos era uma chuva de sangue, mas, conforme atingia matérias e corpos comprovava-se que a teoria estava absolutamente errada; ácido. Existe o termo “chuva ácida”, sendo usada como, de acordo com a Wikipédia, “a designação dada à qualquer outra forma de precipitação atmosférica, cuja acidez seja substancialmente maior do que a resultante do dióxido de carbono (CO2) atmosférico dissolvido na água precipitada”. Certamente quem diagnosticou isso nunca pensou em literalmente “chuva ácida”.

Como um reagente ácido não tão poderoso, causava sutis queimaduras na carne dos atingidos. E, a sua propriedade principal era o cheiro, pois todos que inalavam instantaneamente caiam contra o solo, desmaiados. Em alguns casos, muitos sofriam de tremulações durante o sono de poucas horas. Também, diziam ver mensagens fragmentadas enquanto sonhavam, com relação ao presságio do caos.


observações


i. É necessário narrar o que fazia antes do céu ficar do estado atual;
ii. O mesmo diante aos efeitos climáticos;
iii. Quando pego pela chuva, o que é obrigatório de acontecer, deve descrever o sonho. Como uma maneira de entender melhor o seu personagem, o sonho serviria como de efeito borboleta. Ou seja, viajará conscientemente para um dia específico no passado dele/dela, que tem inúmera importância para o mesmo;
iv. Além do mais, a chuva afetou o mundo inteiro, então, pode indicar a sua localização em qualquer lugar do globo terrestre, sendo necessário que, em algum momento, tenha contato com a chuva. Por esse motivo, a oficial é um "Anúncio Global" hue;
v. O evento não contará com mais um estágio, sendo assim, uma espécie de missão OP. Contudo, há um limite para realizar seu post, este tendo o dia como 31 DE JANEIRO de 2018, ou seja, duas semanas. Portanto, faça algo bem construído, afinal, pesará em sua avaliação.  


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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Corin Frost em Seg Jan 15, 2018 12:19 pm




Captain Cold
Ser um cara com um pensamento frio era como me sentia, meu andar pelas ruas eram calmos e serenos como se tudo fosse uma câmera lenta a minha volta pensando e calculando cada passo que poderia ser feito em algum momento, porém, assim que me preparava para voltar ao meu lugar um pequeno apartamento uma nuvem começou a deixar o dia mais escuro.

-Mas que merda está acontecendo? - Me perguntava enquanto olhava para o céu logo começando a ver uma chuva cair, porém, a mesma não era normal e sim o que parecia uma chuva de verão era feita de ácido. Sem pensar duas vezes pegava minha arma fria e fazia um tipo de batente cima de mim com um tamanho razoável logo vendo as pessoas correrem. -Por aqui pessoal rápido! - Dizia saindo um pouco da estrutura logo em seguida orientando as pessoas e assim que o máximo de pessoas estava de baixo da mesma me posicionei no meio delas.

Antes que pudesse falar mais alguma coisa senti meu corpo pesar e depois de alguns segundos acabei por desmaiar por completo. Assim que entrei em um sono profundo pude ver o meu passado, a imagem de meu irmão e eu juntos sentados no pequeno terraço do nosso apartamento bebendo uma cerveja vendo os fogos de artifício em nosso primeiro ano novo juntos depois do nosso reencontro depois da máfia.

valeu @ carol!


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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Karma W. Hastings em Seg Jan 15, 2018 3:18 pm

Presságio



I don't care if it hurts
I'll pay my weight in blood
To feel my nerves wake up
So love me now or let me go.. ♫

Dias atuais,
Brooklyn.

Se havia algo que Karma detestava, era a inconstante primavera e seu ciclo incontrolável. As mudanças climáticas fora do normal mexiam com a imunidade da ruiva, a única coisa que o maldito soro nunca havia conseguido curar com eficiência, visto que ela não recebera a capacidade de curar-se sozinha.

E, ao invés de estar trabalhando, a ruiva recebera aval para passar seus dias adoentada na proteção de sua casa.

Felizmente, a primavera estava chegando ao seu fim passando o palco para o verão. Todavia, ao invés de receber o precioso sol como recompensa, Karma deparou-se com uma inusitada escuridão. No entanto, tal evento não afetava somente Karma e os milhares de estadunidense. Ia mais além, afetando toda a população da terra.

— O Governo estadunidense pede aos seus para que fiquem em suas casas. Não se sabe muito as nuvens escuras, mas os cientistas e meteorologistas têm trabalhado para descobrir mais sobre o fenômeno. Eles pedem aos cidadãos para que usem máscaras que o governo tem disponibilizado nos postos de saúde. A inalação dos gases desse fenômeno são... — a ruiva desligou a TV revirando os olhos ao mesmo tempo que se levantava e dirigia-se à janela mais próxima. Mesmo trancada dentro de casa e usando a ridícula máscara ofertada nos postos, o odor ácido ainda conseguia atormentar-lhe as narinas.

A ruiva estava detestando o que o fenômeno fazia com sua pele, mesmo que estivesse se cuidando sua pele se encontrava levemente vermelha além de sofrer com algumas claras crises de espirros. Ela sabia, no entanto, que o maior culpado era sua imunidade.

Enquanto fitava a escuridão de sua janela um fenômeno ainda mais estranho começou. Gotas vermelhas despencavam do céu, era como se o mundo chorasse lágrimas de sangue. Seria este um castigo divino? Karma balançou a cabeça, afastando tais pensamentos, afinal, ela nunca fizera o tipo religiosa. A janela se encontrava aberta e a ruiva, por curiosidade, colocou a mão para fora.

Afinal, era só uma chuva.

Ledo engano o dela pensar isso, principalmente ao levar em consideração a situação atual em que se encontrava o "clima".


Assim que a mão delicada foi exposta, o odor de carne sendo queimada atingiu as narinas da ruiva. Era pungente e vil. E, logo em seguida a Hastings foi de encontro ao chão.

(...)

A respiração se encontrava pesada, a ruiva se mexia desconfortável. O terror tomava conta dela, como em seus pesadelos de infância.

— Karma, acorde. Acorde minha criança... — a conhecida voz de sua "Mama" ecoou em seus ouvidos bem como o toque familiar que ela sempre usava para desperta-la. Instantaneamente a ruiva abriu os olhos, assustada fitou seus pequenos braços bem como suas pequenas pernas. Voltara a ser criança outra vez? — Outro pesadelo, minha querida? — ela lhe questionou com doçura. Uma falsa doçura, Karma, agora, reconhecia.

A Hastings ainda se encontrava com a visão turva, no entanto, reconheceria aquele ambiente em qualquer época de sua vida. Estava de volta. De volta à nervelands.

As mãos infantis fecharam-se num único aperto indicando que a raiva era o sentimento que se apossava dela naquele momento. Karma inspirou fundo, tentando se acalmar. Não poderia demonstrar para a mama que estava nervosa, seria tolice. A garota forçou um sorriso, fazendo questão de parecer fraca e vacilante ante ao suposto pesadelo.

— Eu... estou bem, mama. Só preciso de um pouco de água. — A ruiva mal terminou e a mais velha, sempre um passo a frente, colocou o copo diante da Hastings. Sem escolha, Karma aceitou a bebida a qual, ela se recordava, forçaria-a a dormir novamente.

(...)
Quando abriu os olhos novamente, o cenário familiar ainda se fazia presente. Parecia que nem mesmo depois de adulta Nerveland a deixaria em paz.

“Adulta.”

A palavra latejou em sua mente, fazendo a garota vacilar em seu caminho ao banheiro mais próximo. A realidade pegou-a como um baque quando se fitou no espelho da pia. Lá estava a feição infantil, mais infantil que a de seus dias de adulta. Ela se lembrava perfeitamente daquela aparência, magra e sem curvas.

Aquela era sua aparência de dezesseis anos. A mesma aparência que possuía no ano de sua fuga.

Imediatamente a fúria lhe subiu a cabeça, as emoções borbulhavam como água em seu interior fazendo com que Karma se encolhesse no canto, abraçando às próprias pernas enquanto se desmanchava em lágrimas.

Como o mundo podia ser tão cruel a ponto de fazê-la voltar à aquele momento?

Descobrir a verdade partira o coração dela na época, mama era apenas mais uma cientista que ansiava por ter fama, dinheiro e influência. Não importava-lhe as crianças ou o que aconteceria com elas depois de obter o resultado que queria com o projeto. Eram apenas cobaias.

"Cobaias..."

Estava ai uma palavra que mexia com a ruiva. Instantaneamente as lágrimas cessaram, o furacão de emoções deixou espaço para somente uma, a raiva. A raiva era um sentimento bom para a garota, pois fê-la se recompor.

Karma se levantou, fitando-se no espelho. A aparência frágil e raquítica era o que mais a assustava. Levou ambas as mãos à própria face, tocando o próprio rosto, e se beliscou.

— Realmente...— seu tom de voz soava reflexivo. — não se trata de um sonho. — constatou por fim. No entanto, a veracidade daquela informação não a incomodava. Longe disso... Parecia que o destino finalmente lhe dera a chance pela qual tanta ansiara em suas lamúrias. Isto é, significava que aquela era uma chance de se vingar e, talvez, salvar mais alguém do destino cruel de sua primeira vez naquele mesmo lugar. Entretanto, aquilo parecia bom demais para ser verdade. Tinha mesmo voltado no tempo?

Afinal, aquilo não poderia ser obra de uma ilusão e, muito menos, alguém controlando a mente dela. Ela acreditava nessa verdade pois levava em consideração o fato de que possuir certa habilidade para resistir a esse tipo de poder manipulatório. Certamente, teria resistido e, mesmo tendo sido colocada sob domínio de algo ou alguém, em algum momento recordaria-se do fato justamente por ter tentado resistir.

A Hastings mordiscou o próprio lábio inferior, pensativa. Tinha que levar em conta todas as possibilidade, inclusive a hipótese de ter voltado no tempo. No entanto, o que mais a intrigava era: o que tinha desencadeado àquele evento?

Antes de agir e se deixar levar, novamente, pelas próprias emoções, Karma sabia que deveria descobrir o que estava acontecendo e, para tal, precisava de espaço para fazer uso dos próprios poderes. Ela se teletransportou para fora de Nerveland, a paisagem à muito esquecida do Texas se fez presente, confirmando, mais uma vez, que realmente estava na instalação de sua infância.

E, se isso era verdade, tinha que se desfazer da pulseira que transmitia dados de todos os seus passos para a mama. Afinal, sendo ou não verdade todo cuidado era pouco. No entanto, assim que tocara no "acessório" a voz maternal se fez presente.

— Karma, querida, o que está fazendo? — seu tom de voz era pura inocência. Uma inocência fingida, a ruiva reconhecia depois de tanto tempo. — Percebi que deixou seus aposentos. Algo a incomoda, filha?

Ah... ela era uma presa tão fácil naquele momento... Desta vez Karma não vacilaria, sendo ou não um sonho teria todo o prazer de fazer o que estava prestes a realizar.

— Você devia ter me deixado seguir meu caminho sozinha, Mama. — a ruiva se voltou para a mais velha, sua feição era sombria.

Naquela época, nem mesmo a própria Karma tinha conhecimento dos poderes telepáticos que possuía, ela os desenvolvera através do choque da verdade, por não ser de conhecimento dos outros, era a arma perfeita.

— Como ousa usar esse tom... — Mãe Cornélia iniciou sua fala. Em outros tempo Karma aguardaria pelo seu clássico sermão, no entanto, a ruiva não permitiu que que ela terminasse a frase, pois, já estava em seu subconsciente fazendo o estrago que tanto queria.

A mais velha caiu de joelhos no chão, sem ação. A cabeça inclinada para trás enquanto a mais nova danificava o cérebro que ela tanto adorava. Quando finalizou, Cornélia não era nada senão uma casca sem vida.

— Agora você não vai ter o sucesso que tanto ansiou, velha maldita. Eu mesma farei questão de destruir seu projeto. Te chamarão de fracassada e inútil. — a ruiva proferiu com raiva desferindo um chute na face da outra que foi de encontro ao chão enquanto proferia inúmeros "não".

Então, quando a mulher finalmente faleceu, Karma sentiu uma força desconhecida puxa-la. A sua mente ficou turva bem como o cenário diante de si.

— Não... por favor, me deixe terminar o que vim fazer... — ela murmurou. Havia muitos assuntos inacabados em seu passado. — Me deixe...

(...)

As pálpebras se abriram exibindo as orbes castanhas. Karma respirava fundo e com dificuldade, era como se cada lufada de ar não fosse suficiente para seus pulmões afoitos.

"Deus, o que eu fiz?", ela se questionou espantada, se perguntando se realmente aquele desenrolar de fatos havia acontecido. Se sim, só havia uma coisa que poderia comprovar que não era um simples delírio. A ruiva se levantou de supetão, deparando-se com a janela ainda aberta.

Karma fitou o lado de fora, inúmeras pessoas se encontravam como ela, acordando de seus supostos sonhos ou "viagens ao passado". Se realmente todas aquelas pessoas tinham alterado algo em suas viagens, que efeito ela deveria esperar? Que reação aqueles atos desencadeariam? Teria algo no mundo mudado de verdade? Ou era apenas um delírio coletivo de todos?

A ruiva balançou a cabeça deixando os pensamentos para trás, afinal, tudo continuava da maneira como sempre se recordou e, no fim, significava que ainda tinha muito tempo para planejar sua vingança contra Cornélia.



I N F O R M A Ç Õ E S

P O D E R E S

  • teletransporte
  • telepatia


P E R Í C I A S

  • SOBREVIVÊNCIA, nível calouro;


A T R I B U T O S

Força 14
Inteligência 12
Resistência 10
Agilidade 10
Vigor 12
Carisma 7


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_________________


Justiça sempre foi feita com as próprias mãos. Injustiça pode ser vista a cada esquina.
K A R M A

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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Elena Giddings em Seg Jan 15, 2018 10:51 pm



Hungers
Data: 15/01/18 - De manhã...


A manhã de Nova York estaria perpetuo de um dia lindo em um céu aberto totalmente azul. Por lá, poderia escutar as gaivotas sobrevoando o céu e gargarejando a cada batimento de suas asas, assim também como o verde sobre os campos, rechiadas de pessoas atléticas em meio aos encontros familiares. E lá estaria a moça, Elena. Se refrescando de baixo de uma simples arvore enquanto ainda observaria tudo ao seu redor, recorrendo a todo tipo de lembrança que ainda guardaria de sua até então falecida mãe. Era uma garotinha comum como as outras que estariam sorridentes e saltitantes. Rechiada de uma teimosia agoniante e de uma vaidade sempre em prática.

Mas depois que sua mãe morreu, algumas coisas haviam morrido junto com a personalidade dela. Talvez ainda fosse possível resgatar essa sua personalidade, retratando de uma pessoa boa que era. Mas enquanto ainda não tivesse plateia para ajudá-la, isso não seria resgatado. Teria ela de sentir o amor novamente, para assim passar-se


- Eu só acho que o tempo passa tão depressa... Poderíamos ser imortais para degustar todo tesão que temos para prosseguir junto com nossos entes queridos.

Até que então, pessoas presentes pelo campo apreciariam uma fabulosa nuvem obscura que cobria o céu de Nova York. Algumas das mais espertas e medrosas já começaria uma maratona de sobrevivência, como se fossem soldados em uma plena marcha por suas vidas. Era perturbador perceber em suas faces tamanho medo que eles depositavam-se. Caindo em desgraça de um fenômeno que ninguém jamais poderia ao menos explicar, junto com um cenário apocalíptico.

Elena se arrepiava cada vez mais que prestigiava gritos de mães desesperadas com seus filhos no colo. Era demais até para uma pessoa que não demonstraria seus sentimentos reais como a própria gata. Cada instante uma pessoa cairia, resultando em uma atitude tanto quanto inconveniente de ser pisoteada pelos que ainda estavam de pé. No fim das coisas, tudo não passava de plena ilusão. Dava pra perceber familiares, companheiros e amigos pisoteando um nos outros, sem ao menos olhar para trás para acudir seu amado ou sua amada.

Uma festa que por ali tinha de repente paralisou. Um local que era aclamado pura como diversão e bagunça, tornou-se um cenário de gritarias e abrigos para os mais desesperados. Até que a chuva começou a gotejar sobre os prédios e claro, sobre a população, afetando todo o plano terreno. Tudo finalmente havia sido dominada por essas gotas tão estranha e indescritíveis. Até que ela mesmo percorria sobre os galhos da graciosa arvore em que Elena estava em baixo.


- O que está havendo?

Tudo aquilo teria resultado em uma expressão pensante. Poderia sentir aquele líquido que vinha do céu percorrer pelo seu corpo, aonde sua visão estaria agora totalmente embaraçada, seus instintos faziam-na à arriscar alguns passos. Mas de nada prestou, onde começou a se rechiar de gemidos preste a cair em um profundo sono em meio ao campo.

Estava realmente começando a sentir o sabor do que o medo falaria com o ser humano. Seus olhos dilatavam-se e sua respiração tornava-se a única coisa que propriamente escutava. Eis o fim do mundo? Talvez ainda restasse esperança para alguns que poderiam ajudar, e Elena estaria nessa lista. Como até então famosa frase "vós capazes, protegeremos aos necessitados", mas como poderia? Se ao menos teria se tornado mais uma vítima daquele fenômeno sobrenatural.

Minutos e mais minutos se passavam e seus membros não mais às respondiam, estava completamente incapaz de mover. Até que finalmente cairia sobre aquele gramado fofo e começaria a deslizar em um sono profundo, como se sua própria alma estivesse saindo pouco-a-pouco, posicionando duas mãos próximo ao seu abdômen, resultando em um gesto delicado como uma velinha morrendo em um colchão verde.

Eis que ela acordaria devido uma forte luz branca que passaria como um "acorde". Visualizando de forma perplexa uma sombra que arrebataria como sua mãe. Até que Elena se levanta-se para averiguar a situação. Mal pôde ela tocar naquela alma. Pois ela se desfazia antes mesmo de pensar em abraça-la como conforto de uma incrível saudade. Mas, Elena era realista o suficiente para entender de que os mortos não vivem no mundo dos vivos. Mas por plena precaução, decidiu por si só segui-la, já que ela sumiria a cada passo que ela daria.

A paz seria presente, ao relaxar pelo brilho que a mesma deixava-a para trás. Era realmente um fator impressionante e sobrenatural, enquanto o seu verdadeiro corpo ainda se encontrava caída em meio à arvore. Parecia tudo muito belo e calmo. Como se o ódio, tristeza e todos afins que contribuem para deixar o dia-a-dia do ser humano ruim, desaparecer.


- Não gosto de jogos psicológicos, mas isso aqui está parecendo mais um inferno do que o céu.

Resmungaria ela, por enxergar a parte negativa de tudo isso. Que era a agonizante forma de não poder tocar naquela alma dona da pessoa mais preciosa de sua vida. Mal sabia ela se sua mãe ainda escutava-a com assopros de "mãe" que sobressaia de seus próprios lábios, demonstrando claramente o conforto que sentiria ao vê-la com brilhos nos olhos, mas ao mesmo tempo receio de não poder toca-la.

O campo realmente ajudava a prevalecer a paz. Queria ela acordar, informando para a alma em meados à quase um choro de que teria de acordar para se safar daquelas gotas escuras. Mas sua mãe nem ao menos demonstraria reações por seu rosto de que estaria ouvindo-a.

Sendo assim, tentou tomar os seus próprios passos. Sem a ajuda daquela alma. Pois saberia que todo aquele momento lhe deixaria louca. Evitar seria a melhor opção a ser tomada. Elena não estava em um momento de paz, e sim de puro questionamentos. Pois algo estranho ainda prevaleceria sobre aquele ar preso.

Foi então tomada uma das decisões mais difíceis ao se virar contra a alma "perdida" de sua mãe, e começou a andar em busca de que algo de novo acontecesse em meio a margem de desespero. O silêncio era claramente estranho sobre as ruas. Nenhum sinal de uma sombra e de nem um respiro, a não ser da própria Elena...
É claro.


- Talvez eu encontre alguém se persistir em andar sobre as ruas.

Seus olhos castanhos fitavam todos os tipos de lugar que poderia visualizar. Todos os cantos, todos os prédios e todas as vegetações. E nada... Absolutamente nada aparecia como forma de vida. Até que então prosseguiu incansável atrás de vítimas, presas como ela própria nesse mundo completamente louco.

A falta de som em sua mente, deixava-a cada vez mais louca. Seu cérebro como acostumado à transmitir raios de som, automaticamente o reproduziria. Seus olhos estavam quase tanto quanto caídos, não achava absolutamente nenhuma solução para acordar.

O desgaste físico era eminente à olhos visto. O suor se fazia presente na testa de Elena, ao prosseguir por minutos pelas ruas desertas de Nova York. Era realmente tudo muito confuso para processar algo que teria de apenas esperar. Por nada mais poderia se fazer, aonde então fitou um local apropriado para descansar-te.

Não achando uma forma de escapar, decidiu por si mesma ficar no local, mas em um local apropriado e seguro para recompor suas devidas energias perdidas. Estava de fato contando com as esperanças de que alguém poderia passar por ali. Alguém que ao menos fosse tão "especial" como a mesma, para obter dois cérebros pensantes no local, como forma de descobrir o que estava acontecendo.


- Ta certo, ta certo...

Seus fios castanhos então cobririam seu rosto ao olhar para baixo, onde então, a gata recolheria suas pernas e se encolhia em seu devido canto. Repensando a todo o ocorrido posterior, tentando ao menos processar pela a aparição da alma de sua mãe, e contava com que não lhe visse mais.
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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Warlock em Seg Jan 15, 2018 11:08 pm

Seguinte, estou acompanhando os posts de vocês. Não os li, só os vi pelo o tamanho.

A oficial é como uma MISSÃO OP. A mesma missão para cada um de vocês, mas que devem agir com independência e individualidade.

Como uma missão OP, trabalhem tudo o que foi cedido de informações a respeito. Melhor, narrem essas coisas:

1. O que faziam na rua antes das catástrofes;
2. Como reagiram diante a elas;
3. Enfim, a chuva, é;
4. Narrem como a chuva te atingiu, porque é obrigatório;
5. Por fim, o sonho. ESTE É A PRIORIDADE, ou seja, foquem-se mais nela para construir. É um episódio importante do passado para que me faça entender melhor o seu personagem, saber o que levou-o até o momento.

Vou ser grosso. Quero, no mínimo, 1.500 palavras.
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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Nikolai Petrov em Ter Jan 16, 2018 3:04 am




State of Dreaming

If only you knew, my dear, How I live my life in fear



A primavera era uma belíssima estação, sempre havia sido a minha favorita, antes mesmo de minha transformação em planta viva. O tempo era dividido entre chuvas torrenciais e céu azul e limpo, propício para banhos nas praias e exercícios ao ar livre, de forma que a balança equilibrava-se perfeitamente entre os dois polos. Nesta época, aproveitava o tempo de céu aberto para poder banhar-me no sol junto de minhas plantas em meu jardim. Chegando ao mesmo, as plantas já conheciam minha presença e as heras venenosas se alongavam pelas hastes de metal que serviam de suporte para os vasos que as abrigavam, subindo rapidamente até o teto da estufa e abrindo seu teto de vidro resistente, trazendo luz solar. Suspirando, abri meu robe lilás e atirei-o numa cadeira de vime, deitando-me nu no chão de terra e abrindo os braços, pondo minha cabeça na terra, sendo agraciado pelos raios solares enquanto permitia minha pele assumir seu pigmento esverdeado.

Escutava o rádio enquanto movia meus pés ao som de Fox On The Run, do Sweet, quando sinto que o sol era encoberto por nuvens negras. Abrindo os olhos, observo as estranhas nuvens negras encobrirem o céu com absurda velocidade. Encabulado com o que via, a música logo era cortada, atraindo a minha atenção para um anúncio especial.

— Bem, acabamos de receber uma estranha notícia do departamento de meteorologia, eles acabam de anunciar uma potencial tempestade. Também estamos recebendo inúmeras ligações e informações de diversas partes dos Estados Unidos de que as nuvens negras estão avançando progressivamente e encobrindo vários outros países da América do Sul e do Norte. — Falava a mulher de voz agridoce do outro lado, parecendo um tanto quanto elétrica com a quantidade de novas informações que estava recebendo. Automaticamente, pensei ser algum mutante ou meta-humano com poderes relacionados ao clima tentando assustar todos com um “Apocalipse” que, como bem sabemos, nunca vai até o fim e sempre é impedido no último minuto por algum herói de capa esvoaçante e cabelo impecável.

Revirando os meus olhos pelo banho de sol impedido, peguei meu robe e o bati em meu corpo, retirando o excesso de terra e então indo para dentro. Liguei a televisão, onde estranhamente se passavam as mesmas notícias: uma inexorável escuridão assolava o mundo inteiro, cristãos iam às ruas gritando para todos irem às igrejas em busca de salvação, uns comemoravam o fim do mundo com memes nas redes sociais, o mesmo de sempre a cada possível desastre iminente que era anunciado. De pernas cruzadas no sofá, decidi que não iria me posicionar sobre aquilo. O mundo era ruim demais para ser protegido, certo? Mesmo quando você fazia coisas boas, era uma boa pessoa e fazia apenas o bem, você acabava se fodendo, porque é isso o que os seres humanos fazem de melhor: fodem uns aos outros, em todos os sentidos que se possa imaginar. Decidi ir fazer compras, ignorando as televisões nos vitrais das lojas anunciando que os hospitais e postos de saúdes estavam com excesso de doentes pelo excesso de enxofre que viera como consequência das nuvens negras que cobriam os céus. Enquanto observava o pequeno grupo de pessoas na calçada envolta das TV’s, sorri de canto com as mãos nos bolsos.

— E ainda dizem que Aquecimento Global é uma mentira da mídia, certo? — Falei alto o suficiente para que todos ali ouvissem, e a maioria me olhou, e então continuei minha caminhada, ignorando os noticiários, revistas e televisores que apenas ajudavam as pessoas mais ainda a entrarem em colapso e pânico, mas foi então que ouvi um som horrível vindo do céu.

Abri minhas mãos enluvadas após retirá-las dos bolsos, quase como se pudesse equilibrar-me daquele jeito. Fitei os céus, boquiaberto com a luminescência rubra que rompia dos céus, trazendo terror e medo. Engoli em seco, pela primeira vez impressionado. Algo estranho se aproximava, podia sentir, mesmo que sem força total – graças a falta de absorção solar – as plantas do Parque Central se agitarem pelo vento frio e quente, quase como um vapor. Algo estava muito errado, e o Verde sentia. Foi então que, ainda na calçada rumo ao supermercado, chiei a língua quando a primeira gota de chuva caiu na minha testa. Levei automaticamente minha mão enluvada até a testa, percebendo ser sangue. Ou isso ou algum tipo de ácido ou toxina que, misteriosamente, me afetava. Se era a falta de energia solar ou não, eu não poderia afirmar, mas assim que cheguei à conclusão de que aquela chuva iria me queimar, tratei de correr rumo ao supermercado.

Corri com verdadeiro medo, como não sentia desde meus tempos de humanidade. Lembrava-me de coisas escondidas, enterradas no cemitério de minha memória, demônios que nunca escapariam e viriam para a superfície com a força de um vulcão, queimando toda a minha esperança e minha vida. Não, não poderia ceder. Mas a chuva já caía, sem eu nem ter percebido quando ela havia começado. Levava o braço coberto pelo casaco aos lábios e nariz, de repente o cheiro de enxofre me incomodava mais que o comum. O que diabos estava ocorrendo? Foi então que, com a visão escarlate, caí de joelhos, tateando o chão molhado sentindo a ardência em meus olhos. Não! Eu iria conseguir, estava no estacionamento, droga, mais um pouco e eu iria conseguir.

Mas o cansaço me venceu. Caí no chão com um baque, entrando com uma velocidade descomunal rumo ao cemitério de minhas memórias fragmentadas.



...



— Você compreende o seu valor como Botânico e Bioquímico, não é, Sr. Petrov? É de inestimável valor tê-lo conosco na Harkness Enterprises. — O diretor, que pessoalmente viera me congratular, estendeu sua mão para mim, a qual apertei com rapidez e então ajeitei meus óculos, sorrindo para ele gentilmente.

— Claro, Sr. Harkness, é uma honra para mim ser aceito aqui. Mal acredito que minha tese fora apreciada e digna da atenção de vocês. — No fundo, eu sabia que tinha potencial, mas não era tanto assim. Eu era bom, dedicado, do tipo que passava a noite acordado, se possível, apenas revisando e refazendo todos os meus passos, cada pequena linha, parágrafo e observação, cada amostra analisada novamente até chegar ao meu objetivo.

Fui acompanhado por Magnus e seu fiel secretário e também filho, Johan, dois homens de fios negros com uma charmosa “marca” de nascença; fios brancos logo abaixo do cabelo cortado no estilo channel, o que os deixava absolutamente belos. Eles eram reservados, conversavam só o necessário e, graças a algumas pesquisas minhas, eram bastante rígidos e profissionais. Bem, era melhor assim. Fui introduzido à equipe de estudos, a cada um deles com igual respeito, os quais cumprimentava com apertos de mão e sorrisos gentis. Todos pareciam bem. Em pouco tempo, estava diante daquela belezinha: Regem, que significa “rei” em latim, uma planta misteriosa encontrada por uma petroleira durante uma escavação. Segundo eles, a planta rapidamente chamou a atenção por possuir uma estranha luminescência esverdeada e por atrair basicamente metade das plantas ao seu redor, multiplicando-as e formando uma espécie de “gigantesca parede de plantas como forma de proteção”, o que denotava uma incrível senciência por parte da planta.

As pesquisas foram progredindo, assim como minha amizade com todos ali. Sentia-me aceito, todos eram bons demais, agradáveis demais, assim como o diretor da empresa que financiava nossa pesquisa, sempre solícito com quaisquer adendos e requerimentos nossos para incrementar a pesquisa, fazer testes e análises minuciosas. Porém, com poucas semanas, fui encontrando barreiras. Primeiro, uma sala de instrumentos especiais para pesquisas podia ser acessada por somente uma pessoa. Como se não fosse suficiente, precisávamos passar detalhes e progressos diários em fichas, de forma muito minuciosa e suspeita. Depois, veio a gota d’água: agentes governamentais na instalação, indo a uma das salas misteriosas e jamais retornando da mesma. Ela levava a andares subterrâneos? O que havia ali? Nosso chefe, Carlos, era calado demais, porém consegui roubar seu crachá enquanto eu conversava com, confessarei, certo jeito “sexy”. E pronto! Como não haviam câmeras pelos corredores por estarmos numa instalação à parte da empresa, por assim dizer, fui sem medo algum depois de todos terem ido embora e eu ter ficado esperando no vestiário pacientemente.

— Certo. Vamos ver o que tem na caixa de Pandora. — Sussurrei enquanto ia andando pelos corredores vazios e cinzentos, passando o crachá de Carlos pelo aparelho de reconhecimento e torcendo para não dar problemas e algum alarme disparar. Positivo. Com um sorriso, abri a porta, encontrando primeiramente uma escada. Certo, então, descendo as escadas sem iluminação alguma rumo ao laboratório secreto!

Depois do último degrau, uma ampla sala acendeu automaticamente as luzes assim que eu entrei. Haviam inúmeros computadores, dispostos em uma ampla cabine dupla, de cada lado de uma rampa que levava a cinco tubos cheios de líquido de um verde-escuro intenso e borbulhante. Estreitei meus olhos, reconhecendo a planta ali dentro. O que porra eles estavam fazendo? Recuei dois passos, vendo que, à minha esquerda, uma porta levava a outro setor. Fui imediatamente até a porta e abri-a, me deparando com uma sala muito maior, com um gigantesco tonel logo abaixo daquela espécie de sacada improvisada com uma escadaria que dava lá embaixo. Novamente, mais computadores, mas também estavam Magnus e Johan. Carlos estava com eles. Puta merda! Ele parecia irritado. Agachei, observando-os com cuidado e temor.

— Eu perdi o meu cartão, não sei onde, mas tenho certeza de que ninguém o pegou, senhor. — Falava Carlos com exasperação, parecendo estar discutindo com os outros dois.

— Tem certeza absoluta de que não foi nenhum membro da pesquisa? — Questionou Johan, de braços cruzados.

— Não, eu... — Ele parecia confuso, parecia pensar direito na pergunta. Magnus revirou os olhos, pegando uma arma de seu paletó.

— Perguntarei mais uma vez: você tem certeza de que este cartão não caiu em mãos de outros? — Perguntou Magnus com rigidez. Carlos engoliu em seco.

— Eu, eu acho que foi o novato. Ele veio conversar comigo por longo tempo, deu de cima de mim, eu acho, vejam bem, eu acho que ele possa ter pego o cartão. Ele já me perguntou uma vez aonde a porta proibida dava. — Ele se desculpou, dando de ombros. Quase senti pena de Carlos, vendo sua tez suada e os olhos castanhos arregalados em terror. Fixei tanto em sua expressão que, subitamente, deixei um grito de terror sair de minha garganta assim que um furo fora feito bem no meio de sua testa. Automaticamente pai e filho se viraram para mim, e o sorriso que se formou nos lábios finos de Magnus me assombrou por dentro. Ele iria me matar sem dó nem piedade.

Automaticamente, corri para dentro da primeira sala e caí para trás, tropeçando no próprio vento ao ver, abismado, que dentro de cada um dos tanques haviam corpos decompostos dos soldados ainda com suas fardas militares.

— Ossos do ofício, você sabe bem como é, não sabe? — Magnus sorriu, já na porta. Ele tinha o quê, seus cinquenta anos? Como havia chegado ali tão rápido? — Sou muito rápido sim, como deve estar se perguntando. Graças a essa plantinha, tenho o vigor de mil búfalos. Sou forte também, quer ver? — E, com um largo sorriso, ele pegou a porta de ferro e, com força sobre-humana, ele simplesmente quebrou um pedaço, formando uma espécie de barra de ferro ou taco. — Vou acabar com você mais rápido que um ser humano consegue pisar numa formiga. — Proferiu ele, convicto.

— Matou soldados militares? O governo vai chegar em breve até você. — Sorri de canto, dando um chute em suas partes íntimas e então correndo rumo as escadas, porém sendo impedido por uma barra de ferro que perfurou meu tornozelo direito, fazendo-me cair de testa num dos degraus. Buscando apoio para me arrastar, podia ouvi-lo se aproximando, mas eu não iria desistir assim tão fácil. Iria denunciá-los.

— Oh, jovem, você não entende, não é? Foram eles que financiaram a pesquisa. E você não pode fazer absolutamente nada para me conter, pois você não é nada, está me entendendo? — Pegando-me pelo pescoço, fui erguido do chão e sentia meu pulmão liberando os últimos fôlegos que continham, à medida que minha visão ia ficando turva. Não conseguia falar, me mover ou respirar, até que sinto o puxão do ferro em meu tornozelo ser puxado e jogado longe. De mim, droga, não iria conseguir alcança-lo.

— Devíamos mata-lo. — Johan falou de braços cruzados da porta, me olhando com um misto de indiferença e nojo, nem parecendo ser o rapaz agradável que me tratara tão bem no início.

Puxado pelos cabelos, sentia a mão pesada e dura como rocha de Magnus me arrastar como se eu fosse um nada, apenas uma boneca. Meu fôlego ia e vinha rápido demais, e para piorar minha mente só me lembrava repetidamente que ele tinha feito algum tipo de experimento com aquela planta para ficar mais forte, mais bem reservado, mais resistente e rápido, e eu não iria conseguir denunciá-lo, afinal se o próprio governo o patrocinava e enviava pobres soldados como cobaias, o que eu poderia fazer para detê-los? Mas mesmo assim me agarrei a uma das barras de ferro, tentando a todo custo sobreviver, nem que fosse por mais um pouco de tempo. Um chute em minhas partes baixas me traz a dor de mil socos na face. Justo, certo? Minhas mãos são puxadas, então me jogam de encontro a balaustrada da sacada de metal que dava direto para o tonel. Este estava cheio de um líquido verde-limão, de longe nem parecia com o verde-musgo dos recipientes com os soldados em estado de comatosa.

Atenção: Trigger Warning a seguir contém material sensível acerca de um estupro:
— Este é o nosso soro em estado de pré-fabricação. Aí é tão quente que sua pele derreteria em menos de um minuto. — Sussurrou Magnus em meu ouvido, pondo-me de pé com o peito forçando na barra de metal, com a face virada para o abismo, o vulcão de líquido verde gosmento que me esperava. Logo eu suava em bicas pelo calor extremo. Foi então que meus olhos se estreitaram e franzi o cenho sentindo as mãos de Magnus rasgarem minhas roupas.

— Pai, isso é mesmo necessário? Esse tonel leva a um esgoto ilegal numa praia deserta, mas, se o encontrarem, poderão rastrear-nos, pai! — Johan falava, mas não podia vê-lo por sentir a pressão de meu peito contra a barra de ferro.

— Cale-se e saia daqui, eu irei me virar. — Gritou Magnus, e então ouvi passos se afastando. Então era isso? Sem me ajudar, sem interceder e pelo menos me dar uma morte digna? Grunhi, abafando o choro que queria sair, mas consequentemente meus olhos se enchiam de lágrimas. Ao percebê-las, Magnus pousou a mão na minha face, enxugando-as com as mãos e, em seguida, ouvi ele lambendo-as e gemendo. Com nojo, podia sentir algo já encostar em minhas nádegas que, ao contrário de minha face bem debaixo do vulcão verde que era o tonel, estavam frias pelo vento dali.

— Você não precisa fazer isso, apenas... Me mate. — Pela primeira vez desde aquele embate fatal, falei baixo, com lágrimas nos olhos escorrendo por minha face já úmida de suor.

— Eu tomei essa belezinha nas veias hoje e estou louco para tirar o atraso de anos, delícia, não vou me conter a essa altura do campeonato. — E então, pude senti-lo me invadir, com a violência e brutalidade de um animal selvagem. Tentei gritar, me espernear, alcança-lo com minhas mãos, mas ele era maior e mais forte, simplesmente segurou meus dois pulsos com a mão direita e, com a esquerda, tapou minha boca, indo com tanta violência que, a cada estocada, podia sentir meu corpo ir para a frente e ficar à beira daquele vulcão quente e verde. Eu iria cair, ele iria ficar tão enfurecido naquele seu sexo selvagem que iria simplesmente me jogar dali, ou então me deixar cair por acidente no meio daquele estupro.

Foi então que, após minutos que pareceram mais horas, senti um puxão no cabelo e um beijo em meu pescoço, possessivo e devorador, e como reação nada pude fazer a não ser fechar os olhos, querendo que aquilo acabasse logo de uma vez. Pude sentir o invasor sair e, respirando, engoli em seco com o líquido esverdeado entre minhas pernas. Senti o choro querer emergir, mas como não queria irritá-lo apenas levei a mão esquerda aos lábios, abafando tudo. Virando-me para ele – que estranhamente me soltara –, olhei naqueles olhos frios e gélidos, da cor do céu. Ele iria pagar por aquilo, ah, se iria. Ele retirara a arma de seu bolso e, com um sorriso, atirou em mim. Não doeu, na verdade, era mais como sentir um travesseiro ser jogado contra seu corpo com velocidade o suficiente para jogá-lo para trás. Despenquei, caindo e sentindo o calor aumentar, até que tudo se apagou.



...



Lentamente, fui me esgueirando no chão, tateando-o e reconhecendo ser o chão do estacionamento. Haviam muitas pessoas caídas, mas algumas já estavam de pé e me olhavam com curiosidade, enquanto eu me apoiava em um carro e em seguida dava passos para trás, apressado, assustado com o som do seu alarme disparando e machucando meus ouvidos. Respirei profundamente, tentando organizar os meus pensamentos, mesclando passado e futuro num emaranhado de memórias traumáticas e angustiantes. Eu girei, depois girei para outra direção, sem saber direito onde eu estava, ou o que estava fazendo. Minha respiração ficava acelerada demais, meu coração palpitava como um tambor em meu peito, parecendo querer explodi-lo. Pus as mãos nos joelhos, tentando em vão respirar.

— Senhor, você está... — Antes do homem terminar, bati em sua mão, abrindo a palma de minha mão e fazendo uma flor desabrochar bem ali, com seus talos ameaçando lançar veneno. O homem recuou dois passos, assustado – a verdade era que eu estava mais assustado que todos ali. Ainda temeroso e tonto, engoli em seco e, molhado, dei meia-volta e fui caminhando com passos rápidos rumo à minha casa, onde lá eu poderia ficar tranquilo e longe de problemas.



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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Rory Chärdan em Ter Jan 16, 2018 5:49 am



Witchboy
Já tá louca, bebendo
Tão solta, envolvendo, eu tô vendo não para, não. Vai, malandra, an an. Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum, an an tutudum, an an.

Brasil, I'm Devasted


Sentado na grama úmida e verde debaixo de uma grande sombra espalhada d’um carvalho no Central Park, tomava tranquilamente um sanduíche de sorvete para me refrescar do calor voraz que assolava aquele dia; não existia outra palavra que não fosse bipolar para descrever o clima em Nova Iorque durante a primavera, acostumar com ele era uma tarefa complicada para mim, se saia do alojamento com um shorts, o vento frio e a chuva me deixavam no chinelo, se por acaso colocasse um casaco, por volta do meio dia o sol começava a me torrar, resolvi desde então sair  sempre acompanhado por uma mochila com itens básicos de sobrevivência, incluindo perfume, desodorante, algumas barrinhas de cereais e uma garrafinha com água, outra coisa genial daquela cidade era os vários pontos de apoio como bebedouros e totens para carregar o celular.

Diferente de mim, Nyx se adaptava muito fácil ao clima, enquanto em dias de muito sol eu precisava passar várias camadas de filtro solar sobre a pele, a gata nem sequer reclamava, aquele felino tinha uma mania de me encarar com um ar de soberba e debochar de cada ato meu que saísse errado com um “eu te disse”. O pior é que ela tem essa mania de estar certa o tempo todo, como uma velha experiente e chata, uma mãe que sabe exatamente quando vai dar merda. Era difícil enxerga-la como um animal, podia imaginar ela como o “grilo falante” do Pinóquio, só que menos comunicativo e mais esnobe, minha consciência. Contudo naquela manhã não passávamos de um menino e seu mascote que insistia em caçar uma mariposa entre as margaridas, era confortante ver a essência felina da Nyx para variar um pouco, me sentir como um ”garoto normal”, fazia com que eu esquecesse que possuía um elo telepático com uma gata que na verdade era uma sábia criatura sobrenatural, que eu era dotado de magia... fazia com que eu me perdesse em pensamentos imaginando voltar pra casa ao fim da tarde, receber um abraço de minha mãe, correr para o banheiro para me lavar e assim jantar, logo mais, a horrível e fedorenta sopa de legumes da minha vó, enquanto ria com as histórias completamente mentirosas de pescaria do vovô.

Por alguns minutos me mantive em silencio, segurei algumas lágrimas, eu não poderia ficar daquele jeito por causa de um conceito banal e estereotipado da família, eu tinha que ser grato, afinal tinha a Nyx ali comigo e por anos a Miss Moore me acolheu como uma mãe durante meu tempo no conservatório, ela que me incentivou a vir para a América e olha onde eu estou agora! Nova Iorque, a cidade que nunca dorme; definitivamente não podia ficar triste e não, não iria ficar. Ergui minha cabeça confiante, a metade do sorvete que ficou em minha mão durante meu devaneio, jazia em uma gosma pegajosa. – Nyx, preciso ir até o bebedouro pegar água para lavar a minha mão. – Ela nem se deu o trabalho de prestar atenção em mim, mas tinha certeza que havia entendido, afinal estamos ligados o tempo todo.

Caminhei até o aparato, peguei o cantil de minha mochila e o enchi até a metade, feito aquilo derramei a água pela minha mão direita, treinar magia me fez ambidestro, mas naturalmente minha mão dominante era à destra, então costumava agarrar os objetos com ela. Estava próximo a uma ponte de pedra que permitia a circulação na parte mais elevada do parque, a ponte formava um pequeno túnel dotado de eco e minha mente gritava para que cantasse naquele lugar, antes que eu agisse por impulso, guardasse minhas coisas e corresse até o túnel improvisado ouvi um miado familiar. Em uma fração de segundos minha visão convergiu com a da Nyx, e pelo que parecia ela estava em cima de uma árvore observando uma nuvem negra que se formava ao longe, relatando que ela era um mal agouro, os pelos de meu corpo eriçaram-se, o cheiro de enxofre começou a pairar pelo ar a medida que enxergava pingos rubros como chuva se alastrarem pelo céu de Manhattan, focalizei a imagem de Nyx ao meu lado, estalei os dedos e em uma dobra de energia mística o felino esgueirava-se por minhas pernas. – Eu sei que precisamos nos abrigar. Não me diga o óbvio, senhorita Sherlock. – A tomei em meus braços e corremos para baixo da ponte, e mais uma vez a gata estava certa, a chuva parecia corroer os brinquedos plásticos e irritar a pele de alguns, o céu estava escuro e sombrio, o sol já não brilhava mais e se não bastasse as pessoas começaram a desfalecer, caindo de forma aleatória pelo parque, naquilo que parecia um estado de coma os semblantes mudavam expressando reações diferentes, cujo alguns chegavam a se debater.

Estendi meus braços me concentrando em cada um que se mantinha em meu campo de visão, quando Nyx mordeu minha canela. – Como assim não devemos nos envolver? São civis que precisam de ajuda e nós podemos ajuda-los, se você não quer o problema é todo teu... – Voltei a me preparar para o feitiço, focalizei cada um ali em minha mente e conjurei uma magia de proteção que por mais simples que fosse daria trabalho pela quantidade. – Orbis involucrum! – o som das palavras emergiu de forma confiante e intensa, ecoando pelo ar com força, brandi os braços como um maestro perante a sua orquestra, gesticulei círculos com os indicadores e médio e arrastei minhas mãos em direção ao meu tronco, dando assim o comando para que as bolhas vermelhas translucidadas que envolviam os civis fossem arrastadas para o meu abrigo improvisado.

Salvando aqueles que pude, encostei meus ombros à parede curva de pedra e arrastei meu dorso vagarosamente até o chão, o feitiço não havia me cansado, no entanto eu me sentia sonolento. Percebi que Nyx já havia adormecido em meio aos demais ali, que agora já não estavam mais em suas bolhas protetoras. Minha visão ia escurecendo aos poucos, o odor ali ainda era forte o que me causava uma leve dor de cabeça, meu corpo já se encontrava pesado, as pálpebras cobriam meus olhos e tudo que eu enxergava aquela altura era o breu.

...

- Meu bebê, é hora de acordar! Rapidinho pequeno Clare, não vai querer deixar o grande Abe esperando, né? – senti o toque delicado dos lábios macios da mamãe repousarem no topo da minha cabeça. Arregalei os olhos em um pulo súbito. – O vovô?! Não posso deixar, não! Eu tenho que ir ver o vovô! – minha voz era aguda e alegre, meu corpo era cheio de energia que precisava sair do quarto minúsculo com paredes pintadas em um tom azul desbotado, a cama que rangia, os vários rabiscos de criaturas mitológica presos a parede e claro os olhos azuis da minha mãe, eram aqueles olhos que animavam todas as minhas manhãs durante todos esses oito aninhos. E antes que eu pudesse falar qualquer coisa, já estava junto a mesa me servindo com panquecas e melaço. – Calma, pequeno Clare, assim vai acabar comendo mais que o seu avô. – Lils, minha mãe, falava com toda doçura e paixão que só ela conseguia exprimir. – Eu tenho que comer que nem ele se eu quiser ficar fortão, manhê! – um toque pesado e carinhoso afagou minha cabeça desgrenhando meus cabelos. – Esse é o meu campeão, o pequeno Grande Clare! – um sorriso preencheu meus lábios, estava muito ansioso, logo, logo, estaria nas montanhas treinando magia com o vovô Abe e naquele dia ele me ensinaria algo incrível.  

- Não coma tão rápido ou ficará com indigestão alimentar, Rory!

- Pegue leve com o garoto, Aura... Ele só quer ficar parecido com o seu vovôzão!

- Espero que ele não puxe a sua impulsividade, Albert... Não queremos mais um “espírito livre” nesta família...  - Vovó encarou minha mãe de relance de forma sutil e sistemática, e em seguida prendeu seu cabelo castanho avermelhado atrás da orelha.

- Não seja tão rabugenta querida, venha cá, deixa eu te dar uns beijinhos para amansar a ferocidade desse teu coração! – com as duas mãos tapei os olhos para não ver aquilo, era nojento demais. - Ew! –

...

E em um piscar de olhos estávamos no topo da montanha, meu corpo se encontrava completamente embalado em um casaco de pele de texugo, vovó era muito exagerada com essas coisas de superproteção e mamãe amava tricotar casacos de texugos, eram o par perfeito por mais diferentes que fossem. – Pequeno Clare! Preste atenção, você deve canalizar sua vontade em um único ponto, é importante que você use suas emoções ao seu favor para que eles não dissipem o seu potencial mágico, se ajudar imagine como será a explosão de toda a mana que é expelida de você e... – Agitei meus bracinhos rapidamente.

- Para, para, para! Mana o que, eu num tô entendendo nada, Vovô. – o grandão logo proferiu uma risada tocando meu queixo com seu indicador.

Ta legal, campeão. Imagina que o seu corpo inteiro está cheio de vento! – arqueei uma sobrancelha o interrompendo mais uma vez,

- Tipo gases? Igual os que o senhor solta depois de comer rabanete?

- Isso, isso... Ha! Tipo gases. Porém você deve soltar esse, hm... Puns, pela ponta dos dedos. Então concentre-se nisso! -

Não consegui segurar a gargalhada. – Vovô! Não sabia que fazer mágica era tão engraçado...

- Na vida, Rory, um pouco de leveza sempre ajuda a enfrentarmos situações mais difíceis, lembre-se disso e você conseguirá amansar até mesmo os corações mais ferozes!

- Como o da vovó, vovô?

- Isso mesmo, como o da sua vó Aura! Agora preste atenção, você precisa saber evocar magia, expressão mágica, para conseguir realizar feitiços de fato. – Vovô tomou postura com a base de seu corpo firme, assim como havíamos treinado antes e por fim começou a mover seus braços gentilmente, liberando da ponta de seus dedos esguias faíscas cor-de-rosa.

- Ta, ta! Entendi! Minha vez agora. – Tomei a mesma posição  e comecei a mover os braços, tentando “soltar pum” pela ponta dos dedos, imaginei em como meu avô era poderoso e como eu queria ser tão poderoso como ele, imaginei a neve e como eu poderia mover cada floco daquele, imaginei vovó e mamãe e como ficariam orgulhosas se eu conseguisse manipular a magia. Depois de um tempo senti minhas mãos envolvidas por algo viscoso e morno, era uma sensação agradável, porem um azedume preencheu minha boca.

- Rory já chega! Chega por hoje! Pare! – meu avô falava com uma voz aflita, podia jurar que estava zangado, abri os olhos, já que estavam fechados para assim eu me concentrar melhor, e então notei a energia meio transparente de cor vermelha escura em minhas mãos, por alguma razão a vegetação ao meu redor havia secado e se tornado negra, os olhos azuis do vovô estavam estáticos e ordenavam para que eu parasse.  - Mas vovô, eu estou indo tão bem! – o avanço dele sobre mim foi inevitável agarrando-me pelo pulso – Já chega, Rory Clare Chärdan! – ele estava enfurecido e aquilo me atordoou, fazendo o medo e a ira sobressair, os elementos necessários para que eu perdesse o controle, em resposta um impulso fluiu de minhas mãos, afastando o meu avô de mim.

- Vovô! Desculpa, desculpa! – meus olhos encheram-se de lágrimas, enquanto cutucava seu ombro esperando respostas ele parecia mais pálido que o normal. – Rory, está tudo bem... – ele sorriu de forma apática. – Por hoje chega, está bem? Vamos para casa.

...

O cenário mudou novamente, estávamos na sala da minha casa, dessa vez eu olhava da escada enquanto mamãe e vovó cuidavam do vovô, tudo estava tão estranho desde que vovô tinha pego aquela pneumonia. E o pior era que elas não conseguiam cura-lo. Naquele momento escutei um miado estridente e senti minha mente partir, após o som minha posição havia mudado, encarava o ambiente de um novo ângulo, estava atrás da minha mãe, entretanto parecia estar invisível e intangível para os demais ali, nesse novo ponto eu também conseguia me ver só que com oito anos de idade, foi quando a ficha caiu, estava sobre uma ilusão mental, um sonho, ou quem sabe um transe. Só que cada episódio daquele havia acontecido de verdade, entendi por fim que se tratava de uma regressão mental, Nyx por sua vez surgiu ao meu lado, talvez por termos um elo mental e por isso acabamos juntos naquele sonho; provavelmente por não conhece-la durante a infância, minha mente entrou em colapso ativado “meu eu mais maduro” naquele momento.

Foi então que escutei da minha vó algo que não lembrava de ter ouvido antes “Não podemos reverter, Lilith. Isso é magia negra e está além das nossas capacidades. Rory precisa de cuidados especiais ou irá causar mais danos por aqui; tem que deixa-lo ir.”. Senti uma adaga quente cravar meu peito, a verdade podia machucar muito mais que um sabre afiado. As imagens do dia com meu avô vieram à tona mais uma vez e dessa vez pude observar junto de Nyx, em um novo ângulo, o mesmo do meu avô, como usava magia negra para conjurar uma maldição, uma praga que atingiria e mataria o meu herói.

Pare! Você vai machuca-lo! – gritei em meio a lágrimas e soluços, ergui a mão conjurando uma magia na tentativa de impedi-lo, de me impedir, era inútil. Tombei de joelhos no chão, abracei meu corpo e chorei, enquanto minha mente repetia a cena de novo e de novo, me torturando; até que o ambiente mudou mais uma vez, estava ao lado de um rapazinho fardado, em um quarto mal iluminado pela penumbra, sem sombras de dúvidas ali era torre leste do conservatório Le’Fay, meu lugar secreto, onde eu podia chorar sem ser perturbado. Nas mãos do “outro eu” havia uma carta amassada, foi através dela que eu soube da morte e funeral do meu avô, não permitiram que eu fosse, foi naquele dia que eu tive a certeza de que nunca mais veria minha família novamente. De forma literal um buraco formava-se em meu peito, sentia dor muita dor, encarei Nyx e então recebi mais um baque vindo dela. “Isso é apenas a sua mente brincando com o seu secreto, reaja!” a voz feminina ecoou pelo espaço quebrando toda aquela realidade me levando a um estágio sóbrio. Encontrava-me flutuando no vazio – Você está certa, Nyx... Sempre certa. – entrei em estado de meditação e evoquei minha energia mística para me livrar das amarras da mente. – Finite Mysticis. Fim da magia. – Infelizmente o encanto não funcionou, porém lembrei do que Miss Moore havia me ensinado, a fórmula do encanto é apenas uma parte, o que importava para expressar a magia era evoca-la, senti-la e focalizar – Carcerem Libertatem, carecerem libertatem... – repeti aquelas palavras como um mantra até sentir que meu corpo estava prestes a acordar.

Finalmente a luz invadiu meus olhos, senti também o toque gelado do focinho da Nyx em minha mão, não estava mais sonhando. Com um pouco de esforço apoiei minhas mãos na parede de pedra atrás de mim e usando-a como ponto de apoio me reergui, as pessoas que estavam ali acordavam pouco a pouco, a cena era um tanto confuso já que elas se olhavam sem entender muita coisa, ou como haviam chegado ali. Saí sorrateiramente do túnel junto com Nyx, em meus braços, ela tratou de limpar algumas lágrimas em meu rosto que não haviam enxugado. A medida que cruzava as ruas tomando rumo ao Lincoln Center, notava que todas as pessoas haviam sido afetadas de alguma forma por aquela chuva estranha, apressei o passo, tudo que eu queria naquele momento era um banho quente.      





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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Beatrice Alanis Agnes em Ter Jan 16, 2018 3:08 pm


memórias ácidas
PRESSÁGIO

Nada mais sufocante do que agüentar uma sala com quarenta alunos agitados em uma escola que ao menos tem um ar condicionado. Porém, no rosto de Beatrice isso passava quase despercebido, pois a jovem exibia um sorriso cansado, mas igualmente radiante. Ela entregou as notas de seus alunos, que ficaram bastante animados com seus resultados, mas não ficaram tão felizes quanto a professora. Diga-se de passagem, uma prova chata e teórica não é lá o melhor meio para avaliar alguém, mas ainda assim ela se orgulhou dos seus alunos terem conseguido formular todas as questões de maneira tão correta.
Sua cabeça estava em um mundo aleatório, mas assim que saiu do monstruoso prédio da escola pública e pisou na calçada, ela reparou que algo de muito estranho estava acontecendo. Uma chuva torrencial caia e isso poderia soar normal, o clima é tão inconstante quanto o ônibus que Beatrice pega. Mas isso era anormal, a chuva tinha uma cor vermelha e a jovem poderia jurar que ainda era meio dia.
Era estranho perceber que tudo estava mudado, fazia um pouco mais de três horas que havia entrado no colégio e o céu outrora estava azul com um sol radiante. Ela não saiu da portaria do colégio, diversas pessoas estavam espremidas ali tentando descobrir o que estava acontecendo.
- Isso é muito estranho... - Um professor estava de pé ao seu lado, com uma mão na face encarando a situação. - Será que já tem notícias sobre isso em algum lugar?
- Eu acabei de ler que isso aconteceu do nada e que aparentemente essa chuva vermelha tem um nível de acidez acima do normal. - A responsável que fica na portaria toma a voz e resume um pouco daquilo que leu. A explicação em si não dizia muito da origem de tal mudança, mas deu a entender que era perigoso ficar debaixo daquilo.
Todavia, nem todo mundo estava sabendo, ou sequer tinha capacidade para entender direito o que estava acontecendo. Uma menininha passou correndo como um foguete para o outro lado da rua, sem que as pessoas dali tenham reparado. E assim que ficou debaixo da chuva, ela começou a gritar de dor.
Beatrice não pensou duas vezes e foi atrás da criança, ela sentiu na pele o que aquela chuva causava. A cada gota que a tocava a sensação de queima inebriava a sua mente. Ela não poderia imaginar o que a dor de uma criança de quatro anos.
Com o seu corpo esguio, ela se lançou como um escudo sob a menina. Ela esperou até que pudessem atravessar e correu até o prédio de volta.
A enfermeira da escola havia sido chamada e já estava pronta para pegar a criança, mas Beatrice já estava com ela em seu colo prontamente seguindo a enfermeira para o consultório.
Os machucados na pele fina da pequena eram feios, e ela estava mal se mexia.
- Vicky, porque foi fazer isso, criança? - Era uma pergunta sem resposta. Aquela era uma criança conhecida por toda a escola por seu ímpeto e seu costume de correr como se não houvesse amanhã. Ela era também morava no mesmo bairro que Bea, as duas quase sempre iam para a casa juntas quando os pais de Vicky a esqueciam no colégio. A vida da pobre criança não era muito fácil...
Ela estendeu o corpo da menina na maca da enfermaria e tentou reanimá-la. Ela não reagia, mas parecia estar inconsciente, como se estivesse dormindo. A enfermeira cuidou de seus machucados e aplicou um sedativo para dor.
- Você precisa arrumar isso aí também, não está nada legal. - Bea deu um tempo para olhar o estrago em sua pele. As gotas haviam caído como se brasas estivessem sendo jogadas em sua direção, aquilo não estava nem perto de serem simples queimaduras.
Depois de limpar os machucados e de aplicar um produto para amenizar a dor, Bea saiu da enfermaria deixando Vicky sob os cuidados da mulher. A garota se dirigiu à quadra do colégio, onde aparentemente estava reunido quase todo o corpo discente e docente da escola, incluindo também os funcionários de outras áreas.
A escola era um grande complexo, que abrigava tanto crianças do jardim da infância, quanto o nível fundamental e médio. Logo, era de se esperar que aquele espaço estivesse um caos. E diretora tentava fazer sua voz ser ouvida em meio aquilo.
- ... vão ter que ficar por aqui, sim. - Algumas crianças choravam, outras riam e outras não davam a mínima. Mas a descrença na cara dos adultos era perceptível, eles obviamente não queriam passar a noite no trabalho. Ainda mais com tantas crianças pro perto.
Assim que Bea foi entrando na quadra, pronta para procurar um lugar para si, a diretora a viu e pediu para que ela se aproximasse. E tentando ao máximo não encostar em ninguém por causa de seus machucados, ela foi até a sua superior.
- Essa é uma professora de vocês que ficou na chuva por míseros segundos para pegar uma criança desprevenida que correu para a rua.  - Todos os olhares foram até Bea, ela poderia se sentir insultada em ser usada como um objeto em exposição, mas não ligava direito mais para o que acontecia. Sua mente estava confusa e sua cabeça mal processava a realidade à sua frente.
Várias vozes se misturavam e ela só queria encontrar um lugar sossegado para deitar.
- O professor responsável da turma será quem os acompanhará à noite. Então ajeitem-se em suas respectivas salas, porque está decidido que ninguém irá sair desse colégio até que essa chuva cesse.  
Bea foi para a sua sala, ela estava tonta demais para reparar se seus alunos a seguiam, mas quando entrou, viu que eles já até tinham arrumado o espaço para que pudessem dormir. Ela se permitiu rir, mesmo diante uma situação de perigo, eles tinham maturidade o suficiente para agir prontamente.
Ela se sentou no chão, em uma das extremidades da parede, alguns alunos curiosos foram até ela para perguntar se tudo estava bem, mas só foram respondidos com um sorriso cansado e um tombo de cabeça.
- Senhorita Agnes? Professora?
Ela desmaiou ali no canto...

[...]

O sol estava queimando seu rosto e sua pele, mas estava tudo bem, até porque sua mãe havia encharcado a menina de protetor solar.
- Os raios solares de hoje em dia são tão agressivos, minha filha...  – Sua mãe dizia, enquanto seu pai fingia imitar a voz dela. – Seurk, para de brincar com as minhas palavras!
Kirja ficava linda quando estava brava. Esse era o pensamento na mente da filha daquele casal de marcianos. Uma brisa suave tocou a sua pele e ela reparou que tinha oito anos novamente. Estava em uma praia qualquer, com seu pai fazendo um preparado com alguns peixes que havia pescado e sua mãe o ajudando. Aquele era um casal bonito, tanto na forma humana que utilizavam, quanto na forma verdadeira.
Ela levantou da toalha em que estava sentada no chão e foi andar pelo local, sempre gostou de conhecer tudo. E assim, ela acabou encontrando uma espécie de caverna, ela era escura e alguns barulhos estranhos estavam acontecendo ali dentro, mas a menina não tinha medo tão facilmente.
O chão estava nojento, como se pisasse em dejetos dos animais que ali viviam, mas Bea prosseguiu. A parede era estranhamente bonita e quanto mais entrava caverna adentro, a parede ganhava uma cor diferente. Na verdade, era como se diversos tipos de pedras tivessem se fundido para criar aquele visual deslumbrante.
Bea era curiosa, mas isso não é algo tão bom, às vezes. Essa sua mania a levou até uma espécie de esconderijo localizado bem no fundo da caverna. Os cristais presos na rocha brilhavam intensamente, criando uma quantidade de luz boa o suficiente para enxergar toda a área. Ali parecia ser um lugar para uma boa quantidade de pessoas, com camas dispostas e uma enorme quantidade de bagunça.
As paredes estavam forradas com mapas, dados e informações diversas. Também havia uma grande imagem de um planeta, um planeta que ela poderia reconhecer mesmo de olhos fechados, ainda que nunca tenha estado lá de fato. A menina passou seus dedos na imagem e sentiu uma pontada de inveja pelos seus pais, por já terem estado lá. Ele parecia tão bonito, com sua cor de areia e outras nuances. E a menina acabou deixando o disfarce cair, sua pele verde acariciava a foto.
- Queria tanto ter conhecido você...  – Ela suspira e volta ao seu disfarce, era raro estar em sua forma original, seus pais não permitiam que ela fizesse isso em público, então ninguém além deles, havia visto a menina assim. Até esse dia, pelo menos...
- Interessante essa cor da sua pele.  – Uma voz grave falou ao seu lado, e ela não reparou quando um homem, ou melhor, um marciano branco surgiu. Ele, com um sorriso macabro em seu rosto, encostou sua mão no ombro dela. – Eu já matei muitas pessoas com esse tipo de pele... Quem sabe não relembro os velhos tempos agora?
Ela sentiu o alarme soando em sua mente e só pensou em ir para a zona de proteção que eram seus pais. Beatrice correu para fora da caverna, correu sem nem se importar se pisava em partes pontiagudas. Ela só reparou que não havia sido seguida quando saiu da caverna e viu uma pedra rolar para fechar a saída. O homem só havia brincado com ela... ou talvez não.
- Bea, estava explorando novamente?  – Seu pai oferecia um sorriso caloroso para a menina, que tentou reagir da melhor maneira possível.
- Sim, eu estava vendo algumas plantas da região, elas são bem diferentes... – Ela ofereceu um sorriso sem graça e uma sombra de preocupação passou pelo rosto de seu pai, que logo voltou a agir como normalmente.

[...]

Em seu canto, com a cabeça apoiada no ombro de uma professora, Bea acordou. Uma lágrima escorria de seu rosto e um sentimento perturbador afligia seu peito. Aquele sonho fora vívido, como o dia em que aquilo de fato aconteceu... Ela não se recordava dessa memória, ou esteve fingindo não lembrar a vida inteira?
O grupo que vivia naquela caverna fora o responsável pela morte de seus pais. Ela matou o homem que havia falado com ela.
Foi graças à ela que seus pais morreram, foi por causa dela que todo o empenho deles de se disfarçar para viver a vida como uma família humana caiu por água abaixo.
- Você está bem, Beatrice? – Ela encarou a face da professora que estava ao seu lado, àquela era uma velha amiga que nunca soube da sua verdadeira origem. À sua frente todos os seus alunos a encaravam. Bea secou suas lágrimas e deu um sorriso para a amiga.
Sua mente estava nebulosa ainda, mas ela precisava se reerguer. Arrumou seu cabelo, se levantou e foi conferir a hora. A chuva ainda não havia acabado e seus alunos precisavam dela para conferir paz. Se atendo a isso, ela resolveu guardar suas dores para mais tarde.




NÃO USEM DROGAS, CRIANÇAS...

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EXCEDA SEU LIMITE...

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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Liam Hughes Sawyer em Qua Jan 17, 2018 6:17 am



I'm a sucker for pain
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Like, who gon' try us? Feeling the world go against us So we put the world on our shoulders




A mudança das estações é geralmente citado com um evento lindo. A realidade era que não se vive em um desenho da Disney. Não haviam fadas fazendo a mudança prática das estações pintando folhas para o outono e acordando animais do inverno. O dia a dia era normal, quase como um prospecto esperado. Com uma semana antes e depois da mudança de estações, já era esperado um tempo mais louco que comum independente da troca realmente.

O inverno na cidade era algo rico e simples por assim dizer, porque eram sempre muitos casacos, pessoas seguindo seus rumos. A pouca neve na rua porque a cidade não podia parar nem por mudanças climáticas. O detetive já esperava alguma chuva rápida só para molhar e refrescar pelo calor quente que fazia, nada muito insistente de verdade.  Suas roupas foram cortadas no meio do dia de trabalho; com uma camisa de manga curta, enquanto a jaqueta com a qual viera ficava nas costas de sua cadeira apenas caso saísse nas ruas.

O dia propriamente dito da mudança chegara e para muito já era de se esperar chuvas rápidas, alguma ventania e também aquele sol que não atrapalha o clima ameno. O diferente daquele dia não foi necessariamente a troca de estações, mas a escuridão que tomou conta, não apenas de um local, mas de tudo. As notícias chegaram rápido e aparentemente o globo estava nesse mesmo estado sem entender porque, ou como aquilo estava ocorrendo. O  mutante podia ler as mentes preocupadas de seus colegas e nem ele mesmo podia se tranquilizar para dizer qualquer coisa boa por falta de informações.

Desde a chuva para até mesmo a neve em um dia de verão. Era interessante lembrar disso quando se fazia sentido, mas cobrir o céu com nuvens negras não tinha qualquer semelhança com algo natural. Basicamente todas as hipóteses que seu criador mostrou ficaram ineficazes naquela situação. O dia de trabalho se estendeu basicamente ajudando as pessoas naquela escuridão. O capitão fazendo até uma coletiva para alertar a população como um toque de recolher, precauções para não pararem de viver mediante a essa situações sem explicações ainda.

Chegando em casa naquele dia que se tornara noite mais cedo, o homem se limpou tentando limpar um pouco daquela carga de trabalho fora do comum pelo escuro. Saindo mais limpo, mas ainda carregado se sentou na cama tentando limpar a mente e deitou na cama ainda de toalha focando em seus poderes. Fechou os olhos e tentou usar clarividência primeiro, sabendo que provavelmente veria o que já estava nos jornais e consequentemente seu interesse mudou. Respirou fundo e tentou focar em premonição tentando ver não só o futuro daquele céu, mas como também se havia algum tipo de razão que se revelasse em um futuro próximo.


"Estava em sua casa como de costume, ligou a TV antes de para o banho verificando se a situação de escuridão houve qualquer notícia sobre a mesma. Se manteve sentado em sua cama acompanhando os jornais por alto apenas zapeando os canais até ver um jornal e ver superficialmente as notícias que passavam pelas letrinhas embaixo da tela. O céu ainda estava escuro, agora tinha alguma doença pelo ar com marcas na pele e causadas por alguma toxina que cheirava a enxofre.

Apareceu a foto de uma forma química explicando algo especial naquilo, e então citarem os postos de saúde cheios com as constantes visitas com os mesmos sintomas. Inalar o ar era perigoso, por isso estariam distribuindo máscaras de ar para os moradores se prevenirem e em casos mais afastados. Ficava o aviso para comprarem o quanto antes pois os efeitos eram piorem conforme a quantidade inalada. Seu peito inflava cheio de peso como se fosse algo no ar também, mas a resposta era algo mais simples e natural: a preocupação. Porque estar naquela escuridão não era o pior realmente e estaria para piorar muito ainda.

Seguindo com parte do seu cotidiano, se arrumando pro trabalho e seguindo para a delegacia com uma pressa maior do que o comum. Como uma turbulência, a delegacia estava cheia de desconhecidos como uma central de emergência. Tosses, inchaços na pele, algum comentário sobre os barulhos de estrondos estranhos seguidos dos feixes no céu. Alguém o entregou uma máscara de gás e tratando de a colocar o quanto antes tentando entender direito o que estava acontecendo, porque era muita mudança em uma noite de sono.

Tentando sair da delegacia acreditando que estaria melhor lá fora para respirar com aquela máscara. Contudo, logo que saiu acabou por sentindo a chuva, se arrependeu porque significava que além de escuro tinham de ficar ilhados pela chuva. Passou as costas da mão na calça para secar a água, e então sentiu dor em dobro, viu a mão com ferida de queimadura apesar de não saber o que era. Ligando os pontos tarde demais e olhando para cima a tempo de receber em cheio uma gota  na testa e tudo escurecendo novamente."



Sentando novamente na cama arfando assustado com a cabeça pesada depois do uso do poder. Evitando exagerar no que fazia, seguiu para a cozinha e tratou de fazer café porque precisava pensar melhor no que previu. Estendeu a mão para o bloco de anotações e caneta da jaqueta preta, e foi anotando as sequências de ocorridos importantes. Notícias sobre algo no ar, então precisaria de uma máscara de ar, chegar mais cedo na delegacia e então cuidado com a chuva que queima.

Café pronto, quinta folha do caderno anotando detalhes daquele dia que começaram coisas, ou que não apareceu o início. Os efeitos da toxina no ar com odor de enxofre não tinha um início encontrado ainda, então o ideal era pegar alguma máscara antes da bagunça, e, seguir para a delegacia ajudar e tomar cuidado com a chuva. Olhando o celular por curiosidade e percebendo que já eram cinco da manhã, arregalando os olhos surpreso pelo tempo da premonição ter demorado tão fora de costume assim.

Balançando a cabeça tentando afastar tais pensamentos ruins de tentar fugir e não olhar para trás, ou até mesmo de mudar de realidade chegando nos extremos de seus poderes atuais. Querendo ajudar as pessoas pela escuridão e os danos seguintes que trariam para elas aquele estado. Apesar da visão, as informações que obteve só iriam ajudar a agir e não a resolver o problema de verdade. A origem da escuridão, o cheiro de enxofre e aquela chuva poderiam ser magia para até mesmo algum mutante terrorista qualquer.

Terminando seu café, sua mente pediu descanso e aproveitou da sua folga para analisar melhor suas chances. Ajudou pelo celular o seu parceiro com dicas de rever protocolos de emergência e revisar os equipamentos de proteção e quantidade nesses últimos dias. Não iria ficar realmente a toa e tratou de ir direto a fonte desses pedidos para agilizar o serviço de entrega. Estaria à distância com apenas serviços simples de organização e passando o que queria na frente das encomendas normais.

Até o retorno para o trabalho foi mais ativo pensando em como poderia melhorar o funcionamento dos policiais para receber doentes, aproveitando que o treinamento de rotina estava por vencer e eles deviam repetir logo. Em resumo de suas ações, os treinos com os policiais foram melhorando a prontidão dele com diversas situações de doentes e causas surpresas como o céu escurecendo repentinamente. Ou então algum tipo de doença aplacando a população e os policiais tendo de dar suporte em causas mais necessárias como nos hospitais e bombeiros.

Dois dias depois de sua folga, finalmente chegaram os equipamentos novos prontos para serem usados, e na quantidade certa de pessoas na delegacia naquele momento, sem novas contratações e estagiários. Final do dia escuro em casa parava deitado na cama revisando novamente seu bloco de anotações sobre o que mais faltava fazer, mas tirando a parte de se revelar avisando da premonição, só restava esperar o dia em questão. Era inicialmente outro dia comum até que ligou a TV e escutou aquela mesma mensagem como um dejavu estranho.

Arregalando os olhos se teleportando direto para o box do banheiro, e foi o dia que se aprontou pro serviço mais rápido com a pressa de chegar antes de toda aquela confusão. Já encurtando o tempo vendo o jornal e toda aquela calmaria se arrumando, além do atalho pelo caminho sem câmeras nas escadas usando seus poderes. Sua chegada na delegacia de fato foi antes de toda a bagunça, mas já haviam duas pessoas passando mal ali e tratou de começar a avisar o pessoal do que estava acontecendo.

Agilizando os recursos entre os policiais e então quem fosse chegando para ter o máximo de cuidado mesmo sendo uma delegacia e não um posto de saúde. Até mandou ligar para o posto e tentar fazer da delegacia um posto de emergência para quem estivesse nas ruas e fosse pego de surpresa pelos efeitos das substâncias estranhas no ar. Alguém da direção do posto direcionou 10% das vacinas que tinham apenas para minimizar os danos que haviam na pele e respiração dando também uma máscara para cada um poder se aguentar até um auxílio mais especializado.

A ideia era boa e se prontificou em pegar os recursos do caminhão, mas esquecendo do último item de sua lista: a chuva. Acabou por ajudar a transportar duas caixas antes de começar a cair as primeiras gotas do céu. Estava entrando na delegacia quando ouviu as reclamações na rua e estranhando serem vermelhos os pingos, pois não se lembrava de tal fato. Talvez como efeito borboleta, suas ações tenham piorado tudo e atrapalhado as possíveis soluções mais fáceis. Havia retirado a jaqueta pelo calor assim que chegara no serviço então só com a sua camisa clara de manga curta avançou contra a chuva perigosa empurrando o entregador para dentro do automóvel antes dele descer totalmente.

Já estava no meio do caminho então falar não era o bastante, tentou até entrar na traseira do veículo, mas sentando nas costas dele pode perceber que era tarde. Seus braços doendo com queimaduras visíveis e seu rosto doendo como se tivesse passado pimenta em ferida. A visão foi ficando turva, a voz do entregador diminuindo e o pensando ecoando em sua mente "Não consegui escapar dela."

...

Acordou com baixo assovio e então mexeram em seu corpo e assim que abriu os olhos, era Sauron com aquele semblante de impaciência: - Anda logo garoto, Forge esta chamando todos, avistaram o trem. - Concordou com a cabeça sem graça por justamente ele ter vindo o acordar, eles ainda não tinham se conectado por assim dizer e era como um desconhecido apesar de estarem na mesma equipe. Chegando na sala do apartamento pegou um pedaço de pão já começando a comer enquanto via os planos sendo revisados por Jason.

Mesmo sem trocarem olhares, ouviu em sua mente "Nate, melhore seu rosto, parece que morreu e te reviveram em outro corpo. Precisa estar bem para pararmos aquele trem." Confirmando novamente com a cabeça e entrando no quarto que era o salão de discussões devido a janela que dava para a rodoviária onde acabara de chegar o trem. Ouviu logo Forge discutindo baixinho consigo mesmo sobre a melhor forma de abordagem, talvez tentando se disfarçarem, ou então a brutal investida antes de partirem.

Negando com a cabeça o garoto o interrompeu: - Forge, não podemos mudar os planos agora. Devemos seguir o que já tínhamos planejado. Vamos escondidos na parte de cima e quando estivermos longe o suficiente atacamos e libertamos os humanos. - Ele não parecia exatamente convencido, porém não discordou do garoto e seguiu com o plano junto dos outros. Mortimer e Jason iriam com Karl voando, sendo que Jason mascaria suas presenças com ilusões, enquanto que em terra, Bruta e Forge contavam com o garoto e sua capacidade de ilusão telecinética.

Sendo mais difícil escapar dos desleixados carregadores do que realmente manter a ilusão. Tranquilo de entrar em um espaço que acabou por ficar vazio entre algumas caixas de carregamento humano e deixando as caixas travadas como se houvesse uma outra caixa no lugar deles. Pareceram algumas horas desde a entradas deles até estavam em uma distância boa da rodoviária e parecia estarem longe para enfim agirem. Procurou a mente de Jason e revisou o plano de ataque onde estavam para seguirem separados e agirem rápido. Brute tratou de abrir caminho para os outros dois enquanto Nate avisava do que tinha em cada caixa para não destruir e acabar matando inocentes.

Forge ordenou seguirem em frente logo que estavam livres para o próximo vagão, tratando de o seguir junto de Brute, pois em breve os vagões iriam sendo separados e ficando para trás já era. Depois de dois vagos com humanos presos, chegaram em um vagão com alguns dos Guerreiros Infinitos e dentre algumas das armas lançadas contra os três, o Nate atirou com seu olho esquerdo contra o projétil e acabou por acertar a abertura do teto. Ouviu um dos dois ao seu lado falar para remover o teto e com foco em sua telecinese acabou por abrir como uma janela. Sem saber direito no que tinha transformado todo aquele material, ou se apenas o havia erguido, só sabia que aquilo fora voando, então pouco importava.

Inclinou seu corpo para a direita e um pouco para trás escapando de uma adaga, retornando o corpo ereto e erguendo a mão esquerda na direção do atirador. O atingiu com uma rajada psiônica e mandou os dois de sua equipe se abaixarem imediatamente. Erguendo as mãos e as abaixando com  força da sua telecinese, fazendo todos os pés se ajoelharem tamanha pressão vinda de cima. Assoviando daquele jeito que Sauron ensinou como um sinal de raiva, e eles entenderam para levantarem, entre um desvio de soco, recuou e outra rajada de energia. Mais um pouco de luta bruta e força área mandando alguns dos exército voarem, seguiram para o próximo vagão.

Parecia ser enfim o último vagão, logo que Nate captou a mente de seus colegas no próximo vagão e esse era mais um repleto de caixas com pessoas presas. Repetindo o procedimento com Brute sobre o conteúdo, logo conseguiram passar, mas uma impressão mental o fizera retornar dois passos no meio do vagão. Forge o apressou para irem logo e não se afastarem pro vagão não se separar com eles dentro. Tentou rapidamente abrir a caixa contendo a menina de mente estranha, primeiro com o raio ocular encima e então com telecinese retirando as paredes.

Se abaixou verificando o estado da garota, em meio a contagem sentindo o pulso da mesma, conseguiu ouvir o desarme de arma nas suas costas. De algum lado, um dos Infinitos chegara ali e estaria para matá-lo, X-Man sentiu o seu corpo gelar e esperava aquilo acabar em um estalo da arma, quando ouviu o grito. Foi alto e perto do seu ouvido, fisicamente só sentiu o vento sendo espantado atrás de si, mas na frente era a garota que tentava ajudar. Theresa Cassidy seu nome dizia, era de uma forma estranha, importante para alguma missão futura. A jovem apagou novamente e tratei de a pegar no colo com pressa lembrando do bendito vagão.

Depois de levantar com ela, sentiu a separação do trem, tentou correr ao máximo e saltou com ajuda de seus poderes para não perder a corrida da locomotiva. Caminhou pelo vagão vazio com pedaços de robôs e enfim chegando ao grupo. Olhares confusos e Forge especialmente aborrecido com a desobediência. Nate desobedecendo ordens e firmando o pé que a garota ia com eles. Entrando em um vagão apenas para eles, e deixando Theresa com Brute por hora, se virando já tampando a bomba que o outro soltaria:

- Qual o nosso propósito senão ajudar os outros? Os humanos não tem como mesmo, mas ela é uma mutante que me salvou. - A figura paterna se virou para o mais jovem e apontou para o peito do mesmo: - Então você foi fraco para ser pego. Eu te ensinei justamente não cair por qualquer coisa. Você vai crescer Nate, mas não assim. - Forge balançava a cabeça negativamente e Nate avançou contra ele, tocou o braço de seu mentor e apertou um pouco: - Eu sei que quer o melhor para mim, mas você não me salvou só porque sou bonito, e assim como viu em mim, eu vi algo nela. Confia em mim Forge. - A resposta ficou no ar, pois o trem parara e eles teriam de descer e sair dali o mais rápido possível, os Infinitos iriam rastrear seu carregamento atrasado e rastrear a origem daquilo tudo em breve.


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Minha fala ≡
Forge ≡
Sauron ≡

I'm devoted to destruction. A full dosage of detrimental dysfunction

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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Freya Romanova em Qua Jan 17, 2018 6:32 pm

Presságio

Quando criança talvez tudo nos impressione, não é? Seja uma simples chuva repentina, ou um trovão rasgando os céus, ou... Deus, a neve! Que criança que nunca se impressionou quando viu neve pela primeira vez? Ou se assustou quando enfrentou sua primeira tempestade? É tudo bem bonitinho, na maioria das vezes, mas infelizmente essa fase dura bem pouco. Mais para uns que para outros, sim, mas  no meu caso... bem, fui daquelas que não enfrentou essa fase por muito tempo. Minha inocência morreu bem cedo aliás, por conta da Segunda Guerra Mundial que nós enfrentávamos na época, mas isso não importa...

Acontece que, como eu já lhe disse, eu realmente parei de prestar atenção no clima depois de um bom tempo. O que se agravou quando eu recebi poderes divinos e passei a ter os poderes de controlar o clima ou simplesmente não ser afetada por ele de forma alguma, mesmo quando voava por entre as nuvens de tempestade. Mas... dessa vez aconteceu algo que eu realmente não poderia prever. Desta vez, ignorar o tempo não era uma opção...

Mas tudo bem, antes de qualquer coisa acontecer, posso dizer que meu dia foi normal, dentro da minha rotina.

Acordei naquele dia maravilhoso mais uma vez com um sorriso no rosto. Ao contrário das pessoas normais eu não preciso dormir realmente, apenas durmo por que gosto, e também é muito bom abrir os olhos e me deparar com o rosto de Noir toda manhã. O que acontece já há alguns meses, mas ainda não consegui me acostumar com a ótima sensação que sinto nesses momentos, sabe? De toda forma, a luz do sol invadindo a janela do nosso quarto era maravilhosa, um despertador natural que não apenas me acordava mas também me aquecia logo que preenchia o quarto, me fazendo sempre começar o dia com o melhor humor possível para uma guerreira como eu. Após isso, eu tratei de fazer o melhor café da manhã que fosse possível, com ovos, torradas, frutas e até bacon, que eu dividi com Noir é claro. Batemos como sempre um bom papo, e apesar da nossa natureza justiceira e um tanto violenta... olha, iria se impressionar se nos visse em nossos melhores momentos. Eu mesma nem parecia a máquina de matar criminosos que costumo ser quando atuo como Black Eve.

Mas enfim, quando chegou o momento, tivemos que nos separar, já que ele tinha as coisas dele para fazer e eu não interromperia e nem me meteria de forma alguma. Gosto muito dele, mas não posso ser grudenta. Sem falar que, é claro, eu também tinha que trabalhar para fazer a justiça funcionar direito, e não podia fazer isso da cozinha de casa. E é claro que eu não esta acordando no horário certo para o meu trabalho, pois na verdade eu deveria entrar no trabalho três horas antes do sol nascer, de madrugada praticamente. Só que, felizmente eu possuo alguns privilégios que algumas outras pessoas não tem, então quase nunca preciso me preocupar com horários.

Não estou falando de chegar atrasada no trabalho e ficar por isso, não. Acontece que eu não sou burra, e no lugar do meu despertador eu fiz um feitiço, que estava marcado para ser ''ativado'' no horário em que eu deveria levantar. Ao invés do barulho irritante do despertador, todo dia na hora marcada para eu despertar, uma cópia minha era ativada e fazia todo o caminho da minha casa (do Noir na verdade, mas não importa agora) até meu trabalho, para trabalhar no meu lugar até eu acordar. Infelizmente trata-se de uma cópia minha que fica praticamente no automático, e me faz parecer quase uma retardada nos primeiros momentos do dia, mas não me importa. Ela fazia o básico e deixava tudo nos trinques para mim até eu acordar, então já era o bastante para mim. Quase como uma secretária mística. Porém, eu tinha muita coisa complicada para fazer como desembargadora, como casos importantes que eu deveria analisar, e não deixaria isso para qualquer uma fazer, por isso eu tinha sim que trabalhar. Mas após tomar o café da manhã e aproveitar o máximo do dia com Noir, não demorei para sair de casa e ir trabalhar. Graças à minha super-velocidade eu não demorei nem um segundo para entrar pela janela da minha sala e desativar minha cópia. Começando assim mais um dia meu, sem atrasos e com a carga toda.

E daí por diante eu aproveitei como pude o meu tempo. Analisando casos mais importantes, o comportamento dos juízes e um pouco de suas vidas também, para ter uma ideia de que eles estavam limpos ou que pelo menos faziam a coisa certa nos casos que julgavam. Sei que algumas coisas do que fiz nem são parte do meu trabalho, mas gosto de acrescentar isso aos meus deveres de vez em quando, só para ter certeza de que não estou cercada de inimigos e/ou corruptos.

Enfim, quando vi que praticamente não tinha mais nada de complicado para fazer, fora a organização de sempre do escritório, conversas chatas que era obrigada a ter com algumas pessoas e coisas do tipo, não consegui evitar de reativar minha cópia mística e deixar as coisas em suas hábeis mãos. Ela não tinha meus poderes, então não poderia ser tão rápida quanto eu mesmo que quisesse muito, mas ao menos ela servia de algo para algumas coisas simples que eu vivo com preguiça de fazer. E sim, a uso muito no trabalho, mas não me pesa a consciência isso, pois ela tem toda a minha personalidade, então as coisas não poderiam ser melhores. Mas deixando-a no comando à partir daquele momento, eu finalmente poderia buscar outra coisa mais interessante para fazer.

E é assim todos os dias, mas hoje em especial eu nem tive tempo de procurar a encrenca. Pois ela quem me encontrou.

Logo que abri a janela do meu escritório, antes que eu pudesse fazer a menção de voar eu vi as nuvens negras ocupando todo céu que até então era azulado. Como dito antes, isso para mim não faria qualquer diferença, eu nem sequer percebia em um dia comum, mas desta vez os deuses na minha cabeça não sossegavam. Não é comum isso acontecer, os deuses da magia ficarem exageradamente agitados, e por isso que eu fiquei em alerta logo que as nuvens começaram a ocupar o céu. E não bastavam eles me mandarem ser cautelosa ao sair de meu escritório naquele momento, também ouvi através da TV no cômodo ao lado notícias sobre nuvens como aquelas surgindo por todo canto do mundo, o que levantava ainda mais as suspeitas dos deuses sobre um ato de origem mística... E ainda havia muito por vir.

Quando o odor de enxofre surgiu no ar, eu não me aguentei mais e saltei da janela do meu escritório, começando a voar por New York em busca da possível origem daquele cheiro e tudo o que acontecia naquele momento ao redor do mundo. Não sou de ficar com medo, mas quando eu percebi que aquele evento de nível global poderia ser um novo plano de alguma divindade ou entidade superpoderosa que busca punir ou simplesmente dominar a raça humana, eu me aproximei novamente desse sentimento. Quero dizer, como é que eu poderia parar aquilo? Qual seria a sua origem? E o que estavam pretendendo com aquilo tudo? Eram mais perguntas à cada segundo e nenhuma resposta...

Comecei a me sentir perdida mesmo quando ouvi ao longe aqueles sons estrondosos aparentemente vindos do nada, enquanto que luzes avermelhadas surgiam pelos céus, na medida em que eu tentava arrastar pessoas para hospitais ao vê-los passando mal por causa do cheiro... Pela primeira vez em décadas eu não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo ou do que eu deveria fazer, e era uma verdadeira merda estar tão perdida.

Só que, enquanto tentava fazer alguma coisa para ajudar as pessoas e diminuir o quanto me sentia inútil diante daquele evento em escala global, mais uma vez o clima parece enlouquecer. De repente, uma chuva intensa começou a cair, e meus instintos me diziam que ela não era normal, muito antes de eu descobrir a verdade sobre a mesma. Primeiro, eu percebi logo a coloração diferente da chuva assim que as primeiras gotas começaram a cair na minha pele, o que realmente me deixou alarmada. Sem saber do que se tratava aquilo, eu imediatamente comecei a voar por entre as pessoas que estavam na rua e as empurrei até locais cobertos, apenas por precaução. Foi só depois que eu comecei a ver os efeitos da chuva nas pessoas que eu não havia alcançado e... até mesmo, em mim... Nas pessoas é claro que o efeito acontecia de forma mais intensa e rápida, mas ainda senti um mínimo efeito em mim, o bastante para perceber alguns detalhes sobre o que enfrentávamos. Acontece que aquela chuva não era normal, e nem apenas era vermelha como sangue, ela era ácida. Literalmente ácida. Por sorte não era nada muito poderoso, mas ainda assim danificava e fazia mal à muitas pessoas de bem que estavam caminhando pelas ruas e... quem sabe o que fazia com o resto do mundo?

Eu mesma não conseguia suportar a ideia a ideia de que aquilo acontecia também ao redor do globo, mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa para ajudar também as vítimas daquela chuva que começavam a desmaiar sem nenhum aviso ou pista de que aquilo aconteceria, eis que eu acabo me tornando outra vítima sua. Imaginei que estaria imune a pelo menos parte dos efeitos que aquela chuva tinha nas pessoas normais, mas não foi isso que aconteceu. Demorei para sentir algo por conta do meu corpo ser reforçado pelas energias místicas de várias divindades, mas acabei sofrendo pelos efeitos da chuva como qualquer outra pessoa. E aconteceu, enquanto eu carregava inocentes que haviam perdido a consciência de repente no meio da rua, eu mesma comecei a perder os sentidos.

Aos poucos minha visão foi embaçando enquanto voava, e de repente, tudo ficou escuro...


...


Era acordada então por um par de mãos suaves e gentis, que sacudiam meu corpo de fomar leve enquanto que uma voz familiar ecoava pelo meu minúsculo quarto- Amélie? -ouvia minha mãe chamar, e mesmo que estivesse ainda tentando me livrar do sono que sentia ao ser acordada cedo naquela fria manhã, não precisei de muito esforço para notar a tristeza que havia emcada palavra da minha amada mãe- Meu amor, pode acordar por favor? Eu e seu pai temos que falar algo contigo, algo importante. -ela me implorava, e eu não conseguia nem cogitar de dizer não. Não que ela fosse nervosa, mas sim por que eu detestava ver alguém com um coração tão grande e uma alma tão caridosa triste como ela estava... e pior ainda, desesperada... A curiosidade para saber do que é que se tratava aquele assunto urgente me fez acordar bem mais depressa do que o de costume, fazendo-me sentar na cama logo após ouvir as últimas palavras da minha mãe no quarto, enquanto se retirava- Lhe esperamos lá fora, tá? No carvalho sagrado. -e eu não me demorei para a seguir. Foi o tempo de eu abrir a janela de meu quartinho abafado naquela cabana modesta e deixar entrar o sol e o ar do campo, para me ajudar a acordar.

E é verdade, assim que senti o sol agradável daquele verão, o ar puro soprando contra meu rosto e bagunçando meus cabelos, eu terminei de acordar. Era sempre assim na minha adolescência, o clima agradável e relativamente puro que ainda havia no interior da Alemanha de 1934 conseguia me fazer sempre acordar com o pé certo, mesmo quando eu ainda era uma muito mais frágil e modesta humana.

Quando enfim espantei o cansaço e o sono com aquele meu primeiro contato com a natureza, deixei-me guiar logo em seguida pela curiosidade. Ainda queria saber o que preocupava tanto minha mãe, e o que a fez fugir da rotina e me acordar antes mesmo do café da manhã estar pronto. Então eu não me demorei, peguei o primeiro vestido limpo que encontrei em meu armário e saltei pela janela do meu quarto, que se encontrava logo atrás da nossa modesta casa. Era o caminho mais rápido que até o carvalho sagrado que mamãe havia me pedido para ir. Carvalho esse que só era chamado de sagrado por conta das propriedades místicas que a nossa ''santa'' local dizia ter, além de também estar ali desde as primeiras pessoas caminharem pela terra, segundo ela mesma.

Perguntei-me o caminho todo até a árvore o que poderia estar acontecendo, se não era talvez fingimento da minha mãe para me fazer alguma surpresa boa, só para me arrancar algum sorriso mais tarde. E poderia ser, certo? Afinal, ela não havia conseguido me dar nada no natal passado, mas me prometeu ensinar-me a andar à cavalo, ou... Não. Será que eles estavam pensando em finalmente atender as minhas súplicas e me ensinar a atirar? Pensando nisso eu até mesmo acelerei meu passo enquanto corria pela grama baixa do campo, indo por fora da floresta que havia logo atrás de nossa propriedade para evitar as árvores. Até que finalmente cheguei no carvalho sagrado.

Infelizmente, antes mesmo de chegar eu já vi a preocupação tomar conta do semblante de meus pais, o que já fez cair boa parte de minhas apostas para aquela nossa conversa... Não parecia mesmo que falaríamos sobre algo que eu gostaria, mas minha esperança morreu mesmo quando mamãe iniciou a conversa logo que a alcancei.

- Oh, Amélie, ainda bem que você veio depressa. -ela me abraçou, como se fosse a última vez que iríamos nos ver, de forma desesperadora, e aquilo me assustou- Mamãe, o que é isso? Aconteceu algo? -lágrimas já começavam a querer escapar pelos cantos dos meus olhos só de imaginar que algo aconteceria com meus pais, mas eu consegui me aguentar. Felizmente, não demorou para ela responder e me tranquilizar- Não meu amor, não aconteceu nada. E na realidade, nunca irá acontecer, se você nos ajudar. -eles devem ter percebido a confusão em meus olhos, pois logo em seguida meu pai colocou a mão em meu ombro, se ajoelhou para ficar na mesma altura que eu, e começou a falar- Querida... você se lembra o que te dissemos no seu aniversário de oito anos? Sobre eu não... -tudo bem, aquele assunto era um dos que eu mais detestava falar, e por isso interrompi quase de imediato ao mais velho- Eu sei que você não é meu pai de sangue, mas não me importa isso! Você sempre será meu pai, e eu não ligo onde esteja meu pai biológico, não foi ele quem ficou do meu lado esse tempo todo mesmo... -resumi, levando minhas mãos até o peito de Moisés, meu padrasto. Este que sorriu todo sem graça logo em seguida, mas ainda havia um resquício de tristeza em seu olhar que eu não conseguia ignorar.

- Eu sei bebê, e fico muito feliz quando você diz isso. Você é a filha que qualquer pai desejaria ter. Mas não é sobre isso a conversa. -ele continuou, e me deixou ainda mais confusa- Como assim? Então... o que vocês estão tentando dizer? -perguntei impaciente, olhando com medo para meus pais, que se entreolharam antes de me responderem. Era como se buscassem apoio um no outro para as suas próximas palavras- Querida, você sabe que eu sempre soube do seu pai biológico, certo? Eu te expliquei o por que de seu sobrenome. -minha mãe sussurrava, sentando-se comigo na base do carvalho sagrado, enquanto que eu afirmava com a cabeça e esperava que ela continuasse- Pois é. Acontece que eu fui na cidade na semana passada, para buscar roupas novas para o seu presente de aniversário, e... eu fiquei sabendo de algo importante meu amor... Seu pai acabou não sendo só mais um soldado aposentado, Amy, ele... -minha mãe suspirou, enquanto retirava um papel dobrado de suas vestes- Leia isso meu bem. -ela nem precisava ter pedido, pois antes mesmo de me entregar o papel (enquanto o abria em suas mãos) eu já começava a ler o que dizia nele.

Tratava-se de um jornal, e ele anunciava a subida ao poder de uma nova pessoa. Um homem, com um nome que era muito, muito parecido com o meu...- Mamãe, esse homem... Hitler? Ele por acaso é meu... -minha mãe afirmou com a cabeça antes mesmo de eu terminar de falar, e meus olhos arregalaram-se tanto que eu pensei que saltariam das órbitas- Como pode ser isso mãe? Ele é... o Führer? Como isso aconteceu? -ela não me respondeu, apenas continuou de cabeça baixa, e isso foi o bastante para começar a me deixar desesperada- Não... não! Ele... ele sabe sobre mim? E se ele quiser me tirar de vocês? Eu não quero isso! -não resisti, e comecei a chorar logo em seguida, abraçando os dois ao mesmo tempo. Estava realmente desesperada naquele momento, só de imaginar como faria para não ser tirada de meus pais, mas não desisti ao tentar argumentar para fazerem o mesmo e não desistirem de mim também- Mas e se... e se você chantageasse ele mãe? Ou apelar para o coração dele! Ele pode entender o nosso lado e talvez não queira nos separar, né? Ou... não sei, mas eu não quero me separar de vocês, vocês são meus pais! -sem conseguir segurar mais, comecei a chorar de forma descontrolada enquanto meus dedos seguravam com força as roupas de ambos, com medo de ser arrancada dali a qualquer momento.

- Calma bebê... -dizia meu padrasto com carinho, enquanto me abraçava e acariciava meus cabelos, antes de continuar- Ele não sabe ainda de você, mas... Olga meu amor? -ele falou , olhando em seguida para minha mãe, como se passasse para ela a vez da palavra. E ela não demorou- Querida, esse jornal não é nem desse mês. Ele já é o Führer há algum tempo, mas o que nos preocupa mesmo é o ódio que ele e o seu partido tem para com o meu povo e o de seu pai. -dizia com a voz trêmula, segurando também para não chorar. Logo entendi o que ela queria dizer, ou foi o que imaginei, em toda minha inocência- Como assim? Ódio por... alemães? Mas... eles não são alemães também? -e meus pais enfim conseguiram sorrir na conversa, mas me deixaram totalmente sem graça com aquilo. Acontece que eles riram da minha inocência, pois eu realmente disse uma besteira naquele momento, mas só percebi quando minha mãe me corrigiu- Não querida... -e aos poucos seu sorriso foi desaparecendo, quando ela enfim explicou melhor- Eu falo de judeus. Eles não gostam mesmo de judeus... Eles andam fazendo tantas leis contra o nosso povo, acabando com tantos direitos nossos que...

Diante daquela afirmação, eu me levantei e interrompi minha mãe, incrédula no que estava acontecendo- Mas como assim? Por que isso? Judeus não são todos ruins! Olha só vocês! São as melhores pessoas que existem nesse mundo e... eu... não acredito mamãe... o que vai acontecer conosco? -questionei, mas logo minha mãe se levantou e me segurou pelos ombros, olhando em meus olhos com uma seriedade sem igual. Era sua forma infalível de me aquietar para que pudesse falar o que queria, o que é claro que mais uma vez funcionou comigo- Amor, tenha calma, e me deixe terminar, tá? -ela me pediu, e assim que eu fiz o sinal positivo com a cabeça, ela continuou...

- Ele não sabe sobre você, querida, por que seu padrasto... -a interrompi, chamando Moisés (seu marido) de 'pai', e ela com um sorriso se corrigiu- ...pai... destruiu todos os registros que constavam seu nome. Adolf não sabe que você é filha dele, que também é uma Hitler. Mas não é isso o que nos preocupa. -parou para uma pausa, e respirou profundamente antes de continuar- É que ele detesta a nós, judeus, e mesmo que você não seja uma, ele não gosta também de quem simpatiza conosco. Eu fiquei sabendo que ele pretende acabar com a vida de todos os judeus e seus simpatizantes, só não sei até que ponto mas... não quero correr esse risco... -com calma então ela foi segurando minha mãozinha e me puxando para sentar novamente na grama aos pés do carvalho sagrado- Nós não queremos. Por isso pensamos em nos precaver... -meu pai então começou a tirar uma carta de seu bolso, uma nova certidão de nascimento e outros registros, todos meus. Me entregando então para que eu lesse, enquanto conversávamos- Antes que ele visse seu sobrenome e corresse atrás de você, pedi para que Moisés destruísse tudo o que consta seu nome meu amor, para refazermos todos os seus registros. E para todos os efeitos, você seria oficialmente filha biológica de Moisés. Se quiser, é claro... -minha mãe falava (ainda com certa preocupação na voz) enquanto me entregava os documentos que eles havia conseguindo forjar, para que eu lesse tudo...

- Só pensamos nisso por que não sabemos o que ele faria contigo querida, se soubesse que alguém que é sangue de seu sangue cresceu sendo criada por... bem... -judeus, meu pai queria dizer, e eu compreendia mesmo sem ele terminar de falar, mas ainda não conseguia acreditar naquilo... Ainda em choque enquanto analisava os papéis e ouvia as palavras dos meus pais, permaneci em silêncio enquanto eles terminavam- Pode ser um pouco precipitado isso, mas tente entender Amy. Ele pode facilmente fazer um inferno em nossas vidas se não tomarmos cuidado. -minha mãe encerrava o assunto então com um carinho em meu rosto, enquanto eu ainda lia os documentos, tentando amenizar o choque que ela via em meus olhos. Sem muito sucesso, pois eu realmente demorei para processar tudo o que acontecia...

- O que eu mais queria era poder ser vista realmente como sua filha, pai. -dizia para Moisés, com um brilho em meu olhar para ele, apesar de não ter um sorriso muito aberto. Pois eu já pensava no que diria em seguida, e que não seria muito feliz- Mas isso ainda é tão injusto. Por que perseguir aos judeus? Por que temos que nos esconder? Por que é que justo alguém cruel como ele tinha que subir ao poder, e... -antes de continuar eu devolvi os papéis para meu pai e me encolhi na grama, começando a chorar enquanto colocava minha cabeça entre as minhas pernas- Por que é que eu tenho que ter o sangue de alguém tão podre? -soluçava entre as palavras, enquanto meus pais me abraçavam para tentar me acalmar- Essa maldade... pode passar para mim? Digo, é possível ser algo genético? Eu to predestinada a ser assim também, ou... passar para a próxima geração? -comecei a questionar de repente, levando em conta tudo o que vivi até então, realmente colocando em dúvida... tudo o que eu havia me tornado, praticamente.

Eu sabia que não era perfeita, nunca me enxerguei assim, mas ter o sangue de alguém tão cruel havia colocado em cheque o que eu pensava sobre eu mesma. Será que eu não era tão boa pessoa quanto queria ser? Será que eu não poderia ser nunca como minha mãe ou meu pai de criação? Eles podiam me esconder, mas... será que eu merecia ser salva? Estava tão desesperada por respostas, que eu nem imaginava o quanto ficaria feliz quando enfim meus pais me responderam...

- Amélie, sangue não define o que nós somos. Não importa quem veio antes de nós ou mesmo onde vivemos, mas sim como agimos. E você, meu anjo, é a pessoa mais justa e de bom coração que eu já vi. -meu pai disse, olhando em meus olhos e secando minhas lágrimas com seus dedões- E não se preocupe, se algum dia vier a se perguntar de novo sobre isso. Você é uma Hitler sim, mas isso não te faz tão ruim quanto seu pai. Só quer dizer que você também tem sombras dentro de ti, mas o que faz uma pessoa ser um verdadeiro exemplo não é apenas ser boa, mas vencer as sombras dentro de seu coração, lutar contra elas para se manter no caminho da luz! Entende? -minha mãe continuou, sorrindo e... finalmente me fazendo parar de chorar. Eles estavam certos, eu não estava condenada só por ter sangue ruim, eu podia ser uma boa pessoa ainda que tivesse o sangue podre de Adolf Hitler em minhas veias, só tinha que aprender a lidar com isso- Quem sabe até use essas sombras de exemplo para si mesma. Elas ainda podem ser úteis meu amor, mesmo que você não se torne no futuro quem você sonhava ser, ainda pode fazer o bem. Mesmo das sombras você pode servir a luz, não esqueça. -meu pai encerrou de forma sábia, bagunçando o meu cabelo com seu cafuné todo atrapalhado, antes de me ajudar a me levantar.

Então, com meu sorriso e meu sinal positivo com a cabeça enfim, após aquela conversa... tensa, eu enfim me levantei. E vendo o quanto eu parecia preparada para a vida dali em diante, sabendo de toda a verdade sobre meu pai biológico, eles enfim continuaram com o que queriam falar antes- Então tudo bem pequena. O que acha da ideia então, de ser a minha... -eu nem deixei Moisés terminar, pulei e o abracei com todas as minhas forças em seu pescoço, me pendurando no homem incrívelmente alto enquanto ria- Tá, vamos aceitar isso como um sim. -disse minha mãe, rindo enquanto se levantava- Então de hoje em diante, Amélie, seu nome será Freya. Tudo bem? Romanova em homenagem ao sobrenome da família da mãe de Moisés, mas seu nome todo é, espera... -minha mãe então olhava para os papéis, para me dizer qual seria meu nome daquele dia em diante. Nome esse que usei desde então, mesmo com o fim da guerra. Não por medo, mas sim por que esse nome é o que eu mais me orgulho de ter, me torna realmente a filha de Moisés, o único pai verdadeiro que eu conheço, e não o monstro do meu pai biológico...

Apesar de tudo, esse foi o dia em que eu aprendi que mesmo das sombras podia servir à luz. Meus pais haviam me ensinado isso. Mesmo que eu me entregasse à trevas, e acabasse cometendo atos horrendos e realmente herdasse algo de meu pai biológico, Adolf Hitler, isso não queria dizer que eu era má ou tinha que ser má. Eu ainda podia fazer o bem, mesmo com atos inescrupulosos. Foi esse pensamento que me moldou aos poucos, e me ajudou a me tornar a heroína que eu viria a me tornar mais tarde daquele mesmo dia. Enfim, havia aceitado sim que o sangue de Hitler corre em minhas veias, mas não o aceitei como meu pai de verdade...

- Tudo bem, decisão tomada! Então vamos pedir a benção para a santa Lana antes de irmos embora da Alemanha? Ou as duas aí preferem bater mais papo? -brincou meu pai, ao fim da conversa, provocando uma alta e gostosa risada em nós três. Então, em passos calmos ele começou a nos arrastar dali, até a cabana da bruxa que chamávamos de santa, a bruxa Lahnaria (que somente eu sabia seu nome real, por conta da intimidade que nós acabamos tendo depois que ela começou a me ajudar a entender essas visões sobre minha vida passada), para que pudéssemos partir em paz. Sem nem fazermos ideia de que seria aquela mesma besteira, de avisá-la que iríamos embora do país, que iria acabar acabando com nossa família.

Mas, antes que nós sequer nos distânciássemos da árvore sagrada, a minha visão foi começando a ficar escura, e tão repentinamente quanto foi quando eu desmaiei, eu finalmente acordei...


...


Eu havia sido resgatada do meio da rua por alguém e arrastada até um local coberto enquanto a chuva ainda acontecia, e para minha alegria ninguém havia se machucado quando eu caí no sono enquanto ainda voava... Estavam todos vivos, e aparentemente receberiam os devidos cuidados após sofrerem com aquela terrível chuva ácida, então... bem, o que mais eu podia fazer por eles?

Ainda sentia-me tonta após aquele sonho, então teria que me recuperar ali mesmo onde me encontrava, dentro daquele supermercado. Mas assim que eu conseguisse, iria reunir todos os ingredientes para uma poção que Toth dizia poder criar com facilidade, e que ajudaria todas as pessoas dessa cidade a se recuperarem mais rápido após aquele desastre. Não fazia ideia de quanto tempo levaria para o mundo todo se recuperar disso, ou o que é que havia acontecido nas horas em que eu fiquei desmaiada, mas faria de tudo para ajudar...

Só depois eu iria para casa, quando tivesse certeza de que todos estariam bem. E é claro, iria buscar o responsável por essa desgraça de chuva o mais depressa que fosse possível, pois não podia deixar de forma alguma alguém tão despresível se safar após mexer tanto com o momento mais importante de minha vida...

palavras: 4919 | roupas: Black Eve

OFF: Paciência comigo por favor, eu to viajando e fiz depressinha esse post pois não sabia quando é que chegaria em casa, então ta cheio de erros, mas juro que o máximo que pude fazer na correria aqui. ><


<3

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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Jeannie Howlett em Qui Jan 18, 2018 3:43 pm

Presságio

Eu sou do tipo de pessoa que realmente presta atenção em absolutamente tudo que acontece à sua volta, mesmo que (na verdade, principalmente) quando eu pareço distraída. Acontece que eu não sou burra de ficar desatenta e ser pega de surpresa por um dos inimigos que eu tive o prazer de colecionar com o passar dessa minha bosta de vida. E felizmente, ter os sentidos mais elevados que o possível para qualquer pessoa me ajuda muito com isso. Mas, sabe, nem eu senti essa catástrofe chegando...

Para mim havia começado como mais um dia qualquer. Como sou acostumada a acordar cedo para arrumar as coisas no bar e deixar já tudo pronto para sua abertura, levantei-me nesse dia antes mesmo do sol. Organizando as bebidas, limpando o chão mais uma vez (costumo fazer isso já antes de fechar, mas não custa dar uma geral mais uma vez), colocando as cadeiras no lugar e limpando/contando os copos. É, sou acostumada a fazer muita coisa ainda pela manhã, não tenho a mesma preguiça que a maioria deve ter. E olha que ainda não ficou apenas por isso hoje. Na realidade, tinha muito mais para fazer do que em um dia normal.

Acontece que, no dia anterior, aconteceu uma briga no meu bar. Dois bêbados se desentenderam e quase destruíram meu bar ao jogarem um contra o outro várias coisas do meu bar, que foram desde cadeiras a até copos. O que não é novidade assim para um bar, mas eu não sou qualquer dona de bar, e fiz questão de mostrar isso para os dois filhos da puta quando os ameacei logo depois de jogá-los na rua antes mesmo da briga terminar. Quase enfiei minhas garras no estômago dos dois, quando os obriguei a pagar cada centavo do que haviam quebrado ali, e depois fiz uma marca em seus corpos, um pequeno ''X'' em seus ombros. Esse ''X'' nada mais era que um lembrete para eu mesma no futuro, pois eu só fazia aquela marca nos malditos que eu não queria no meu bar nem que voltassem pintados de ouro e cravejados com diamantes. Coisa que eu deixei bem clara para os bêbados, escrito em bilhetinhos (sério, fiz isso mesmo, e até coloquei-os em suas carteiras) antes de irem embora, para garantir que se lembrariam de mim e do que eu disse quando recuperassem a porra do juízo deles.

Bem, eu consegui ter o meu dinheiro mesmo após toda a destruição, então não tomei prejuízo algum. Mas, ainda tinha que fazer compras e repor tudo aquilo que os bêbados fizeram. Algo que, como já deve ter imaginado, acontece comigo pelo menos uma vez por mês, então eu praticamente agendo em meu calendário quando é que devo sair para repor esses itens quebrados. Tudo para continuar atendendo e levando adiante meu negócio. Só que, nesse mês eu não poderia esperar tanto para ir no dia em que sou acostumada a ir, já que essa última briga me custou muitos copos. Então, como não dava para abrir hoje apenas com os copos que eu tinha inteiros ali, tive que sair para às compras.

E é por motivos assim que eu gosto de acordar cedo.

Mesmo com aquele imprevisto, eu ainda tinha todo o tempo do mundo para ir ao supermercado, comprar o que eu queria e voltar para meu bar antes do horário de abertura. Na verdade eu podia até mesmo dar uma olhada nas ruas para saber como estão os traficantes e bandidinhos que costumo assustar, só para ter certeza de que ainda estavam andando na linha. Então, eu tinha todos os motivos para ir o mais depressa possível, e foi isso mesmo que eu fiz. Ou pelo menos tentei...

Foi tudo bem pelo caminho até o mercado quando saí do bar. Já havia feito muita coisa e organizado o que era possível no meu bar, passei uma boa parte da manhã rastreando pedaços de vidro que poderiam existir ainda ali dentro, então não era tão cedo ainda, mas eu tinha boa parte do dia à disposição. Havia sim um bom número de pessoas nas ruas, como é normal para uma manhã em New York, mas nada que me impedisse de andar livremente pela calçada. Não havia muita gente no mercado, então pude pegar logo tudo o que eu queria. Os copos, cadeiras e até mesmo algumas das bebidas que haviam sido quebradas (já que as mais caras eu teria que pedir pela internet, não tinham em qualquer lugar), paguei e depois fui embora. Era muita coisa, mas eu conseguia segurar tudo em duas sacolas sem problemas. Com minha força acima da média o trabalho ficou ainda mais fácil. Mas aquele não foi meu maior problema no caminho de volta.

Assim que saí do mercado, virando a próxima rua do mesmo (sem nenhum lugar coberto por perto para que eu pudesse me cobrir) eis que eu começo a perceber um cheiro diferente no ar... Tratava-se da mudança repentina das nuvens no céu, as chegadas das nuvens escuras, que me fizeram imediatamente parar de caminhar para tentar analisar o que acontecia. Afinal, o que é que aquelas nuvens faziam ali? Tudo bem que não é um absurdo ter uma tempestade em New York, mas o jornal costuma nos avisar, e mesmo que nos avisasse... nuvens assim não chegam tão depressa... É, isso tudo tinha realmente cara de ser algum engraçadinho metido a vilão com planos de dominar o mundo, e por isso mesmo fiquei atenta. Comecei a andar a passos lentos pelas ruas, tomando muito cuidado para que não fosse surpreendida, especialmente por ataques que pudessem destruir o que eu havia acabado de comprar...

Mas foi aí que chegou aquele maldito cheiro de enxofre. E céus, ele era tão, tão intenso...

Logo de início eu já comecei a me sentir um tanto tonta por conta daquele maldito cheiro que preencheu todo o ar da minha cidade de uma só vez. E o pior é que eu sabia que, para mim (que possui a merda do olfato centenas de vezes mais apurado que o de alguém normal) aquilo era só o início de uma grande merda, então parei um pouco para respirar e... quem sabe até encontrar a origem. Mas eu não consegui, era muito intenso e os efeitos do gás em meu corpo me atrapalhavam demais (eu me regenerava sim de tudo o que acontecia comigo, mas ainda tinha o olfato muito sensível, então meu fator de cura só prolongou meu sofrimento, caso contrário eu já teria simplesmente desmaiado no início de toda essa merda), não dava para rastrear a origem do odor e aquilo e deixou realmente preocupada. Só que ainda tinha muito que piorar, pois ouvi um barulho estrondoso vindo do nada, o que irritou de verdade minha audição incrívelmente sensível. E eu podia aguentar muito mais sim, sabia bem disso, mas aquilo já foi o bastante para me ajudar a ficar ainda mais tonta do que já estava, por conta do enxofre. Isso sem nem falar das luzes que passeavam pelos céus ao mesmo tempo, que não chegavam a ser tão irritantes quanto o resto das merdas que castigavam meus sentidos...

Quando começou aquela chuva com cor de sangue, eu realmente comecei a aceitar que não fazia a menor ideia do que caralhos estava acontecendo. Até entendo alguém conseguir fazer aqueles barulhos irritantes, invocar nuvens negras como aquela e... tá, o enxofre podia ser explicado também, mas como é que diabos alguém consegue fazer chover sangue? É, eu já imaginava que havíamos chegado no limite... quando percebi que aquela chuva nem era realmente apenas avermelhada...

Assim que minha pele começou a ser corroída pela chuva, pensei logo em buscar um abrigo daquela merda. Não por minha causa (já que meu fator de cura me curava mais rápido do que aquela chuva conseguia me machucar), mas sim pelo que eu havia comprado, que eu realmente não queria arriscar que fossem danificados. Só que eu nem tive tempo de terminar de pensar em olhar à volta para procurar um lugar coberto, pois logo veio aquele cheiro maldito... E coloque bastante ênfase na palavra 'logo', pois assim que minha primeira célula começou a ser queimada por aquela chuva literalmente ácida, eu senti o cheiro que aquela merda produzia. Quando isso aconteceu, já era tarde.

Cerca de dois segundos depois da chuva me atingir, eu fui a primeira de onde estava a simplesmente apagar. Tudo por que a merda do meu olfato era tão sensível que captou logo o cheiro da reação da chuva com minha pele, muito antes de qualquer outra pessoa ali, e por isso eu acabei sendo a primeira ali a cair...


...


E assim que meus olhos se abriram, encontro-me encarando uma enorme árvore nos fundos do terreno de uma luxuosa mansão do século passado. Meu terreno, da minha casa no Canadá, na época em que eu nasci, décadas atrás, quando eu ainda era uma criança que ainda se aproximava da pré-adolescência. O que seria uma visão muito agradável, se não fosse pelo homem segurando-me pelos cabelos e me jogando de cara contra a árvore que ele mesmo havia me forçado encarar. E repetindo esse ato por mais uma vez, de novo logo em seguida, e de novo, até completar treze vezes em que meu rosto se chocou contra aquela droga de árvore...

- Pronto, sua vadia de porcelana. Uma para cada uma de suas tentativas de fuga... -dizia o mais velho para minha versão pequena e frágil, enquanto limpava o meu sangue de suas mãos com um lenço branco como a neve, me jogando contra o solo do jardim como se eu fosse lixo- E pare de chorar! Criatura fresca. Na sua idade eu já havia sido queimado por ferro quente e não derramei uma só lágrima, e nesse castigo eu até peguei leve com você! -ele falava, deixando-se levar pela fúria que sentia por mim, ao me ver berrando no chão. Sem aguentar de forma alguma a dor que eu sentia após meu pai bater minha cabeça contra a árvore de vários ângulos diferentes, eu comecei a chorar com todas as minhas forças quando pude. Com toda a força que os pulmões de uma garotinha asmática conseguia reunir. O que irritou meu pai de todas as formas possíveis- Tenta fugir de seus deveres pelo menos uma vez por semana, fica doente todo mês, e ainda chora por qualquer coisa. Você é uma vergonha para a família, sabia? -e então o homem trinta anos mais velho que a criança cuspiu, nos cabelos da mesma, em cima de um dos muitos machucados que ela tinha ali e que ainda sangravam.

E apesar de eu ainda ser bem frágil e medrosa nessa época, eu mesmo assim não consegui aguentar aquela humilhação toda e questionei meu pai- Se sou uma vergonha tão grande assim, por que não me deixa ir embora de uma vez? Ou me mata logo! -berrei, em um rápido intervalo entre minhas lágrimas. Algo que serviu apenas para irritar ainda mais o mais velho, que felizmente só não me bateu de novo por que suspeitava que eu não iria aguentar- Eu não investi meu dinheiro em você para te deixar morrer cedo ou fugir e desonrar o bom nome de nossa família por aí. Você ainda servir de algo para nós antes de ir para o inferno, pirralha de porcelana. -e então me deu as costas, saindo dali e voltando para casa como se nada tivesse acontecido. O que era até verdade, já que aquele não passava de apenas mais um dia do pior pai do mundo tentando ensinar uma lição à sua filha...

Depois do castigo eu tive que me esforçar para ficar consciente enquanto me encostava na árvore cheia de meu sangue, descansando para poder me levantar e me limpar... Ainda haveria um baile no dia seguinte, em homenagem ao meu aniversário de casamento com um idiota doze anos mais velho, filho dos amigos dos meus pais... A merda de uma festa que serviria apenas para relembrar a aliança de nossas famílias e... ah, droga, eu havia ficado tão tonta após tantas pancadas na cabeça e sangue perdido, que cheguei perto de desmaiar... se não fosse por aquela senhora chegar de repente com uma espécie de cozido com um cheiro muito, muito forte mesmo. Cheiro esse que me fez ficar em alerta novamente, e encarar a senhora que havia acabado de chegar... reconhecendo-a após mais ou menos um minuto analisando o borrão que era seu rosto para mim naquele momento...

- Vó? O que... o que a senhora está fazendo aqui? -pergunto, ainda tonta enquanto despertava novamente, após quase desmaiar- E que é isso que a senhora trouxe? -pergunto curiosa, afastando a comida de cheiro forte ao empurrar a mão da minha vó que segurava a panela- Isso? Ah, não importa meu amor. É só um remédio de família, não é mais importante. -ela dizia, deixando de lado a panela, e se abaixando com dificuldade à minha frente. Sentando-se comigo, ela olhava em meus olhos preocupada- Deixa eu ver... -sussurrava, enquanto pegava minha cabeça com cuidado e me fazia inclinar em sua direção para que pudesse analisar melhor o que acontecia- Ah, droga, seu pai fez um estrago dessa vez... O que houve agora? Eu vi quando ele começou a te bater, mas não percebi nenhum motivo para isso tudo! -ela dizia zangada, olhando para trás como quem queria realmente matar alguém. Acho que isso era mais por que ela não podia fazer nada sem me colocar em risco (era costume de meu pai me bater ainda mais depois que alguém me defendia, acho que para eu saber que nunca estaria salva dele e... para ensinar que só piorava a situação quando alguém ia contra sua palavra...) do que pelas feridas em si...

- Foi... um castigo por eu ter conseguido fugir desta vez... Ah, droga, se não fossem aqueles malditos cachorros dele... -resmungava, tentando dar o máximo de pausas que conseguia entre as palavras, para não sentir tanto as dores de cabeça. Minha vó soltou um longo e chateado suspiro- O que? Jeannie, você tem que parar com isso. -afirmava com tristeza, enquanto limpava minhas feridas com um paninho que ela tinha consigo- Eu sei que você detesta essa família, eu compreendo isso, e queria que você fugisse mas... Olha só como ele te deixa sempre que te pega! E se da próxima vez ele pegar um pouco mais pesado e te matar sem querer? Ou te impedir de andar novamente. Você sabe que ele já chegou perto das duas coisas antes, e estava mais calmo do que quando te pega fugindo de casa... -continuava, mas agora se inclinando um pouco em minha direção- Venha querida, deita no meu colo para eu cuidar melhor da sua cabeça... -e gentilmente ela começou a me ajudar a deitar em seu colo, continuando a limpar os ferimentos.

Claro que ela ainda queria que eu mantivesse-me consciente, então eu continuei a conversa- Dói mais a cada castigo que ele me dá, vovó. Mas cada ferida nova só me lembra que esse não é o meu lugar... -justifico, olhando agora para os galhos da árvore logo acima de nós, tentando focar em algo além da voz da senhora para ajudar a me manter acordada- Ele me detesta vó. Meu avô também me vê como uma vergonha. Minha mãe só assiste enquanto ele me bate, e o resto da família também... Mesmo as pessoas de fora da família parecem pouco se importar com o que acontece comigo... -ainda falava em tom de choro, como se pudese voltar a derramar lágrimas à qualquer momento. Aquelas dores realmente eram intensas demais para uma criança suportar- Por que tem que ser assim vovó? Por que eu não consigo fugir? Por que nada de ruim acontece com meu pai e o vovô, mesmo com eles batendo tanto em mim só por eu ser como sou? Por que eu tenho que ser tão inútil e fraca? -voltava a chorar, mas desta vez por algo muito além do que apenas dores físicas...

Aquelas lágrimas eram de uma garotinha que contemplava sua própria inutilidade e o quanto era odiada pela família em que nascera... E acabaram contagiando também minha avó, que continuava a cuidar de meus ferimentos, e ficava triste por me ver tão mal e deprimida daquele jeito... Mas isso ainda não a impedia de tentar me tirar daquele mar de tristeza que meu pai me empurrava sempre que tinha a chance.

- Ei. -ela chamava minha atenção, tentando me fazer parar de chorar um pouco para lhe ouvir- Jean, você não é fraca. -eu não consegui esconder a surpresa em meu olhar para a minha avó logo que ouvi aquelas palavras dela, ficando em silêncio para ouvir o restante- Quem é que aguentaria tantos castigos assim? Tantas dores e machucados... tanto sangue perdido... querida, eu não aguentaria... E mesmo que aguentasse, desistiria logo de mudar algo, não como você! -suas palavras eram bonitas, mas demorou para que eu fosse entendendo realmente o que ela dizia. Era tudo muito confuso para minha jovem mente, principalmente tão confusa quanto eu ainda estava naquele momento, me recuperando da perda de sangue...- Então... eu sou burra só? -pergunto, com vergonha em minhas palavras, mas logo minha vó me tranquiliza- Não, você é persistente! Tem garra! Isso é força de verdade, que tem dentro de você, aqui... -apontou então para meu peito, e acho que ela estava querendo falar do meu coração...

Ainda achava difícil de acreditar nela, pois não via nada de forte em ser teimosa, mas permaneci calada. Na verdade, nem tive tempo de falar nada, pois ela logo continuou- Você tem uma saúde frágil sim minha netinha, mas você se recupera mais depressa do que qualquer criança que eu já vi. E aguenta muito mais pancadas dessa vida do que muitos adultos por aí. Nem vejo cicatrizes das suas primeiras tentativas de fuga... -eu percebi isso somente quando ela pegou gentilmente minha mãozinha e aponto para as costas da minha mão, mostrando onde meu pai havia atravessado um prego em mim, dois anos atrás. Arregalei os olhos naquele momento em que percebi que não havia mesmo nada ali, e continuei prestando atenção nas palavras da minha vó- Seu pai é mesmo uma pessoa detestável, e seu avô... ele também não tem desculpa... -ela suspirou com tristeza- Mas não se deixe abater, tá? E nem fique pedindo para que algo de ruim aconteça com os outros. Por que o mundo dá voltas, entende? -olhei-a confusa ao fim da sua frase, sem entender nada. Percebendo isso ela soltou uma gostosa risada antes de voltar a falar- Você pode estar passando por isso hoje, mas amanhã pode ser o contrário. Talvez o nosso senhor esteja fazendo você passar por tudo isso hoje como um teste, e amanhã vai lhe dar bençãos equivalentes ao seu sofrimento... -disse gentilmente, arrumando meu cabelo atrás da minha orelha, pegando outro pano para limpar minhas feridas.

- Se seu Deus quer que eu sofra assim, então ele é um sádico viu vovó? -falei, emburrada e fazendo bico, mas ela não achou isso nada engraçado. Me dando um tapinha no braço (bem leve mesmo, nem senti, principalmente se comparar com o que meu pai me faz...) ela me olhou com raiva logo depois- Ele só quer o melhor para você. E ELE vai te ajudar a crescer e se tornar a mulher que você deve ser. Tenha fé. -continuei fazendo bico, e ela prosseguiu com suas palavras- Há pessoas más por toda parte Jeannie, mas ainda assim... você não deve julgar todos só por que não agem como você espera. Elas podem ter seus motivos para se comportarem de forma diferente. As pessoas que trabalham aqui em casa que assistem você apanhar, até os do vilarejo e das outras famílias nobres, eles só não fazem nada por que não podem. Pense bem. -quando ela me fez esse último pedido, desviei meu olhar até as nuvens que passeavam lentamente pelo céu, e comecei a tentar pensar no que ela estava me dizendo- Ninguém sorri quando te vê apanhando, ficam todos com vontade de ajudar, mas sabem que se fizerem algo para lhe ajudar o seu pai pode tornar a vida de cada um deles um inferno. Entende?

Pensando naquilo que ela disse, realmente fazia sentido... As pessoas costumavam virar o rosto para o outro lado quando me viam apanhar, ou faziam caretas... eu sempre imaginei que era por que detestavam ouvir meu choro ou simplesmente se incomodavam comigo, mas... nossa, aquilo realmente me acalmou um pouco. Afinal, eu não era tão odiada quanto imaginava, pelo menos não pelas pessoas de fora da família, elas apenas tinham medo do meu pai. Isso foi muito bom, mas não acabou por aí a nossa conversa.

- Vó, eu estou entendendo, mas... não vou mentir para a senhora. Nada disso vai me convencer a deixar de tentar fugir daqui, mesmo que eu ame a senhora... -admiti, um pouco triste por nem o amor da minha avó ser o suficiente para me segurar naquele lugar, mas ela não ficou tão surpresa ou sequer triste com aquilo- Eu compreendo querida. E eu não quero nunca que você perca essa garra sua, mas eu te peço só para que tenha mais paciência. Tenta fingir um pouco mais que obedece ao seu pai, só para que ele pare um pouco de bater em você. Se fizer isso, eu lhe prometo que da próxima vez eu mesma te ajudo a fugir, tá? Conheço um lugar bem seguro para você ficar depois que fugir daqui, só preciso que você esteja bem para sair daqui... -e eu suspirei com aquele pedido, chateada por eu não conseguir dizer não para minha avó... E o pior é que ela sabia já disso- Tá bem vó. Mas... não quero que se arrisque por mim, e nem arrisque outras pessoas por mim. Não quero que meu pai faça mal a qualquer inocente por minha culpa. -e com aquelas minhas palavras, minha avó não podia ter ficado mais feliz!

Assim que terminei de falar, ela sorriu e me apertou com toda força que conseguia naquela idade, me fazendo deixar escapar um gemidinho de dor com o abraço- Ai, vovó, tá doendo! -disse entre gemidos, pouco antes de ela afrouxar um pouco o abraço- Desculpa. -e arrumou novamente a minha cabeça em seu colo- Mas é que, eu gosto tanto de ver como você tem um bom coração. Não quer arriscar a vida de ninguém, mesmo para se salvar de todo esse sofrimento. -ela nem havia terminado de falar e eu já havia ficado completamente corada- É muito bom isso, de verdade! Nunca perca isso. E continue sendo independente, vá atrás do que quer, por mais que os homens digam que você não pode por ser mulher. Mostre que estão errados! Mas não se esqueça, nem tudo você pode fazer sozinha... -ela então se levantava, apoiando-se na árvore próxima de nós, e me ajudava a me levantar. Demonstrando da forma mais clara possível o que queria dizer.

Acho que foi nesse dia que eu aprendi algumas das lições mais importantes da minha vida, e como sempre, foi com a minha avó... Ela não apenas me lembrava que existia amor no mundo, mesmo com toda a dor que meu pai e meu avô me faziam sentir, mas também ensinava-me a ser uma boa pessoa mesmo com tanto ódion o coração. E me incentivava a ser independente e me manter firme, em uma época em que o mundo incentivava o oposto para todas as mulheres. Ela era de longe a senhora mais corajosa e gentil que já conheci em toda a minha vida, e aquele foi um dos momentos em que eu percebia isso. Quando me ensinava o quanto era bom manter-me firme em meus objetivos e ser independente, por mais que o mundo diga o contrário. Acima de tudo, foi ela quem enfiou na minha cabeça que nem tudo é simplesmente preto no branco, a não julgar todos pela capa e sempre tentar entender o que acontece com cada um antes de pensar qualquer coisa sobre alguém...

- Obrigada vó. -agradeci e a abracei com gentileza, por tudo o que ela tem feito por mim, e não apenas nesse dia. Por me manter sã e me ensinar tantas coisas que eu com certeza ia levar pelo resto da minha vida- Sempre estarei aqui por você, minha netinha. -ela me abraçou de volta e beijou o topo da minha cabeça, entre as feridas na minha cabeça. Mas foi com aquele abraço que o sonho foi acabando.

Em meio ao abraço, enquanto ela envolvia meu corpo machucado com seus braços frágeis, sua manta acabava tampando minha visão e escurecendo tudo. Sem eu nem perceber, aquela manta pendurada no pescoço da minha avó que escapava para cima da minha cabeça e tampava meu campo de visão no fim do sonho, foi realmente a cortina que encerrou todo aquele show...


...


Assim que abri os olhos, eu vi que fui uma das primeiras na avenida a acordar após todas as pessoas ali desmaiarem. Pelo que via, apesar do meu olfato acabar me traindo antes, meu fator de cura atuou para que meu organismo se recuperasse mais depressa que as outras pessoas ali, mas ainda foi o bastante para que eu estivesse muito, muito zangada MESMO com o ocorrido. Afinal, quem era o responsável por aquilo tudo? Quem é que havia feito aquela catástrofe toda e brincado com meu passado? Aliás... será que isso aconteceu com todas as pessoas do mundo? E se sim, o que ganhariam com isso?

De verdade, eu acordei com vontade para enterrar minhas garras no peito de alguém, e logo, mas infelizmente aquele não era o momento. Primeiro por que não tinha nenhuma pista do possível responsável por aquela merda toda, e segundo por que eu ainda estava tonta pelo que havia acabado de passar. A boa notícia era que nenhuma mercadoria que eu havia comprado acabou sendo afetada pela chuva ácida, talvez por estarem cobertas por plástico...

Mas enfim, como minhas coisas estavam bem e não havia mais nada para eu fazer ali, eu não demorei para ir embora. Tinha que ir para casa, tomar banho, descansar, arrumar meu bar e depois rastrear o filho da puta que fez esse caos todo nas mentes de tantas pessoas inocentes. E só Deus sabe quantos coitados acabaram se machucando e morrendo por causa disso...

Nossa, como o responsável por isso está ferrado quando eu o encontrar, sério!

palavras: 4511 | roupas: aqui

OFF: Ainda to viajando gente, então pff não briguem com meus erros, fiz o melhor, juro!


<3

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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Eilown Tanghle Aitany em Sab Jan 27, 2018 3:07 pm


Perdão se a chuva não limpou tudo, há silêncio entre uma gota e outra”, dizia o guardanapo em frente a uma jovem morena de cabelos longos, olhos azuis fixos na caneta fina e transparente em sua mão, enquanto a outra levava uma elegante xícara azul até seus lábios rosados. As pernas longas da dama estavam cruzadas, a esquerda sob a direita, e o pé no ar se movimentava impaciente. Relembrava os últimos meses naquela tarde – talvez? – em que tirara um tempo para si mesma em uma cafeteria aberta longe da região onde morava, e foram tempos difíceis ao redor de todo o mundo. A natureza, a cada novo dia, rejeitava seus próprios filhos e causava em todos os países. O dia era noite, as noites eram escuras, e a calmaria relativa das cidades foi abandonada quase que por completo, já que ninguém conseguia entender tal fenômeno. Químicos, físicos, ambientalistas, pessoas… Uma correria, um desespero, gritos silenciosos e abafados pelo medo de descobrirem seus medos. No rosto de cada um existia angústia, porém, tal sentimento ainda não impede que o mundo gire, então o comércio continuava funcionando como se o sol ainda brilhasse o telhado dos arranha céus.

Já que saía poucas vezes por espontânea vontade de casa, Eilown não lembrava-se sempre que a estrela maior daquele sistema solar, por algum motivo, estava apagada para a Terra. Seu trabalho mais remunerado era predominantemente nas horas consideradas noturnas, então nada de estranho. E logo no dia/noite em que se vestira bem para visitar uma cafeteria antes sempre lotada, choveu. Não era a chuva normal, levemente ácida porém em níveis um pouco mais normalizados que existia, mas sim uma capaz de desmaiar todos com os gases liberados. A morena, assim que vira um senhor caindo no meio da rua, estranhou a situação e se levantou com a xícara em mãos. Assistindo todos ao seu lado perdendo a consciência, sentiu medo e tampou o nariz com ambas as mãos, entretanto, o mundo entrou em câmera lenta; a bebida, obedecendo a lei da gravidade, acompanhou Eilown na queda. Uma ao lado da outra, chegaram ao chão, que pareceu tão confortável por alguns instantes enquanto os gases tomavam conta daquele corpo e ela perdia a consciência igual os outros, e acordava em outro lugar.

Para a surpresa de Eilown, estava em uma estrada movimentada, o céu escurecendo acima da cabeça, e ao virar-se, sua versão de quatro anos atrás se encontrava de pé em sua frente, olhando para um vazio enquanto caminhava cansada. Assim que abandonara seus pais, a jovem recolheu alguns de seus pertences e passou longos meses caminhando e/ou pedindo carona na estrada; fazia chuva ou fazia sol, ela não tinha condições mentais de lembrar o motivo de desejar tanto na grande cidade, apenas acompanhava a distância em seu mapa rasgado e velho, que atualmente é um enfeite na parede de seu quarto.

Era alguma maluquice, Eilown estava conformada de ter machucado sua cabeça na queda e chegou naquele sonho, então o certo seria se forçar a acordar. Ao abrir os olhos, a visão de antes continuava, mas do ponto de vista da versão mais nova, uma lembrança dos velhos tempos. Era como sentir o vento te carregar, uma força oculta mantendo o ser em pé; sua humanidade se esvaindo do corpo em breve oco, a alma desejando retornar para seu paraíso pós morte, um descanso eterno, mas algo ainda mantendo-te preso a um corpo sem vontade de viver. Ela não se lembrava do que acontecia, era como dormir em um sonho e sonhar ainda mais profundo, os sons não existiam, seus pensamentos não eram claros, mas algo estava ali.

O que quer que estivesse acontecendo do lado de fora, com o corpo solto no ar e a mente bloqueada, havia um tudo e nada em sincronia. Para alguns, uma paz em níveis espirituais, um céu; para outros, o vazio eterno, cair no limbo sem saber quando encontrará o chão, ou se ele existe. Metaforicamente, um elevador que sobe e outro igual que desce. Normal que Eilown se sentisse sempre de frente para ambos, a mão prestes a pressionar os botões para chamá-los, quase como sem saber qual escolher, mas quando decide, descobre que há um só botão e não tem como escolher. E ela sempre acordava naquele momento. Quando abriu os olhos de novo, sua versão mais nova estava já em outro ambiente, cercada de homens em um bar – pelo que pode-se imaginar – na beira de uma estrada. Hora o sonho parecia tão real quanto a realidade, hora era fragmentado como as lembranças que tinha.

Naquele momento, parte do sonho estava óbvio, mas em alguns cantos, as pessoas mudavam suas formas e feições, como que um cérebro tentando achar algo que melhor se adequasse à situação mas ainda não ter certeza. Eilown aproximou-se de sua versão anterior o suficiente para quase beijá-la. Os olhos da jovem eram fundos e vazios, uma parte deles estava tão vermelha quanto o forro dos bancos do bar; seus lábios cortados e uma mancha pequena no canto indicava que haviam sangrado em algum momento nos últimos dias e não houvera higiene o suficiente para retirar todo o líquido. Mesmo sem sentir o cheiro, ela sabia que estava fedendo a imundice, já que lembrava-se de ter passado longos meses tomando banhos com águas tão suspeitas que era um milagre ter sobrevivido àqueles tempos sem doenças físicas.

Os cabelos, na atualidade tão bem cuidados, eram curtos e sem corte, grudados no rosto com suor seco. E imaginando-a já neste estado, fica desnecessário falar de suas roupas. Sentada ao lado da cópia, a morena chorou calada. Não sentia pena de si mesma, mas sim da garota tão sem futuro que estava acompanhando, sua irmã de alma mas com um conhecimento tão vazio sobre o mundo e sua força interior. Poderes? Nada valeria a pena para alguém que, dentro do próprio corpo, duvida de sua capacidade. Não importa o quanto tente afirmar para a pessoa mais importante do mundo o quanto ela significa se ela mesma não te escuta. Infelizmente, não importa quanto tempo passe, Eilown ainda tem suas recaídas quanto a tal sensação.

Então a mais nova levantou o rosto com a expressão cansada e o cenário mudou enquanto ela permanecia na mesma posição. Uma boate, talvez, muitas luzes coloridas juntas da escuridão. A música tocava tão alto e era confusa, como se escutada por detrás de uma parede de água. Ao olhar em volta, não encontrou mais a garota jovem, porém, tão rápido quanto veio, tudo mudou novamente e as meninas estavam em outra estrada. Eilown se assustou então, pois nos braços de sua versão mais nova tinha uma criança, ao seu lado, um homem. Talvez tenha por acaso entrado em um terceiro sonho e via seu futuro? Parecia improvável, visto que não pretendia retornar àquela aparência.

Um subconsciente é capaz de retornar até a infância de alguém e retirar de lá seus melhores sonhos, assim como os piores pesadelos. Emocionalmente exausta, certa vez Eilown convenceu um pai de que seria a mãe para sua filha e sequestrou o bebê. Com os poucos fragmentos de memória, a atual sabia o que estava acontecendo, embora fosse confuso para quem visse de fora. Deve-se compreender primeiro a mente de um louco, que faz o que faz sem sentimentos ou noção do que acontece. E consciente dessa etapa, segue o resto. Ambos pai e “mãe” estavam tão drogados e perdidos em suas próprias realidades que seguiram juntos a pé por alguns dias até a cidade seguinte e abandonaram a criança em alguma casa desconhecida. Sem se importar com o que acontecia, a Eilown mais nova foi embora logo depois sem avisar e perdeu o rapaz de vista para sempre.

Com o rosto virado para o céu, pensou “quando será que este pesadelo irá acabar?” Entretanto, estava longe disso; ao abaixar o olhar, se viu em um dos piores momentos de sua vida. Para Eilown, a luta enquanto adolescente por sua própria vida havia lhe deixado marcas eternas, porém, a vergonha e humilhação que passara em busca de comida fora a última gota para o copo transbordar. Em choque, a jovem adulta não teve reação exceto permanecer boquiaberta assistindo-se em uma boate com mais homens reunidos em um cômodo só do que se somando todos os que já encontrara ao longo da vida. E em um canto, lá estava ela.

Eilown gritou tão alto que seria o suficiente para a música ensurdecedora parecer um canto de passarinho. Correndo até ela mesma, a menina empurrou todos em seu caminho, dizendo o nome que seus pais lhe deram há vinte e dois anos com força, exigindo a atenção da mais nova desesperadamente. Nada importava mais, Eilown estava em crise e necessitando dinheiro, ainda que imaginasse seu corpo como sagrado, era a forma mais rápida de obter a quantia necessária para terminar a jornada. Foram cinco meses de luta, ela não iria morrer se descansasse finalmente por meia hora mesmo que ao lado de um desconhecido, mas sua consciência futura não queria permitir de jeito algum.

Não… não, não, não, NÃO! NÃO, ISSO NÃO!”, mas era ignorada. Sem ter voz naquele pesadelo, sua garganta fechou e Aitany estava sem ar, o corpo caindo para a frente, as mãos esticadas na direção da mais nova querendo puxar suas roupas, e os olhos suplicando por ajuda e perdão. Em um baque surdo, ela caiu chorando no chão, encolhendo-se com a cabeça nos joelhos. Com a palma das mãos, pressionava a orelha buscando abafar a própria voz em sua mente, a ansiedade transformando o estômago em um liquidificador e as lágrimas dando tom borrado a visão de Eilown mais nova subindo uma escada escondida em um canto da boate.

Passaram-se horas para ela, que se recusava a abrir os olhos ou escutar qualquer coisa que estivesse acontecendo do lado de fora. O cansaço emocional pelo qual passava novamente a levou ao sono, mais uma vez. A pobre jovem estava sem condições de separar realidade de sonho, saber se algo era real; por vezes sua sanidade mental a ludibriava e lhe restava torcer para que tamanha crise depressiva estivesse nos últimos dias e pudesse retornar a rotina normal. Eilown abriu os olhos sonolenta e estava de volta em Nova Iorque, caída na calçada do café em que se encontrava antes da chuva.

A primeira decepção foi encontrar sua bebida secando no chão, os pedaços da xícara formando um mosaico bonito em volta. A segunda, estar molhada da cabeça aos pés, já que mergulhou em uma poça de água quando desmaiou. Sua cabeça se encontrava dolorida, talvez pela queda, talvez pelo pesadelo que revivera com outra ponto de vista, mas não permitiria que continuasse destruída por dentro por causa de momentos deploráveis para si mesma como aquele, Eilown era muito mais do que seu passado. Ainda que não precisasse provar-se para ninguém, iria, já que passou pelo que passou para tornar-se forte e capaz de aguentar os tormentos que viriam a seguir em sua vida de cabeça erguida. De pé, tirou o excesso de sujeira das roupas e olhou de novo o café derramado; “Oh meu doce sofrimento, para que fugir se retornarás”. Eilown pegou os seus pertences em cima da mesa e entrou na cafeteria mais uma vez para comprar outra bebida.

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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Giuliana Grassi D'Fiori em Dom Jan 28, 2018 8:21 pm

If you go on,
you might pass out in a drain

Ator. Aquele que realiza o ato ou efeito de atuar. Aquele que desempenha um papel a fim de representar um personagem em um jogo,um filme, uma peça... ou, até mesmo, na vida real. E era isso o que Giuliana era, uma perfeita atriz.

Ao lado de sua mãe, a italiana fingia sentimentos que realmente não sentia pelo pai, afinal, a própria era responsável pela morte do progenitor.

Succubus, a irmã gêmea, por sua vez, não fazia a menor questão de estar ali e Giuliana faria o mesmo, se não fosse o fato de que adorava ludibriar aquelas pobres e tolas almas.

Afinal, cada um ali tinha desempenhando um papel, mesmo que singular, para tornar a Fiori no que ela era hoje. Logo, cada um tinha o cano de uma arma apontado para suas cabeças.

Giuliana só faria questão de prolongar o tempo de vida deles o suficiente para enlouquece-los, da mesma forma que tinham feito com ela.

Somente a mãe ela deixaria reservada como um presente para a gêmea que merecia ter o mesmo gostinho de vingança que a Grassi tivera.

Giuliana se aproximou da cova, como primogênita e herdeira, fora reservado a ela o ato de jogar o punhado de terra sobre o caixão primeiro. Com certa satisfação, se aproximou da cova, era prazeroso olhar para o corpo inerte do pai naquele caixão transparente, que ela havia escolhido a dedo.

Se realmente fossem atentos, notariam que o sorriso na face da herdeira era cheio de presunção e arrogância. Por mais que tentasse atuar, ela não podia conter os sentimentos que se reviraram dentro de seu ser, não diante daquela cena.

Não diante do fato de que Theodore Grassi D'Fiori estava morto e a assassina, sua própria filha, o havia matado sem o mínimo de dó ou piedade, se encontrava totalmente ilesa. E, agora, ela presenciava o corpo sem vida ser enterrado a sete palmos abaixo do chão.

Ah... Com certeza ela voltaria ali para prestar as merecidas condolências ao defunto. Desenterraria-o com as próprias mãos, dançaria em cima do caixão e queimaria os ossos enquanto desfrutaria de um bom wisky.


Giuliana vibrou com a própria imaginação.

(...)

O dia da morte do pai se foi e a primavera chegou.
Ah, a doce primavera...
Era tão bela e cheia de cores...

Giuliana, mesmo em sua loucura, conseguia ver a beleza da natureza, afinal, seus dons provinham dela e a italiana devia muito à chamada "mãe natureza".

No entanto, ela podia sentir - graças a sua conexão com a Terra -, que algo a mais acompanhava aquela mudança de estação.

Era como se a Terra sofresse com a chegada da estação das flores, algo que a Fiori não estava acostumada a sentir durante as viradas de estação e, mesmo sendo quem era, a preocupava. Alguma força maior estava agindo, a Terra a avisava.

A confirmação do mau presságio veio com a chegada de maio, todo o continente foi engolido pelas trevas. E, talvez fosse só impressão de Giuliana, mas, aparentemente sua conexão com a Terra fazia com que ela sentisse ainda mais profundamente os efeitos adversos que aquela estranha mudança climática estava fazendo com as pessoas.

As crises de espirros da italiana eram, evidentemente, piores e mais frequentes. E os vermelhões e inchaços em sua pele eram claramente mais visíveis comparados com os das outras pessoas.

E isso era muito estranho, principalmente ao se considerar que ela usava uma máscara, que filtrava o ar, desde que os gases nocivos se lançaram na atmosfera.

— CHEGA! — exclamou num surto de ira, derrubando todos os itens de sua mesa em seu acesso de fúria.

— Estou pouco me fudendo para o que o governo diz, tem cientistas nessa empresa e eu os pago para ter respostas, Alphonse. — resmungou enquanto, acidentalmente, lançava uma lufada de ar contra o capanga, lançando-o contra a parede.

— Mas... senhora... sem a coleta de seu sangue, nós não teremos muitos resultados para o soro... Eles acreditam que seus poderes são os principais fatores da infecção afeta-la em maior intensidade... a conexão com a terra, provavelmente... — mais uma lufada de ar foi lançada contra o homem, ainda mais forte que a anterior.


— Eu não quero desculpas. E todas essas informações já estão sob meu conhecimento. Se é meu sangue que eles querem, tudo bem. Mas diga a eles que se fizerem algo além de um antídoto com essa amostra que estou fornecendo, eles irão se encontrar com mio papà mais cedo do que o esperado. —
decretou por fim, enquanto vestia o sobretudo deixando para tás um atordoado Alphonse bem como a amostra do próprio sangue.

(...)

Os passos eram largos e apressados, mais uma vez sua conexão a avisava para correr e se esconder, mas o que ela faria naquela circunstância tão devastadora em que se encontrava, estava literalmente um lixo. Era horrível não se sentir tão bela quanto verdadeiramente era.

E, mais uma vez, mesmo com a terra lhe avisando antecipadamente dos perigos, Giuliana não pode se defender. As primeira gotas vermelhas caíram sobre ela, queimando-lhe a pele. A italiana correu para o estabelecimento mais próximo, agonizando em dor.

Era como se ela sofresse por ela e pela terra, como se o planeta e tudo o que acontecia nele fosse uma extensão de si graças a maldita conexão. Assim que saiu da chuva, ela só teve chance de ver pessoas correndo em sua direção para ajuda-la, enquanto caia para a inconsciência.

Então, ela estava de volta ao pesadelo.

É incrível como o senso de humanidade e as noções de ordem e sanidade são frágeis, principalmente nas crianças que exalam uma espécie de inocência cruel.

Sem surpresa alguma, Giuliana conhecia bem essa fragilidade e o fato de que ela se quebrava facilmente quando exposta a algum tipo pressão física e/ou psicológica. Frente ao inegável fato de que a existência humana é louca; casual e sem finalidade, só havia restado a ela uma única opção: se render a loucura.

E quem poderia culpa-la por se render a tal sentimento... ou melhor dizendo, a tal estado mental? Afinal, Giuliana era apenas uma criança quando o pai a levou em sua doce inocência para os laboratórios subterrâneos da Fiori's Prime. A lembrança veio-lhe com exímia clareza, apesar da distância dos anos.

Os passos infantis seguiam sem hesitação atrás do pai, fascinada com o tamanho da empresa e todas as tecnologias que seus olhos vislumbrava. Ela trajava uma daquelas roupas hospitalares enquanto seu progenitor a guiava até uma sala, onde passaria pelos piores momento de sua vida.

Quando deu conta do que acontecia, já era tarde demais. Enjaulada dentro daquele maldito tubo, Giuliana sentia tanto medo que mais parecia um animal acuado. A voz infantil gritava em desespero "PERFAVORE... TIREM-ME DAQUI!!", ela ecoava em meio as lágrimas.

"Papà... papà...", as mãos infantis desferiam golpes inúteis contra o vidro... As lágrimas desciam como uma cascata pela face alva... "Perfavore, papà...".

Parecia-lhe que, quanto mais gritava, menos atenção recebia.

Minutos se tornaram horas, as horas se tornaram dias e os dias se tornaram semana que, por sua vez, se transformaram em meses... E, quando mais o tempo passava, menos noção de tempo Giuliana tinha. Menos dor ela sentia... Afinal, quando algo ruim acontece tantas e tantas vezes, o corpo se acostuma.

Chega a tal ponto de sempre contar com aquele momento que, mesmo quando não a torturavam, o corpo por si só sentia as dores agonizantes do choques; das picadas das agulhas que retiravam sangue e aplicavam líquidos desconhecidos no corpo da menor; dos cortes em sua pele que, mesmo depois de adulta, ainda podia-se notar a presença de algumas cicatrizes.

E aquelas seções de tortura tinham ficado tão marcadas em seu ser que, mesmo quando os cientistas não apareciam para aplicar cada uma das cargas elétricas, começando da mais fraca e aumentando até chegar a uma potência que para a pequena era insuportável de sentir, o corpo dela reagia sozinho e, do nada, Giuliana começava a gritar e agonizar em dor.

E os gritos vinham sempre no mesmo horário, afinal, eles eram pontuais em seus serviços.

Quando atingiu certo tempo, ela já não gritava. Na realidade não sentia nada. Parecia-lhe que, finalmente, sua mente tinha desenvolvido algum tipo de proteção contra a tortura. As vezes ela ria, ria com tanto prazer que os cientistas se assustavam.

"Ela está louca, senhor", certo dia ela conseguiu ouvir através do vidro. Novamente ela riu, aos poucos a risada se tornou uma gargalhada. "Pazzo? Gli unici pazzi sei tu. Papà e il tuo dannato scienziato", ela ria ainda mais ao constatar.

Então, o inimaginável aconteceu. Finalmente os malditos poderes se manifestaram. Um corrente de ar começou a agir dentro do tubo, tornando-se cada vez mais forte. De repente, a porta de vidro foi lançada longe e, finalmente, Giuliana estava livre e, o melhor de tudo, ela voava.

"Acorde".

Algo ou alguém a chamava. Todavia, Giuliana estava muito ocupada atormentando seus algozes.

"Acorde" , a voz se repetiu, suave e gentil, fazendo-a vacilar por um instante, perdendo o controle sobre os poderes despencando em direção ao chão.


Assustada, Giuliana despertou. Sua face suava frio e seu coração batia descompassado. Quando fitou o lugar ao seu redor notou que, estranhamente, havia sido acolhida pelos donos da loja.

A cabeça latejou, Giuliana se levantou.

— Espera, moça. Você ainda está mal... —
uma voz gentil se dirigiu a ela, fazendo-a vacilar ainda mais, era a mesma voz de seu sonho.

— STAI LONTANO! —
exclamou alto, assim que notou que a figura se aproximava. Gentileza a assustava. — Per favore. Fique longe... — os olhos se encheram de água, no fundo, ainda era uma criança.


Dicionário:


  • Mio papà - Meu pai.
  • Per favore - Por favor.
  • Papà - Papai.
  • Pazzo - Louca.
  • Gli unici pazzi sei tu - Os únicos loucos são vocês.
  • Papà e il tuo dannato scienziato - Papai e seus malditos cientistas.
  • Stai Lontano - Fique longe.





Dados e Informações:

Perícias:

  • ARMAS BRANCAS, nível calouro;


Poderes:

Atmocinese: é a capacidade de manipular o clima e dominar os elementos nele contidos, podendo causar tempestades, tsunamis, nevascas e outros elementos, de acordo com a vontade do usuário.

Compensação Térmica: Ororo possui uma resistência a temperaturas extremas, ou seja, ela é capaz de suportar o calor e o frio extremo a um grau ainda desconhecido.

Eletrólise: No fundo do mar, pode gerar impulsos elétricos que separam a oxigênio da água fazendo-a respirar.

Eletrocinese: Ela é capaz de controlar, gerar ou absorver a energia elétrica. Como não é possível desintegrar energia pura, um corpo em sintonia plena com eletricidade (energia) também não pode ser desintegrado, o que torna Tempestade imune aos poderes de desintegração molecular.

Pirocinese:Ela é capaz de gerar, controlar o elemento fogo. Aumentando a energia cinética dos átomos para gerar calor e combustão, possibilitando manipular as chamas, causar incêndios, e derivados.

Hidrocinese:Ela é capaz de gerar, controlar o elemento água. É possível fazer a água escoar pelo ar, criar esferas de água cheias de pressão, cortar objetos com a água como se ela fosse uma lâmina afiada e derivados.

Aerocinese:Ela é capaz de controlar, gerar o elemento ar. Isto inclui produzir rajadas de ventos, tornados e aumentar a pressão do ar para esmagar coisas, diminuir a resistência do ar e derivados em geral, capaz de controlar as correntes aéreas, criando desde brisas suaves a furacões furiosos. Usa as correntes de ar como escudo contra armas de fogo, bombas e gases. Pode flutuar com suas correntes de ar.

Criocinese: Ela é capaz de reduzir a energia cinética dos átomos e assim reduzir a temperatura, frequentemente usada para controlar, gerar ou absorver gelo. Podendo congelar qualquer coisa ou emitir frio e pode fazer muitas outras coisas. Essa habilidade esta ligada a Hidrocinese.

Electromagnetismo: manipulação dos campos eletromagnéticos dos corpos, inclusive planetas, por esse motivo cria raios com facilidade até mesmo no vácuo. Esse poder lhe ajuda a destruir com seus próprio raios campos electromagnéticos.

Voo: Tempestade pode voar com auxilio de correntes aéreas com os ventos e até mesmo com raios, conseguindo maior velocidade. Habilidade de desafiar a gravidade e literalmente voar. Em nível elevado pode ultrapassar a velocidade do som, podendo criar um grande impacto e causar dano elevado.

Resistência Telepática/Força de Vontade: Algo que foi gradualmente ganho em seu tempo com os X-Men, Tempestade tem uma das vontades mais poderosas de todos eles e é uma adversária poderosa contra a telepatia em batalha. Sua resistência é ainda reforçada pelas forças elétricas que ela controla.

Conexão com a Terra: Os poderes mutantes da Tempestade criaram um vínculo psíquico entre ela e a força de vida primordial da biosfera da Terra. Esta ligação com a Terra e, aparentemente, todo o universo, dá a Tempestade sustento espiritual e material com um sentimento quase empático em relação a todas as coisas vivas, dando a ela a capacidade de sentir e detectar a força vital em qualquer local do planeta Terra.

Visão de Energia: Com um piscar de olhos, a Tempestade pode ver o mundo físico ao seu redor como energia, incluindo o sistema nervoso do corpo humano, o que por sua vez permite a ela contra-atacar todos os ataques, come exceção dos mais rápidos.

Potencial Mágico: A Ascendência de Tempestade a auxilia no uso de magia e feitiçaria. Muitas das suas antepassadas eram feiticeiras e sacerdotisas.


Atributos:

Força 10
Inteligência 15
Resistência 10
Agilidade 15
Vigor 10
Carisma 5

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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Giovanni Fiore Pellegrine em Seg Jan 29, 2018 11:48 pm



Yes, of course

What's the Use of Feeling

we still love her


As costelas de Giovanni foram quebradas pela quinta vez desde o começo daquele dia, mas seu maior incômodo não era esse. Recebia golpes diretos de um homem meio-máquina que o faziam cuspir desde sangue, até seus órgãos. Apesar disso, ele só mostrava sua face descontente quando uma súbita vontade o pegava desprevenido naquele combate.

Pellegrine espirrou muito muco, sangue e pedaços do seu interior irreconhecíveis após se grudarem ao ciborgue.

— Foi mal, cara. Tem algo fedendo nesses dias que está acabando com o meu nariz — explicou-se ao oponente banhado em gosma. Com o dedão pressionando o nariz, o italiano expeliu o sangue que entupia uma narina. — É… onde estávamos mesmo?

Ciborgue Gosmento — nome dado por Lobo em homenagem ao seu próprio espirro — sacou um revólver e disparou sem hesitar em seu antagonista anti-higiênico. Não havia graça em seus tiros, nem cuidado em mirar pontos vitais. Ele já havia constatado que o cáften era algo diferente, uma espécie de meta-humano capaz de sobreviver a todos os ferimentos. Suas balas serviam apenas como uma forma de manter distância do monstro.

— Já testou balas de prata? Talvez com água benta dê certo — sugeriu Lobo ao ciborgue, divertindo-se com a situação. Seu objetivo era apenas uma vingança em nome da funcionária assassinada durante seu trabalho na Casa das Máscaras, porém, um pouco de diversão não o faria mal. — Agora eu estou curioso. Por que você matou a Veronika? Ela se recusou a engolir ou não fingiu muito bem que estava gostando do teu pau pequeno?

Agora não apenas assustado, mas também furioso, o Ciborgue Gosmento removeu um fuzil de seu sobretudo. Lobo ergueu uma sobrancelha, estava contando com tudo, menos uma arma daquele calibre escondida por debaixo da roupa. Dezenas de tiros transformaram o italiano em um queijo suíço.

Giovanni tentou falar, mas sua língua acabou caindo de sua boca devido aos furos que recebeu em seu rosto. Seu único olho ainda inteiro franziu de descontentamento ao ver que estava incapaz de se comunicar.

O ciborgue aproveitou o momento para recuperar o fôlego. Seu pânico o havia deixado sem ar e agora se sentia seguro, pois, com a falta de luminosidade e a poeira que foi erguida com os disparos, era difícil notar o monstro ainda respirando.

Vindo da garganta semi-orgânica do assassino de putas, um grito agudo de desespero. Ele não sentia dor em suas pernas robóticas, mas ao ver a sua esquerda ser apertada como se fosse de massinha por uma mão ensanguentada e repleta de furos, fez com que sua mente trabalhasse na ideia de como seria a sensação. Nada agradável, aparentemente.

— Agora que reparei, você tem pernas de metal. Elas vão até o seu… — O rosto, agora regenerado, do Lobo fez uma expressão nada genuína de surpresa. — Você é eunuco! — Essa era sua hipótese.

Assim que percebeu ser incapaz de lutar com a abominação que era Giovanni, o Ciborgue Gosmento decidiu que fugir era sua melhor opção. Deixando para trás a perna deformada, ele começou a saltitar pela própria vida. Uma cena cômica que o italiano nunca havia presenciado em mais de cinco décadas de vida.

Enquanto seguia seu alvo com uma paciência incrível, Lobo notou pingos de algo em sua pele. Algo vermelho, similar a sangue. “Ainda devo estar com um ferimento aberto”, pensou. Então mais gotas o atingiram, dessa vez em uma quantidade maior, constante e fria. Não era seu sangue.

— Mas que porr… — Os dois pegos pela chuva vermelha tombaram contra o chão. Eles estavam quilômetros de distância da cidade mais próxima, ninguém os encontraria enquanto dormissem. Não que isso preocupasse Lobo, ele nem sequer se deu conta de quando começou a dormir.

●●●


No dia dezesseis de abril de mil novecentos e oitenta, a família Pellegrine se reunia em um almoço. Não era uma data especial, nem mesmo um costume deles. Apenas uma coincidência de todos se encontrarem naquela casa, naquele dia.

Para o líder daquela família, pai de Giovanni, o rapaz já tinha idade de se sentar na mesa dos adultos. Não era algo que ele desejava, nem mesmo pelos seus familiares, mas as decisões de seu progenitor eram imutáveis. Não havia outra alternativa a não ser se juntar aos mais velhos.

Os tios e primos do rapaz encaravam ele de cima, como se ele fosse inferior a eles e um desgosto profundo. Isso era tão sério que ele acreditava ser verdade, baixando seus ombros sempre na presença da família, nunca falando sem ser solicitado e sempre evitando irritá-los. Ou pelo menos eram essas as suas intenções.

“Espera, há algo de errado”, pensou Lobo na sua antiga voz, antes de seu renascimento. “Não quero continuar aqui!” Seguindo a vontade daquele pensamento, ou talvez fosse o contrário, Giovanni deixou seu lugar na mesa e fugiu de casa pela janela.  Ele apenas pôde ouvir os gritos de sua mãe e tias, mas nada de seu pai.

Apesar do que achavam dele, o rapaz era muito maduro e sábio para sua idade. Ele conhecia sua cidade como a palma de sua mão, incluindo os métodos de percorrê-la sem ser notado ou pego. Saltar por cima das casas era um dom dele, assim como nadar é para os peixes.

Giovanni desceu com cuidado ao chão após saltar tantos telhados. Enfim havia alcançado o lugar para onde corria após toda crise familiar, ou apenas algum problema que o importunava e não tinha a quem recorrer por conselhos, exceto ali. Acima da entrada do lugar, uma placa com o nome “Casa das Mascaras” — a primeira e italiana.

O rapaz deu a volta no lugar para entrar pela porta dos fundos.

Gio, cosa stai facendo qui? sussurrou Elisabetta para o intruso que ela agarrou e levou para uma sala vazia.

Já acostumado com o lugar, o quase homem se sentou na cama daquele cômodo. Ele nunca gostou do cheiro que aquele lugar exalava; mistura de fragrâncias de perfumes baratos, fezes de roedores, tabaco e suor. Só conseguia suportar aquela combinação pela sua irmã mais velha.

— Não faz ideia da saudade que eu tive de você. Queria entender o que está acontecendo, por que tudo parece tão confuso… — disse o italiano para sua irmã que o consolava com cafunés. — Mas, além disso tudo, eu tenho medo de não poder te ver novamente, sorella.

Elisabetta era a heroína de Giovanni. Quando ainda era muito novo, ela já era conhecida pela rebeldia contra o imponente pai Pellegrine. Diziam que nela havia um verdadeiro demônio, alcançando até mesmo o título de bruxa pelos mais fanáticos. Com orgulho, ela assumia todos os insultos, estufava o peito e erguia ainda mais a cabeça. Ninguém era capaz de fazê-la se rebaixar. Seu irmão a adorava por isso.

“Eu me lembro desse dia…”, pensou melancólico. O que acontecia a seguir estava na ponta de sua língua. “Não”.

A porta do quarto daquele prostíbulo foi brutalmente aberta pelo homem mais assustador já visto por Lobo, o seu pai. Houve muita balbúrdia. Apesar do seu desejo de confrontar aquele ser horrível como sua heroína sempre fizera, ele perdeu o controle do próprio corpo com a simples aproximação. Elisabetta, no entanto, teve atitude e bateu no rosto do pai que a expulsou de casa.

Lágrimas começaram a escorrer incessavelmente pelo rosto do mais novo na sala. Ele não conseguiu assistir o que seu pai fez com sua heroína, apenas o que restou dela. Uma mulher de rosto inchado, ensanguentada e caída no chão sujo. Foi a última vez que ele a viu, assim como ao seu pai.

— Eu te odeio — disse Giovanni e Lobo em uníssono, embora falassem em inglês e italiano. Depois disso, correu mais uma vez, só que sem rumo. Parou quando suas pernas cansaram e seus pulmões queimavam.

Quando uma luz intensa e familiar quase o cegou enquanto descansava sobre um telhado, o pesadelo com a lembrança mais desagradável na vida do italiano começou a se desvanecer. Era um alívio ao mesmo tempo que uma agonia ao Giovanni.

●●●


— Elisabetta...

De volta ao mundo dos despertos, Pellegrine se viu com o rosto deitado em uma grande poça de carmesim. O cheiro estava ainda pior que antes, mas isso lhe confirmava que não estava em mais outra lembrança.

“Ho un diavolo per capello”. Arrastando-se no líquido misterioso, o Ciborgue Gosmento parecia ainda desesperado. Devido a distância em que se encontrava, Giovanni calculou que tivesse acordado quase dois minutos após seu alvo de vingança. Não era uma lonjura que algumas passadas largas de Lobo não pudessem levá-lo do ponto A ao B sem entediá-lo. Todavia, ele não foi até o homem meio-máquina com pressa. Em meio a uma espécie de dança própria seguindo o ritmo de uma música que apenas ele conhecia, quiçá inventada ou adaptada por si mesmo, foi diminuindo a distância entre ele e o perneta.

— Parece que você não vai tirar a minha dúvida, não é mesmo? — A bota direita do Lobo pressionou o corpo do moribundo contra o chão, fazendo-o parar de se rastejar. — Não ficarei triste. Aliás, qual o uso de se sentir triste?

Lobo não teve pressa em voltar à Casa das Máscaras. Haveria ninguém importante para ele, apenas caos devido ao possível fim do mundo que foi anunciado com a chuva vermelha. Com certeza muitos tentaram aproveitar de um lugar de luxúria em seus últimos momentos, com ou sem dinheiro. No momento, o cáften ainda se preocupava em limpar os restos de um verme do sapato. Deixaria o resto para se importar outra hora.

“Qual è il punto di sentirsi triste?”, repetiu a si mesmo.


What's the Use of Feeling Blue | 1606 palavras


©️

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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Tom M. Phlöros Dekker em Qua Jan 31, 2018 8:46 pm

2107
Light-years away from you A distant orbit cast away, Your gravity, it pulls me near And it keeps me closer to your side. Hide from the light I'll navigate through the dark I feel in you



Todos temos, dentro de nós, algo nefasto o suficiente para que seja melhor que fique lá, em seu âmago, sem que haja uma fresta ínfima qualquer que deixe-a exalar seu aroma fétido e pútrido. E assim se sucede, quase sempre, porque por mais que queiramos convencer-nos de que o que é preciso para que ele saia é algo sutil, também temos plena noção de que não. É necessário muito para que alguém se quebre de modo que não tenha mais nada que possa ser feito. Não haviam precedido a mãe de Tom que o que estava fazendo faria-o se tornar algo pior do que o mais lúgubre dos temores.

Foi numa noite. Cordélia via ele, Tom, acalentar-se no inconsciente, algo que ela não fazia por gosto, mas sim, ansiando por saber o que fazia-o parecer tão vulnerável. Não que ele não fosse, mas ela persistia em vê-lo como alguém que poderia foder com ela, assim como fizeram antes dele. O peito magro do moreno subia e descia, e ela se vira conciliando sua respiração com a dele. Tom possuía as mãos cerradas, uma delas enfiada sob o rosto franzido, o que ia acabar deixando uma marca. Sob o tremor de suas pálpebras, ambos os oculares iam de lá para cá, concentrados em um cenário que estava lá só para ele. Mal sabia ela que as consequências de seus atos iam aflorar no coração ainda quente de Tom.

Ela se foi, deixando-o lá, mas vociferou para que um de seus capatazes o despertasse. Ernest, um cara não muito agradável, com braços longos e definidos, barba despojada, e cicatrizes de todas as formas possíveis em toda superfície possível de seu corpo; mas ainda sim, era um homem bom. Homossexual, o que não o deixava menos mordaz. Ele gostava de Tom, ainda que a maioria dos homens e mulheres o temessem com tanto desgosto que saía dos lábios de sua própria mãe. Ele queria acordá-lo suave e lentamente. Suas longas madeixas soturnas e encaracoladas desciam por seu rosto em fios emaranhados, acentuando sua pele pálida e seus traços delicados. Ernest gostaria que ele pudesse ficar, mas Cordélia havia sido bem clara. Ele sabia que algo sórdido acomodava-se nos anseios daquela mulher, e seja por isso, hesitou, mas estendeu a mão para afastar uma mecha da frente de seus olhos, mas, assim que o tocou notou o quão desorientado ele era, provavelmente, graças a sua mãe.

Tão ávido quanto um homicida que acaba de sofrer uma afronta, o punho destro do menor arranca um hematoma do rosto e mais um do ombro de Ernest. Ele não para de bracejar em uma profusão de socos até que enfim, acorda:

O PRESSÁGIO

— SE AFASTE DE MIM! — grasna. Tom se ergue abruptamente, despertando em meio a um arbusto nas dependências de uma das cedes do cartel do qual era chefe. Seu sangue passa como ácido em suas veias, assim como o suor desliza sob sua pele incansável. Ele estava delirando? O moreno se concentrou, querendo saber que havia acontecido (ou o que estava acontecendo, de fato) para que estivesse ali, mas ainda sentia fortes dores, possuía  vermelhidão em sua epiderme e sua visão atordoada  deixava claro que não estaria consciente por muito mais do que este momento em específico, — Merda... Merda, merda.

Seus pulmões estavam sucumbindo. Tom pôs a mão no peito e forçou as pálpebras sob os olhos para tentar ver algo ao seu redor: haviam vários homens seus caídos, tossindo e falando mesmo desacordados. Não havia uma exceção sequer. O menor tenta se erguer em vão, mas cai sem que suas pernas pudessem içar-lo como pretendia. Um vestígio de reminiscência surge: um odor. Ele se assevera de que havia sentido um cheiro de enxofre, mas não sabia exatamente seus precedentes... Ainda que, provavelmente, fosse essa a razão para a situação de sua pele além das lacerações da cabeça. Ele sente suas têmporas latejarem e seus braços fraquejam, deixando-o padecer de vez.

Um estrondo de um fúlmen devido uma descarga concebe-o de que acima dele a concentração era nebulosa e, então, Tom arrasta uma de suas mãos devagar, até alcançar a frente de seu rosto. Próximo o suficiente para ver o soturno que percorria sua pele. Franzindo o cenho, o moreno pousa o palmar esquerdo sobre os fios de suas madeixas e constata que estavam úmidos. Nada fazia sentido, e não tinha como. Por acaso havia acontecido uma carnificina para que estivesse ensanguentado? Não... Não tinha cheiro de sangue.

Lamentavelmente, não poderia mais tentar se esclarecer. Seus batimentos cardíacos ficavam cada vez mais fracos, e mesmo que não quisesse, o cerne de sua consciência padeceu novamente.

O TRAUMA

Ernest ficou estagnado conforme uma decadência de compreensão desabava sobre ele, Tom, arrependido ainda que permanecesse com expressões duras em seu rosto, parando, e afrouxando a tensão nas falanges de suas mãos; tudo tão repentino quanto quando ele o houvera afligido: — O que deu em você?

Tom comprimiu os lábios e enrijeceu o maxilar, desviando-se do homem. Desde os três anos, ele não se dava bem com o toque epidérmico de alheios. Ele afastava o braço sobre os ombros e se retraía de um abraço ou afago, mas sua única hostilidade era quase inaudível (quando surtiam de seus lábios demasiado ódio). Ernest não deixou-se esboçar, mas seu coração ainda se excedia enquanto  desvelava-se ao notar o que Cordélia havia feito com ele, e sentia as contusões. Lacerado entre a ânsia de consolar o moreno, e a de arrastar-lo até sua mãe, agarrando seu braço de modo que não houvesse como ele se abjungir.

— Se afaste de mim. — Tom diz, dessa vez de modo mais solícito.

— Não se preocupe com isso. — Ernest fala, e passa a mão sob a careca antes de prosseguir, — Sua mãe está te esperando.

— Tudo bem, pode ir.

E ele vai, sem sequer surrupiar quaisquer suposição sobre o que o aguarda; até porque ele não tinha uma convicção rígida, e Tom também não ia querer saber do que quer que ele tivesse para falar. Antes de deixá-lo lá, mirou-o pela última vez. Era o que ele achava: que era a última vez. Cordélia estava diferente naquela manhã; mais cruel e frígida. Não falava quase nada, e também, parecia inquieta de mais. Sabe-se lá o que ela havia preparado para Tom, e de qualquer forma, não seria nada bom.

Tom estava só: quando passou a mão sob sua clavícula, notou que estava suado. Demorou para que fosse se erguer. O cômodo era ínfimo, de modo que só havia uma superfície dura para adormecer; era quente e abafado, além de emitir sempre uma sensação claustrofóbica e sufocante... Não para ele, contudo. Ele já estava acostumado. Haviam três plantas suspensas numa aresta esquerda, e uma vidraça pífia bem próxima do topo (a única fonte de vestilação). Um espelho, também. O moreno estava parado em frente a ele; estava tão magro que poderia-se ver os ossos. Suas madeixas eram longas, e suas feições? De um enfermo. Pode parecer estapafúrdio, mas ainda sim, havia beleza em seu rosto. Hematomas, cortes e feridas também eram visíveis em seu torço, costas e mãos (nas juntas).

O moreno detestava ver-se tão fraco, ainda que não estivesse de fato. Ele parecia com um morto, ou com restos mortais que jamais vazaram por decomposição — provavelmente porque a podridão vem de dentro, não física, mas mentalmente. Haviam vestes próximas a ele, passadas e deixadas em um canto; Tom se agaixa, e as põe sob o corpo. Precisava ir, então, mas algo em seu íntimo o falava que era melhor não. Porquê? Ele podia falar consigo mesmo de vez em quando, como se fosse um aquêm distinto (como se não fosse ele). Este era nomeado de Mors, mas não fora Tom quem dera-o; ele próprio já possuía o nome.

— O que pode acontecer se eu for até minha mãe?

MORS, "É bem capaz que ela arranque mais de sua pele, e quem sabe, te mate? Se você quisesse e deixasse eu poderia interferir, mas você se faz de filho da puta".

— Não sou, nem me faço. Só tenho bom senso. — contesta, cerrando um punho, — Ainda não podemos fazer nada precipitado.

MORS, "Precipitação... Cordélia não vai estar se precipitando quando decidir que vai te cortar a garganta".

— O que te faz achar que ela seria capaz de me matar?

Tom contorce os lábios e nariz. Não queria mais falar sobre isso, então se põe a andar até onde sabia que sua mãe estava: desceu muitos lances, passou por muitos capatazes que paravam ou derrubavam as drogas ilícitas (maconha, cocaína, crack, êxtase...), todas elas como se a presença do menor fosse uma falência mórbida. Uns preferiam mostrar-se indiferentes, mesmo que ficasse óbvio de uma forma ou de outra que estavam tremendo por dentro. Tom só parou quando adentrou uma sala; antes, ele hesitou. Sentiu a boca seca e os umedeceu, pondo a mão sob a maçaneta com calma, como se ela fosse a única distinção entre ele, e atrocidades.

— Sente-se. — Cordélia.

Alta, esbelta, e maligna. Sua pele era tão vil quanto o par de olhos; fios lisos e pretos desciam majestosamente até suas costas. Estava erguida, tocando as pétalas das flores que enfeitavam uma mesa qualquer. Com pesar, ao seu lado havia um corpo desfalecido e sangue, um que escorria de sua cabeça até quase alcançar as proximidades de seus pés (uns que se arrastaram para longe pouco antes, fazendo-a se virar de frente a ele). Soturno espirrado em seu rosto, e um bisturi prata na mão destra. O morto era Ernest.

Tom demorou para falar: o baque de que, talvez, Mors estivesse correto percorreu-o a espinha dorsal e o imobilizou. O homem estava morto, e já dava para ver a contusão que ele havia provocado antes. O moreno então, prendendo a respiração para que pudesse se concentrar, se desvencilhou até o assento confortável no qual Cordélia haviam-no mandado se sentar.

— Me mandaram vir.

— Ernest te mandou vir, aliás. — ela diz de supetão, esboçando um sorriso fúnebre e deixando a arma cortante que possuía consigo, de lado — Não se preocupe que logo virão tirar o corpo. O que tenho a tratar com você é muito mais... Delicado do que isso. Morte é morte, nem sempre tão séria.

— Sim.

O menor era quase monossilábico ao se tratar de sua mãe. Ela, no entanto, parecia gostar de vê-lo assim, já que disfarcava-o cerne de um alguém capaz de por tudo a perder só para arrancar-la o coração. Cordélia andou de lá para cá, com as mãos repousadas em frente ao corpo, unidas pelos dedos. Aparentemente, a mulher estava tomando uma decisão que só cabia a ela.

— Sabe, Tom, do que você foi feito? Me refiro às condições as quais te fizeram sair de meu ventre. — fala, parando enfim, bem em frente a ele, — Você deveria ser grato. Eu não queria ter te tido, mas mesmo assim o fiz e, não só isso, te proporcionei o melhor do melhor. Se não fosse por mim, você não existiria, afinal.

— Não. Não acho.

Cordélia fitou-o. Subindo ambas as mãos, cruzou-as sob os seios: — Não?

— Não. Eu sou bom o suficiente para subisistir, ainda que eu precisasse sair do seu útero com minhas próprias mãos.

— Então isso não será incômodo.

...Naquela manhã, ela o levou pelo braço até os jardins exóticos de suas dependências, e lá o amarraria pelos pulsos longe o bastante da superfície, com seu corpo esticado: até anoitecer, suas costas foram açoitadas, e a cada 7h, ela voltava para saber se ele era capaz de sair de lá como faria rasgando-a por dentro. E assim foi por três noites, uma após uma. Tom não sabia nem entendia porque ela fazia-o passar por estas torturas, nem porque ela não o amava, ou o queria. E embora se vira sendo ferido intermitentemente, ele não fez nada. Não falou, nem gemeu de dor, ou deixou-se fraquejar, isso até os homens de sua mãe e ela própria cansarem, e o descerem. Puseram-no em águas salinas e, a contra gosto, trataram de seus ferimentos.

Só quando estivera novamente em seu cômodo desagradável, dolorido e cansado, ele repetiu: "Eu sou bom o suficiente para subsistir".

INFORTÚNIO PRESENTE

Acordou novamente. E dessa vez, a sua visão estava mais clara. Lentamente, seu corpo foi se restaurando de suas condições anteriores, mas a dor de cabeça ainda era latente. Ele espaçou ambos os olhos com exaspero e rasgando um urro por sua laringe; e permaneceu assim, berrando até que perdera as forças de fazê-lo. Suas mãos haviam se fincado no solo, e quando enfim se desfez em lágrimas odiosas, virou-se de bruços...

Sobre ele, o mesmo cedro no qual havia sido amarrado.




Wherever you are I dissolve into nothing; So far no signs of life Wherever we are We'll find home Though we know we've lost the way Through the void we've gone astray But you are not alone We'll find home



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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Artimus Exormun em Qua Jan 31, 2018 11:17 pm



O Presságio


O mundo enlouqueceu quando o céu ficou escuro.

Era mais um dia normal no meu trabalho, chefiando uma pesquisa biológica que poderia trazer alguns prémios a mim e a Fiori’s Corp. Minha equipe estava quase descobrindo como sintetizar uma enzima extremamente difícil de ser trabalhada, quando tudo aconteceu. Todos nós gostávamos de trabalhar com luz natural, então, nosso laboratório possuía muitas janelas.

Logo, a mudança foi vista por todos: o céu ficou negro de repente, atraindo a atenção das pessoas que saíam de onde quer que estivessem e se aglomeravam nas ruas, para ver o fenômeno. Como qualquer cientista normal, a curiosidade era maior que a possibilidade de considerar a existência de algum perigo proveniente daquele fenômeno, decidimos acompanhar a massa de curiosos.

A primeira coisa que pude notar, quando deixei a proteção do prédio da Fiori’s, foi o cheiro: enxofre. Aquilo com certeza não era normal, não para Manhattan. Enxofre seria uma das últimas coisas que eu esperava sentir por ali, ainda mais em tão absurda quantidade. Logo em seguida sucedeu-se uma série de pessoas com crises de espirros e outros sintomas. Decidido a proteger minha equipe, imediatamente, ordenei que retornassem para a proteção do prédio.

Assim que adentrei o prédio e passei pela recepção do prédio, notei que a televisão, da sala de espera, estava ligada, transmitindo o noticiário local. Imediatamente reduzi meus passos, estancando quase que em paralelo com o televisor, e me concentrei em assistir o que estava sendo transmitido. Aparentemente, a situação era pior do que eu poderia imaginar, pois todo o mundo parecia estar passando pelo mesmo fenômeno. Não só o céu estava preto como, também, enxofre estava contaminando todo o ar fazendo com que as pessoas tivessem algumas reações alérgicas quando expostas à toxina.

Preocupado e, ao mesmo tempo, curioso, decidi que deveria abandonar minha atual pesquisa e focar nos acontecimentos do atual evento meteorológico. À caminho do laboratório meu celular vibrou pelo que seria a centésima vez só naquele curto período de tempo, não era preciso ser vidente para saber que se tratava de minha irmã, Aurora, me indagando sobre o acontecido e questionando se eu estava bem.

Em curtas palavras tranquilizei-a, confirmando que estava tudo bem e que não sabia o que estava acontecendo, mas, que eu iria trabalhar nisso.

(...)

Trabalhamos por horas a fio, mas não conseguimos encontrar nenhuma hipótese plausível para o que estava acontecendo. Com pesar e a sensação de derrota, deixamos nosso trabalho e retornamos para nossas casas.

À caminho de minha casa, o odor do enxofre misturado ao oxigênio, castigava minhas narinas. Não conseguia pensar em nenhum animal que pudesse me ajudar nesse momento, então, decidi não ficar muito tempo na rua e fui para casa voando, depois de assumir a capacidade de voo do falcão peregrino.

Entrei em casa pela janela da cozinha, que eu sempre deixava destrancada. Felizmente a minha casa estava com um ar respirável, mas eu estava com uma crise de tosse horrível. Cada tosse era um arranhão no meu sistema respiratório. Todavia, eu tinha consciência que logo logo a substância estaria fora de meu sistema respiratório. Tudo o que tinha que fazer, era me cuidar.

Liguei a televisão e todos os canais traziam notícias de cada um dos quatro cantos do mundo. As coisas ainda estavam caóticas: hospitais estavam lotados de pacientes, com problemas semelhantes ao meu, e cada vez mais pessoas chegavam, tossindo, ou com feias manchas vermelhas na pele. Os governos ao redor do globo repetiam a mesma ladainha de sempre, que estavam trabalhando em uma solução para o problema, que não era para os civis ficarem preocupados, que tudo iria se resolver logo. Mas no fundo todos sabiam que a realidade estava muito longe disso, que tudo aquilo não passava de um texto fabricado por acessores, feito para conter o pânico.

Depois de ver que não havia nada que eu pudesse fazer, dormir se mostrou a melhor opção para mim, e foi o que eu fiz.

Com o passar dos dias, minha rotina se transfigurou em trabalhar, ficar o dia inteiro buscando alguma solução para o problema meteorológico e retornar para casa sem respostas suficientes. Por alguns dias eu fiz isso, enquanto o mundo estava virando um caos. Como era se esperar em momentos como esse, sempre surgiam os falsos profetas afirmando que aquilo era um castigo imposto por Deus, dizendo que devíamos nos arrepender de nossos pecados para que pudéssemos ser salvos e ter nossos nomes no livro da vida, afinal, aquele só podia ser o tão famoso “Juízo Final”.

(...)

Com o passar dos dias, mais desesperadas as pessoas se tornavam e mais lotados ficavam os hospitais, bem como as igrejas e seus fiéis ansiosos para conseguir uma “vaguinha” no céu. Todavia, foi com a chegada de maio as coisas começaram a ficar feias, principalmente quando a chuva começou a cair.

Eu já me encontrava à caminho de casa quando começou a chover. Apesar dos últimos acontecimento, não me importava muito com o que, aparentemente, era uma mera chuvinha. Logo, decidi ir embora debaixo da chuva. De início não percebi nada de errado, todavia, os pingos começaram a queimar minha pele, tardiamente percebi que se tratava de chuva ácida. Não daquelas normais classificadas pelos cientistas da metereologia, mas, literalmente, a “água” que caía dos céus se tratava de ácido.

Imediatamente acessei meu campo morfogênico, transformando-me numa águia e, rapidamente, voei para o meu apartamento, me molhando mais ainda, o que resultou em mais machucados. Parecia que a chuva ignorava meus poderes pois, mesmo o fato de eu ter acessado o campo morfogênico e assumindo a resistência da pele de um rinoceronte, era ineficiente contra os efeitos daquele ácido.

Fora as queimaduras em minha pele, eu tinha certeza de que algo estranho acontecia comigo. Dores de cabeça vinham como ondas, quase me derrubando no chão. Isso sem falar da minha pele, que se encontrava extremamente irritada. Cambaleei pelo apartamento, quase como um bêbado, derrubando algumas coisas em meu caminho até o banheiro, precisava tomar um banho e tentar limpar os resquícios da chuva ácida em meu corpo. Todavia, meu corpo não respondia mais meus comandos, parecia que a cada passo dado eu me sentia cada vez mais mole, então, simplesmente fui de encontro ao chão caindo com um baque audível bem no centro de minha sala.

A partir desse momento, eu já não sentia dor nenhuma. Para falar a verdade, eu não sentia nada. Nem mesmo a sensação do chão em meu rosto. Tudo o que sentia era eu caindo em um tobogã gigante e escuro. Minha mente apagou. Eu não via nada. Tentei piscar uma vez. Nada aconteceu. Pisquei mais algumas vezes, e tudo ainda estava escuro. Foi quando fechei os olhos, numa última tentativa, com toda a força que eu possuía e os abri novamente. Diante de mim estava minha irmã.

— Vem, Art. A gente tem que chegar na feira logo — Aurora segurava minha mão e me fazia andar rápido. — Se você fizer eu me atrasar, eu vou te matar.

Eu olhava para tudo sem acreditar no que via. Não estava mais em Manhattan. Eu estava em Richmond, na Virgínia, com minha irmã, Aurora, indo a uma feira. O único detalhe importante era que essa feira havia acontecido em 2007. Dez anos atrás. E, confesso, que não tenho lembranças boas desse dia.

Eu sabia exatamente o que ia acontecer nesse dia. Até hoje eu tenho pesadelos com isso. A explosão. Meu corpo sendo evaporado quase completamente. Minha primeira viagem ao campo morfogênico. Eu não queria reviver isso, mas, alguma coisa naquela chuva ácida me fez voltar para esse pesadelo. E o pior era que eu sabia de tudo, e não poderia mudar nada. Então deixei ser carregado pela minha irmã em direção a feira que acontecia em nossa cidade.

Era uma típica feira onde havia barracas de jogos, alguns brinquedos, uma roda gigante - sempre tem uma roda gigante -, e pessoas. Muitas pessoas. A cidade inteira estava na feira. No entanto, não eram aquelas pessoas que me interessavam, somente uma em toda aquela multidão me chamava toda a atenção. Minha mãe, Lelliana. A mulher que tinha criado minha irmã e eu, sozinha. Minha heroína. Eu queria chorar, mas não tinha controle sobre meu corpo. Tudo o que eu poderia fazer era observar impotente o decorrer do sonho.

O dia passou normalmente. O corpo ao qual me encontrava preso estava aproveitando o dia normalmente, como eu me lembrava de ter feito. Então, a hora temida se aproximou, o fim da tarde que deveria ter sido perfeita. Eu sabia o que estava por vir, imediatamente comecei olhar para os lados, desesperado, em busca da bomba que explodiria tudo e faria com que Richmond velasse pela alma de dez mortos, entres eles, minha mãe.

A feira mantinha sua programação normal. Então, com minha visão periférica, notei um homem, com uma roupa preta, largar uma mochila no meio do caminho e sair andando calmamente. Eu sabia que aquilo era a bomba, mas não conseguia avisar ninguém. Por alguma intervenção divina, Aurora anunciou que iria a alguma barraca qualquer, e minha mãe concordou. Por um lado, me senti aliviado, pois, sabia que Aurora se salvaria da explosão. Mas, por outro, meu coração ficou apertado, afinal, eu tinha certeza que o momento da morte de minha mãe estava cada vez mais próximo.

Ela começou a caminhar e eu fui junto com ela, andávamos lado a lado, conversando sobre a minha faculdade. Na época, eu estava quase terminando o curso, e já estava pensando em continuar estudando. Então, minha mãe parou e olhou para mim, e o que ela falou me deixou totalmente sem ação.

— Eu sei o que vai acontecer hoje. — Uma lágrima escorreu pelo olho direito dela, mas ela estava sorrindo como eu nunca havia visto antes. — Sei o que tem aqui. Sei que você não é exatamente você. Sei que você está sendo obrigado a ver isso de novo. Então, antes de ir, quero dizer algumas palavras.

Eu senti que finalmente tomei controle do meu corpo, mas o que me paralisava agora era minha mãe, falando comigo como se soubesse tudo o que aconteceu entre a morte dela e a chuva ácida.

— Meu filho, eu tenho muito orgulho de você. Sei o que você faz, sei que ajuda a humanidade. Não poderia estar mais feliz. Também sei que você cuidou de Aurora, e ela está bem graças a você. — minha mãe me abraçou e eu, tremulamente, retribuí o abraço. — Lembre-se, o mundo é um lugar ruim. Cabe a você torna-lo melhor. Eu te amo, Artimus.

— Eu te amo, mãe. — Foi tudo o que eu consegui dizer, antes que eu perdesse o controle do meu corpo e voltasse a ser apenas um expectador da tragédia. Continuamos andando por mais alguns segundos, até que a explosão ocorreu.

Meu mundo foi transformado em apenas uma luz branca, e então essa luz ficou vermelha. Eu sabia exatamente o que era isso: o campo morfogênico da Terra. O campo que ligava a essência de todos os animais existentes da terra. Mas havia algo a mais ali. A entidade que personificava esse campo, o Vermelho. Eu sabia o que iria acontecer. O Vermelho iria me tocar, e então eu iria começar a reconstruir meu corpo, célula por célula. Um processo muito lento, mas que me traria de volta.

Perdi a noção de tempo quando terminei de construir meu corpo, exatamente como ele era antes de explodir. Lembro claramente de me sentir arrasado por não poder reconstruir minha mãe também, mas o Vermelho disse que eu era destinado a coisas grandes. Só não estava pronto ainda. Então, eu voltei para o meu corpo, que estava na feira, agora arruinada pelo ato terrorista.

As próximas memórias passaram rapidamente pela minha cabeça. Aurora e eu no enterro de minha mãe, a descoberta de meus poderes, minha vingança atrás do terrorista que havia matado minha mãe, a conclusão de meu PhD em biologia, a comemoração pelo meu emprego na Fiori’s Corp, uma conversa minha com Giuliana, a dona da empresa onde eu trabalhava. Uma enxurrada de memórias preencheu minha mente, até que eu aterrissei novamente em meu corpo, estatelado no chão do meu apartamento, em Manhattan.

Quando olhei para a janela, o céu ainda continuava escuro, mas a chuva havia passado, e o cheiro de enxofre também. Ainda zonzo, sentei-me na minha poltrona, buscando um pouco de descanso para meu cérebro e as inúmeras memórias que afloraram nele. Simplesmente peguei meu celular e fiz uma ligação. Três bips longos depois, uma voz feminina ecoou do aparelho dizendo um alto e claro “Alô”.

— Oi, maninha. Você está bem?


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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Arthur M. Fuchs em Qua Jan 31, 2018 11:19 pm


All around me are familiar faces
Worn out places, worn out faces
Bright and early for their daily races
Going nowhere, going nowhere
Their tears are filling up their glasses
No expression, no expression

madworld
I find it hard to tell you, I find it hard to take


Durante cerca de uma semana eu apenas observei como espectador atento os eventos que se aproximavam, sem saber a qual destino eles me levariam – sem saber, inclusive, que havia um destino a mim reservado nos efeitos desses eventos. No transcorrer daqueles sete dias eu tinha algumas aulas pela manhã e pela tarde; sempre que a faculdade permitia, era convocado ao estágio. Não havia nada de excepcional, minha vida seguia sua rotina costumeira.

Até meados de maio.


Foi apenas um ruído sutil e áspero, como uma passada quase inaudível raspando o piso, mas me fez virar em noventa graus com uma faca de cortar pão flutuando na minha esquerda e a mão direita envolta em uma esfera púrpura inconstante de magia.

Quando eu vi as feições expressando quase tédio me fitando eu bufei e soltei um palavrão. A faca caiu sobre o balcão e a energia mágica se dissipou.

– Eu poderia ter te ferido, sabia? – Minha irmã aproximou-se mais, arrastando os pés no chão. “Ah, agora você faz barulho!”, eu pensei de forma acusatória. – Por que você anda como se fosse um fantasma, Sophia?

– Eu não ando. Você que está surdo e não me ouviu chegando. – Ela se pôs nas pontas das pantufas de raposa e assoprou em meu ouvido, fazendo-me encolher o ombro esquerdo e afastá-la com um fraco empurrão. – Aliás, você tem que parar de ficar usando mágica aqui dentro. Poderia ser a mamãe.

Aproximei-me do fogão onde os hambúrgueres fritavam na manteiga e conferi o ponto. Estavam crus demais até para mim. Há pouco mais de um ano minha irmã mais nova descobrira sobre minhas habilidades. A garota de dezessete anos ajeitou os cabelos ondulados avermelhados sobre o ombro direito e abriu a geladeira, retirando uma caixa de pizza de lá de dentro.

– A mamãe não anda pela casa sem fazer nenhum barulho. Essa pizza tem três dias já. – Ela deslocou seus olhos cor de turmalina de mim para a caixa aberta diante de si e apenas assentiu com a cabeça. – Você não deveria estar no colégio?

A adolescente demorou a responder pois começara a espirrar. Só então eu a observei com mais atenção e notei que manchas vermelhas marcavam a pele pálida do seu pescoço.

– Eu sei, mas acho que ainda dá para comer. – Sophia pegou um prato limpo e quadrado dentro do armário. – Eu tentei ir hoje, mas passei mal. Disseram na enfermaria que foi efeito desse gás.

– Enxofre. – Murmurei. – Mas você está bem? – Aproximei-me novamente dos hambúrgueres que fritavam e virei-os com uma espátula.

– Até que sim, só os espirros e umas manchas vermelhas. Você sabe a origem disso? – O micro-ondas emitiu um apito ao mesmo tempo que meu celular alertava para uma nova notificação. Sophia abriu a porta do aparelho e pegou o eletrônico na mão. – Alguém não para de caçar nem quando o mundo está acabando. – Seu sorriso denotava certa malícia.

– Não foi do Scruff. – Afastei-me da frigideira para andar até a geladeira e pegar alguns ingredientes para o sanduíche, durante o caminho peguei meu celular da mão da ruiva e olhei as notificações. O ícone de mensagem de texto aparecia na região superior da tela. – Pode ser magia. Mas meus poderes não funcionam como um radar, é mais como uma sensibilidade. Eu tenho me sentido estranho – Eu movi o polegar pela tela para abrir o aplicativo de mensagens de texto enquanto apoiava o cotovelo na porta aberta da geladeira. –, mas se a origem da magia estiver distante eu não posso sentir. Além disso, um mago que consiga invocar nuvens escuras sobre toda a Terra é poderoso o suficiente para disfarçar sua existência.

– E a entidade? – Eu soltei um palavrão quando finalmente li a resposta do meu chefe à pergunta que tinha feito a ele vinte e quatro minutos antes. – O que foi?

– Meu chefe quer que eu vá trabalhar nesse tempo. O mundo pode estar acabando, mas a Hell’s Core não para jamais. – Meu timbre tinha certa revolta e desprezo. – Ela não está aqui no momento, não sei onde está, mas ela também não parece gostar muito disso tudo.

Sophia engoliu seu pedaço de pizza.

– Você comprou a companhia de energia elétrica, garoto? – Ela me observou de forma acusadora, portanto peguei alface, cebola e picles e fechei a geladeira antes que recebesse um pedaço de pizza na cara. – Ninguém gosta. A mamãe também teve que ir para o trabalho, mas ela vai tentar sair mais cedo para me levar ao hospital.

Tranquilizou-me saber que a minha irmã iria consultar um especialista para saber se aquelas reações fisiológicas não escondiam nenhum dano mais preocupante. Continuamos a conversar enquanto comíamos. Quando eu me ergui para levar a louça até a pia, a adolescente falou:

– Lembra de levar um guarda-chuva. – Ouvi os talheres tocando o prato e supus que ela se recostara na cadeira. – Eu sinto que vai chover.

Foi bom ter escutado o conselho.


Havia pego um táxi para poder chegar ao prédio da Hell’s Core mais cedo. O destino parece engrenar seus elementos corretamente, de modo que as coisas aconteçam do modo como devem acontecer. Eu sabia disso, sempre soubera. Eu dera ao motorista o endereço do meu estágio, portanto seriam apenas alguns metros que eu precisaria andar para atravessar a calçada. No entanto, recebi nova mensagem de texto antes de chegar ao meu endereço final, por isso desci três quadras antes.

“Procura uma drogaria e compra esse remédio pra sua irmã. Beijos, mamãe”

“Mas eu ainda tô chegando no estágio, quando que ela vai tomar esse remédio?”

“Só compra, Artie.”

Não havia tantas pessoas quanto geralmente se veria pelas ruas, os eventos incomuns assustaram muita gente, mas a Grande Maçã jamais parava, portanto eu tinha que ter cautela de não esbarrar em ninguém enquanto guardava a caixa da pomada no bolso do casaco escuro. Desbloqueei o celular e comecei a digitar uma mensagem à minha mãe.

“Pronto, pomada comprada. Foi cara pra por...”, mas parei quando um círculo escarlate surgiu no meio da tela do aparelho.

Minha testa franziu-se automaticamente e eu ergui os olhos para o céu, percebendo que algumas poucas gotas despencavam da abóbada celeste escurecida pelas nuvens. Irresponsavelmente eu estendi a palma da mão para frente para aparar uma daquelas gotas.

Com a língua posicionada contra a parte traseira dos incisivos, eu empurrei o ar com força em um sibilar alto ao sentir o líquido sobre a minha pele, um som acompanhado do recolher da parte atingida e do apressar dos meus passos. A palma da minha mão havia sido tomada por uma sensação desagradável, um ardor parecido com uma comichão extremamente forte e eu apenas não a cocei porque sabia que isso poderia ser ruim. Enquanto andava, pressionei o tecido do casaco contra a pele para absorver o líquido sem espalhá-lo e comecei a buscar pelo guarda-chuva.

– Malice. – Procurei ao meu redor, mas nada da figura excêntrica nas regiões próximas. – Você já pode parar com seu jogo infantil, o caso é sério. – As gotas caíam sobre a superfície escura do guarda-chuva e aparentemente o corroíam devagar. Sabia que precisava encontrar abrigo.

– Teletransporte-se. – A voz grave sussurrou ao meu ouvido, com um tom asqueroso de prazer ao notar que eu clamara por seu auxílio.

– Há gente demais, não posso. Eu posso parar essa chuva com magia? – Quando olhei para o meu lado eu percebi um homem com as exatas mesmas feições que eu vestido com retalhos caminhando junto a mim. Ele me olhou e sorriu de modo perverso.

Eu posso. – Eu compreendi o que aquelas palavras significavam e bastou um gesto negativo da minha cabeça.

– Nem pensar, você não vai assumir o controle. – Não sabia se ele falava a verdade, mas isso era irrelevante, mesmo se ele não estivesse mentindo eu não cederia o controle do meu corpo. Poderia encontrar outra solução.

– Oh, meu jovem garoto fulvo. – Ele aproximou seus lábios do meu ouvido, caminhando como quem flutuasse. Mesmo com os fones de ouvido tocando música eu fui capaz de ouvir sua voz. – Causa-me tanta admiração sua ingenuidade.

Eu já caminhava há trinta segundos e o cheiro acre daquele líquido que despencava começou a invadir a força minhas narinas. A tontura veio com rapidez, minha visão foi se tornando imprecisa, a minha visão periférica escurecia.

– Acho que eu vou desmaiar. Não posso desmaiar aqui, essa chuva vai me corroer. – Malice surgiu parado cinco metros a frente, a cabeça pendida para esquerda e o queixo erguido para o alto. Seu dedo, no entanto, apontava o chão da calçada.

– Crie um portal aqui, ninguém notará.  

Eu já sentia as forças em minhas pernas se esvaindo e não enxergava nenhum abrigo possível, até mesmo porque os transeuntes se aglutinavam embaixo de qualquer cobertura para fugir da chuva ácida. Com a mão esquerda, a única livre, eu apontei para o chão diante de mim e deixei que a magia realizasse seu trabalho. O círculo brilhante de tom roxo marcou o asfalto e no instante em que pisei sobre ele eu senti o mundo girar.

Ressurgi em um beco com uma cobertura estreita de blocos vermelhos. Meus dedos rasparam a parede áspera quando eu inutilmente tentei me manter de pé. Quando meu corpo tombou sobre o chão eu consegui visualizar os pés descalços imundos da entidade que me concedera sua magia. O fone esquerdo saiu do meu ouvido, mas o direito ainda tocava música.

… the dreams in which I'm dying are the best I've ever had.”.

Apaguei.


Eu não sei quando despertara, não era capaz de recordar. Quando dera por mim, estava sentado em uma calçada com as costas apoiadas contra uma parede. Algumas pessoas me jogaram moedas sem olhar a minha face e eu resmunguei enquanto me erguia, sentindo-me menos tonto.

– Eu não sou um pedinte. – Ralhei em um tom baixo, ofendido por ter sido confundido com uma pessoa em situação de rua.

Como em um sonho, eu não sabia como havia ido parar naquela rua, não tinha memórias de nenhum momento anterior àquele e também não fiquei intrigado com isto. Dei passos trôpegos tentando endireitar minha postura e firmar meus pés. Observei dedicadamente a via ao meu redor, buscando identificar algum ponto de referência. Algo no fundo da minha mente indicou que tinha lembranças vagas daquela avenida, sabia que estava em Nova Iorque, mas não era capaz de recordar exatamente qual o nome daquele lugar específico.

Pouco tempo se passou até que eu já não me sentisse mais entorpecido. Retirei o casaco escuro pois fazia calor e visualizei uma banca de jornais em uma esquina.

– Que estranho. – Murmurei ao segurar um jornal em minhas mãos.

Uma das matérias do exemplar do New York Times noticiava o desejo de LeBron James de participar dos Jogos Olímpicos sediados no Rio de Janeiro. Meus olhos correram até o topo da página e eu senti a parte de trás da minha cabeça aquecer e o choque me tomar.

– Esta é a edição do dia? – Mostrei a frente da mídia impressa. O homem de estatura mediana, branco de cabelos escuros entremeados por fios cinzas afirmou com a cabeça.

– Sim, senhor.

Franzi a testa quando voltei a olhar o jornal. 20 de agosto de 2012, lia-se na parte superior. Importante frisar que eu não havia me dado conta ainda que me deslocara no tempo, apenas sabia que havia algo errado com aquela data. Além do mais, eu tinha um estranho conhecimento sobre que dia era aquele.

Olhei para o outro lado da avenida que se estendia diante de nós. O prédio de tijolos vermelhos da Hunter College ocupava a esquina naquela direção, após o canteiro coberto de flores da mesma cor do edifício. Retirei algumas moedas do bolso e entreguei-as na mão do homem.

– Parceiro, essa rua aqui é a... – Estalei os dedos e tensionei a testa, fingindo que sabia o nome da rua e apenas esquecera-o, para que ele complementasse.

– É a East 94th.

– No cruzamento com a Park Avenue...

– Exato. Você está perdido? – Dito isso ele saiu de seu posto atrás dos jornais enfileirados e se aproximou. – Eu trabalho aqui há 13 anos, conheço essas ruas como as linhas da minha mão, se seu destino for perto eu posso te explicar como chegar lá.

– Não, não será necessário. – Minha expressão continuava indecifrável.

Retirei o celular do bolso e assim que minha digital foi reconhecida eu conferi o horário na parte de cima. 12:59. Contudo, eu sabia que algo em minha localização temporal não estava correta. Se minha mente se recordava de um presente na data errada, quem iria garantir que meu celular não exibiria um horário igualmente incorreto?

– Eu só preciso saber que horas exatamente são agora, estou com medo de chegar atrasado no meu compromisso.

Ele demorou cerca de quatro segundos para fazer algum movimento, claramente observando meu celular com surpresa. Finalmente, retirou do bolso um iPhone 4 e eu compreendi a sua reação, o meu modelo era bem maior, mais fino e completamente diferente do dele, apesar de também contar com a pequena maçã mordida na traseira.

– Belo aparelho. – Ele elogiou e eu murmurei um obrigado. – 14:40. – Tinha cerca de vinte minutos então.

Evidentemente eu estava abismado com aquelas circunstâncias. Dera-me conta finalmente que havia me deslocado no tempo-espaço de uma forma inexplicável e já me preocupava se seria capaz – e, caso fosse, como faria para – retornar ao ano de 2018. Apesar disso, algo se rebelava com mais força em meu interior: o choque por compreender que eu morreria em dezessete minutos.

Minha sensibilidade para magia atuava de maneira diferente do que a lógica esperaria. Era como o medo que se apossa quando o instinto alerta para o perigo; a alegria que se contorce quando se aproxima o amado. Não sentia magia através de um sexto sentido, mas de uma estranha forma de sentimento. Foi assim que veio o calor estranho no abdômen, um pouco abaixo do esôfago que se deslocou até o meio das minhas costas e correu rapidamente minha espinha até a parte de trás da minha cabeça.

– Obrigado, meu amigo. – Agradeci e me virei com pressa.

Meus olhos dourados correram entre as pessoas do outro lado da rua até localizarem a moça de tailleur cinza atravessando a faixa de pedestres da Park Avenue, descendo aquela rua em uma direção que eu era capaz de supor. Eu conseguia rastrear a magia vinda dela, apesar de fraca. Mais preocupante do que isso era o fato de que ela parecia estar se dirigindo para o cruzamento onde eu sofrera meu acidente. Velozmente, eu atravessei a avenida ainda do lado oposto da 94th, tentando não perder aquela mulher de vista. Havia algo em sua aura mágica que me era familiar.

– Droga. – Eu resmunguei tal palavra baixo a cada vez que esbarrava nas pessoas que andavam na direção contrária à minha, perguntando-me porque todo mundo decidira andar na direção da Madison.

Por duas vezes quase perco a mulher loira de vista, mas finalmente atravessei a via até a calçada oposta e apressei meu passo. Meus dedos envolveram seu braço logo acima do cotovelo. Falanges, metacarpo, carpo, rádio e ulna, úmero. Eu senti aquele choque estranho correr em grande velocidade pelo interior de cada um desses ossos nessa ordem, fazendo minha respiração parar por um segundo e a pressão exercida por meus dedos aumentar de modo instintivo. A moça loira virou-se para mim, mas sua expressão não era de surpresa ou fúria por minha abordagem inesperada. Seus olhos estavam distantes, me fitavam como se na verdade focassem em algo quilômetros atrás de mim, o rosto jovem e bonito sem nenhum músculo contraído, tão relaxado que poderia duvidar se ela estava desperta. Suas íris eram aquilo que mais me chamava a atenção, negras como petróleo cru, mas liberando um leve brilho.

Pressionei os olhos de leve, inflei as narinas e segurei seu queixo com a mão livre, apertando com fúria seu rosto.

– Malice. – Eu deixei escapar o apelido da entidade que possuía a mulher olhando fixamente em seus olhos, minha voz quase em um rosnado de desprezo.

Para minha surpresa, no entanto, não houve risada debochada ou expressão arrogante. Seu olhar começou confuso e logo se tornou irritado.

– Quem é você, criatura reles? – Seu rosto aproximou-se do meu, aparentemente tentando avaliar meus olhos. – E por que você tem essa energia mágica tão familiar?

Antes de retrucar eu segurei o pescoço da moça e violentamente empurrei-a contra a parede da casa próxima a nós. Logo em seguida eu reduzi a força que aplicava ao redor da sua garganta por dois motivos: primeiro porque sabia que o corpo não era o da entidade, portanto se eu o ferisse acabaria machucando a moça indiretamente (discussões éticas constantes quando você tem que lidar com uma entidade mágica capaz de possuir humanos) e a segunda razão era o modo como os pedestres reduziam a velocidade dos seus caminhares aparentemente suspeitando que eu poderia ser um homem abusivo prestes a agredir uma mulher inocente.

– Empáticos eles, não é mesmo? – Malice ralhou, seus olhos fosforescendo em um matiz mais arroxeado agora.

– Foi você quem me trouxe para cá? – Eu indaguei, com nossos narizes quase se tocando.

Eu detestava aquela criatura mágica. Nem mesmo eu compreendia como fora capaz de lidar com a sua presença em minha vida por mais de cinco anos. Ela não me respondeu por diversos segundos, tentando lembrar-se de onde me conhecia. Finalmente nós obtivemos as respostas para nossas indagações de modo ironicamente simultâneo, sem que nenhum fato externo auxiliasse nisso, apenas refletindo internamente.

– Ah, não, ruivinho... – Ela riu alto e segurou os dois lados de meu rosto, arranhando minha barba. – Como você vai ficar interessante. Quer dizer, ficou interessante... Digo... – Ela abandonou a cabeça e eu sabia exatamente ao que ela se referia. Aquela não era a entidade com a qual eu dividia espaço em meu interior, era a Malice do ano de 2012. – Desculpa, achei muito interessante sua pequena viagem, mas eu não tenho tempo para você.

Nada mais precisou ser dito. Eu não tive tempo de reagir antes da loira erguer seu braço, levantando junto o meu corpo com o uso de sua magia, e em seguida lançar-me para o meio da rua. Quando eu me levantei segundos depois eu percebi que ela havia desaparecido. Contudo, isso não seria um grande problema já que eu sabia para onde ela estava indo.  E para além dessa certeza, a desconfiança quanto ao que ela estava indo fazer no cruzamento da Lexington Avenue com a East 95th Street me fazia ter pressa para chegar até esse local o mais rápido possível.

Sob o olhar embasbacado dos transeuntes, eu alcei voo.


Foram apenas poucos segundos de deslocamento até eu avistá-la no terraço de um prédio antigo localizado em uma esquina ao lado de uma sinagoga. Pousei atrás da moça e percebi que ela parecia diferente agora. Suas roupas eram apenas retalhos e seus cabelos estavam escuros e mais cheios, efeito da magia da Enchantress. Sinceramente não compreendia porque aquela entidade dava tanta importância para sua identidade visual, considerava um pouco patético. Conferi o horário no meu celular. 13:10. Havia se passado onze minutos.

– Você sabe quem eu sou. – Eu disse, assim que me aproximei da beirada do terraço, onde ela estava parada.

– O que a Enchantress não sabe neste mundo, garoto? – Ela tornou sua atenção para mim lentamente, inclusive movimentando seu corpo para ficar em minha frente.

Rolei os olhos com sua prepotência. Cruzei os braços frente ao peito. Poderia ser capaz de dilacerar a essência daquela criatura se meus olhos tivessem tal habilidade, tamanha a intensidade com a qual eu a olhava.

– Seus olhos parecem realizar um julgamento silencioso. – Aproximou-se, caminhando como quem deslizava sobre o concreto. – Qual seria ele?

Eu observei as duas vias que se encontravam abaixo de nós, as lembranças daquela tarde vindo à minha mente de imediato. A música que tocava no carro, o ritmo do trânsito, o lanche que eu e meu pai havíamos consumido momentos antes do acidente.

– Os carros vinham devagar como agora. – Meu olhar ainda repousava sobre a Lexington. – O dia realmente era claro. – Subi meus olhos até o céu com nuvens dispostas espaçadamente. – Meu pai mantinha os olhos no trânsito, ele era um motorista atento assim como era um advogado dedicado e meticuloso. – Ela estava mais próxima de mim. Meus olhos deslizaram nas órbitas até eu finalmente olhá-la, contendo a minha vontade de empurrá-la dali de cima. – Nada justificava aquele acidente. A perícia concluiu que o velocímetro estava desregulado, marcava 38km/h quando a força do impacto indicava uma velocidade de pelo menos oitenta. O motorista falou que o caminhão simplesmente avançou do nada sozinho. Eu evidentemente não acreditei nisso, nem a polícia, nem o júri. Ele foi condenado.

Enchantress passou os dedos pelos meus fios vermelhos.

– Homicídio culposo. Era um senhor humilde, mas o advogado dele era bom, conseguiu transferir a culpa para a empresa que empregara o motorista, argumentou que ela não realizava as vistorias necessárias, justificou uma falha mecânica por falta de cuidados. A empresa perdeu a causa. A sorte da minha mãe foi aquela indenização.

– Adorei a historinha. – Ela ralhou próximo ao meu ouvido. – Mas ainda não sei se compreendi onde você deseja chegar, meu jovem fulvo.

– Quão importante era para você que eu sofresse um acidente? Quão importante é para você que eu sofra esse acidente em alguns minutos?

Seus lábios crisparam e ela ousou sorrir. Enchantress entendeu que eu havia chegado à conclusão lógica.

– Trâmites dos processos mágicos. Não poderia entrar na sua alma se você estivesse inteiramente vivo. Sinta-se especial, te escolhi cuidadosamente como meu receptáculo.

Eu respondi disparando um raio azul escuro diretamente contra seu peito. A força do impacto lançou-a para o ar, em direção a uma queda de alguns bons metros, mas ela conseguiu flutuar e devolveu o ataque. Eu evoquei uma barreira a minha frente, detendo seu raio. Em um ponto ela não havia mentido: estava fraca. Cheguei até à conclusão inesperada que naquele momento ela poderia ter menos forças mágicas – mesmo possuindo inteiramente um ser humano – do que eu sem precisar abrir mão do meu autocontrole. Não fui capaz de usar a telecine para controlar seu corpo, já que ela usava sua magia para afastar meu controle, mas segui a disparar raios contra ela.

Em alguns minutos os dois veículos iriam se aproximar e se até lá a Enchantress estivesse ocupada tentando não ser morta por mim ela não seria capaz de manipular as circunstâncias para que o acidente ocorresse. Nossa batalha mágica prosseguiu comigo mostrando uma pequena superioridade – minha magia também estava mais fraca do que o normal – até que aquela entidade maldita disparou algumas labaredas em minha direção e eu me escondi atrás de uma estrutura quadrada – talvez uma chaminé – para me esquivar dos golpes.

Ela se teletransportou para surgir ao meu lado, segurou meu cabelo com força e bateu com a parte de trás da minha cabeça contra os tijolos. A dor aguda foi seguida por uma tontura breve. Eu respirei fundo, com os olhos apertados e a mão na testa tentando recuperar meu equilíbrio. Eu tinha urgência em agir, ciente de que a cada minuto eu ficava próximo da minha quase-morte.

Quando eu abri os olhos, porém, eu percebi que era tarde demais. Corri até a beirada do terraço e saltei no ar, vendo a Enchantress flutuando com as mãos para frente apontadas na direção de um caminhão de entregas que vinha na 95th.

Eu urrei e por fúria fiz uma grande burrada. Em vez de tentar deter o veículo eu avancei na direção da mulher e disparei um raio de energia mágica contra ela. Ela caiu sobre a quadra de um playground localizado na esquina.

Eu pensei em tentar conter o caminhão com magia, mas no exato instante em que virei ele alcançara a Lexington. No milésimo de segundo seguinte ocorreu o impacto. Como se o tempo estivesse agora escorrendo em vez de correr eu vi a lataria do carro preto sendo esmagada pelo para-choque do caminhão. Eu senti que minha garganta se fechava, o ar já não chegava aos pulmões. Incapaz de me manter levitando eu desabei sobre a calçava e minha vista começou a escurecer.

Havia retornado ao instante da morte do meu pai. Descobrira o que havia – quem, na verdade – causado o acidente. Inundado em decepção, não fora capaz de impedir que aquilo se repetisse por pura incompetência.

Aquele mundo se desfez ao meu redor, todos os sentidos se desligando até que eu fosse engolfado pela completa escuridão.


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Re: O PRESSÁGIO

Mensagem por Warlock em Qua Fev 07, 2018 10:05 pm

o presságio
Àqueles que conseguiram cumprir o desafio da oficial em escrever, no mínimo, 1.500 palavras no total, contando algum/uns episódio/s de sua vida ao entrar em contato à chuva ácida e alucinógena, desejo meus parabéns.

Sabemos que houveram muitas - e não é sarcasmo da minha parte em dizer "muitas" - quando foi estabelecido um requisito de palavras para se postar. No entanto, gostei de ver o empenho daqueles que verdadeiramente entraram no enredo. Independente da recompensa que receberiam, abaixaram a cabeça e fizeram algo... Grande.

Enfim, como alguns já estavam a par, informo que esta oficial tem como critério de recompensa o simples fato de participação, ou seja, não haverá uma avaliação de fato.

Bem, sem mais delongas, vamos ao que estão interessados em saber.

as recompensas


referente a quem tenha atingido ou ultrapassado a meta.

i. totais de oito níveis.
ii. não haverá recompensas secundárias como dar positivo ou negativo na fama, porque são eventos passados, enquanto a fama está relacionada diretamente ao presente;
iii. por sua vez, por conta da chuva ser ácida, todos aqueles que participaram perderam 50% do seu HP total. Se não sabem a regra de recuperação de vitalidade, é só fazer um post em uma RP qualquer após hoje.


as atualizações devem ser pedidas aqui.


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