Double Trouble

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Double Trouble

Mensagem por Aries Yorath Vaughn em Ter Jan 16, 2018 11:08 pm

Double Trouble
A roleplay é iniciada pelo post de Aries Yorath Vaughn, seguindo por Serena Adamatti. Estando, portanto, FECHADA para os demais. Passando-se esta em 11 de janeiro de 2018, nas ruas de Manhattan. O conteúdo é LIVRE. Atualmente, as postagens estão EM ANDAMENTO.



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Re: Double Trouble

Mensagem por Aries Yorath Vaughn em Qua Jan 17, 2018 2:02 am


Trouble


Digitava os últimos documentos e os imprimia para as reuniões de amanhã de meu chefe, quando percebo que havia passado tempo demais fazendo meu trabalho. Com um suspiro, recosto-me à cadeira e uno minhas mãos, erguendo-as enquanto me espreguiçava tentando arranjar um pouco de descanso. Deveria repousar, estava atrasado aproximadamente trinta minutos e meus irmãos deveriam estar bastante preocupados. Decidi avisá-los por mensagem de texto que iria chegar atrasado, e então finalizei meu trabalho e me arrumei. Como morava a poucos quarteirões de casa, decidi ir a pé mesmo, ao invés de esperar vários minutos pelo Uber ou pegar um ônibus. Pus uma camisa preta, um suéter por causa do tempo frio e então pus uma calça e sapatos, fazendo minha trilha a qual já estava acostumado.

Enquanto caminhava, decidi utilizar os meus fones de ouvido, enquanto ignorava o ir e vir de transeuntes, sejam eles voltando ou indo de seus trabalhos, fazendo compras nas lojas caras e ostensivas de Manhattan, ou qualquer outra coisa banal – que fazia parte da minha vida, de certa forma. Foi então que, na calçada, uma moça de fios morenos vinha em minha direção, parecendo apenas seguir seu próprio caminho, assim como eu. Havia um beco à minha esquerda – à direita da morena – e dele saiu um homem em calça jeans cortada nos joelhos, camisa escura surrada e um canivete, o qual apontou para a moça, ameaçando-a.

— Passa a grana, vadia! Anda! — O homem estava praticamente em cima da pobre moça, enquanto a apressava para lhe entregar seus pertences. Automaticamente, concentrei-me, utilizando meus poderes telepáticos para invadir os pensamentos do bandido e saber mais sobre o mesmo. Trent, ex-traficante que acabou sendo consumido pelo vício em seu próprio produto, expulso da máfia e virando um assaltante medíocre que só roubava para alimentar seu vício. Estreitei meus olhos, aproximando-me dele enquanto sua mão trêmula largava a faca, seu corpo recuando instintivamente dois passos.

— Trent, não é? Vejo que você tem sido bastante perverso ultimamente, que tal pegar essa faca e engolir ela, o que acha? — Sorri de canto, enquanto ele de repente baixava seu olhar para encarar a faca como se fosse uma refeição decente e cara, apetitosa aos seus olhos. Virei-me para a garota, tranquilo e com as mãos nos bolsos. — Pode ir, se quiser. Já resolvi o problema. — Sorri gentilmente, enquanto o homem agachava-se lentamente – provavelmente o vício havia ferrado com sua capacidade motora – para pegar a faca.



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Re: Double Trouble

Mensagem por Serena Adamatti em Qua Jan 17, 2018 9:09 pm


A escuridão sempre lhe pareceu estranhamente convidativa, apesar da crença popular de que era na penumbra que ocultavam-se as mais terríveis criaturas. O que há no escuro? Ora, decerto o mesmo que há na claridade, meu caro. Que ingenuidade seria crer que sob qualquer fonte de luz os demônios seriam expulsos ou que a maldade deixaria de habitar os seres de conduta já duvidosa. O mal é o mal; no claro ou no escuro, visível ou invisível. Sólido e imutável, alguns diriam. Mas enfim. Ao conforto que encontrava na escuridão poderia ser atribuída a culpa pelos hábitos noturnos que Serena havia desenvolvido ao longo dos anos — hábitos dos quais agora encontrava-se aparentemente incapacitada de se livrar. Era uma rotina quase sagrada; o trabalho exigia sua atenção durante o dia, mas à noite permitia-se dedicar um tempo para caminhar até um bar-restaurante local, um lugarzinho agradável, onde se sentava na mesa do canto com uma dose de uísque e a câmera fotográfica, analisando as capturas do dia. Fazia-o toda quinta-feira, fielmente, sem interrupções.

Onze de janeiro de dois mil e dezoito era uma quinta-feira, e portanto, a rotina seguiu tal como esperado. Bar-restaurante, bebida, câmera, de volta para casa. Uma ordem bastante simples, diria. Foi apenas no último componente desta prática que a ordem esperada se quebrou.

Movia-se com tranquilidade pela calçada, passos silenciosos e olhos atentos no caminho à frente. A escuridão recaía sobre a figura curvilínea tal como um manto quente bem-vindo no frio de dezembro, cobrindo-a no anonimato das sombras conforme caminhava de volta para casa. O braço metálico encontrava-se sabiamente escondido sob o poder de sua mente, mas Serena estava ciente da realidade por trás da ilusão. Sabia de sua condição, diferentemente do sujeito que tomou a decisão estúpida de agarrar seu pulso esquerdo — justamente o esquerdo — saído de um beco escuro, por mais clichê que possa parecer. Seus dedos delgados fecharam-se em volta daquilo que para ele se parecia com pele humana, mas que na realidade era um conjunto de peças metálicas e engrenagens envoltas em uma poderosa ilusão, e o infeliz ladrão começou a gritar para que Serena cedesse seus pertences. É claro.

Ela teve tempo de olhar para ele, que detinha um canivete — um canivete! — como arma, antes de sentir uma terceira presença se aproximando. Esta, tal como ela própria, não era humana, e essa certeza provou-se correta no momento em que o sujeito com a faca começou a recuar, como se pressionado por uma força invisível, e sua arma escorregou entre seus dedos. O canivete caiu no pavimento, clicando.

“Trent, não é? Vejo que você tem sido bastante perverso ultimamente, que tal pegar essa faca e engolir ela, o que acha?”

Surpreendeu-se com aqueles dizeres. Conforme o referido Trent dobrava-se ante a ordem alheia, o dono da voz — um rapaz de mais ou menos a idade dela — enfiou as mãos nos bolsos e disse a Serena que poderia ir. “Já resolvi o problema,” foram suas palavras. E ela teria rido, talvez, não fosse a curiosidade por encontrar alguém com uma anormalidade como a dela — um dom como o dela —, pois afinal a situação toda possuía um quê de comédia sólido demais para ignorar. Um cavaleiro de armadura brilhante! Era ela a donzela em perigo, supôs, embora o papel de maneira alguma parecia lhe servir até aquele estranho momento.

Serena virou-se, então, para seu agressor, se é que poderia chamá-lo dessa maneira. Pobre criatura; poderia ter escolhido uma centena de humanos para roubar e ameaçar. Em vez disso, encontrou ela. Os dedos dela balançaram em um movimento fluído, calmo, e Trent caiu de joelhos. Não. Não apenas caiu. Ficaria naquela posição por mais um bom tempo, considerando que o som dos ossos se partindo foi perfeitamente audível para ambos os espectadores: as duas pernas estavam quebradas, e ele gemia.

Serena colocou as mãos nos bolsos da larga jaqueta que usava, olhos fixos naquele que viera à seu socorro, e sorriu — um sorriso doce, não afetado pelo que acabara de fazer.

— Obrigada pela ajuda — proferiu tranquilamente, uma nota de sarcasmo enunciada por trás das palavras. Mas, por mais que o comportamento indiferente não demonstrasse, ela sentiu uma pequena, quase indetectável gratidão em algum lugar longínquo no interior de seu ser.
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Re: Double Trouble

Mensagem por Aries Yorath Vaughn em Sex Jan 19, 2018 9:50 am


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Seus olhos oceânicos se estreitaram fitando a bela moça à sua frente, cujos poderes revelava-os de forma contida, apesar de ainda demonstrar grande poder ao quebrar as pernas do homem, fazendo-o gemer de dor enquanto fechava seus olhos, tentando em vão expulsar toda a sensação excruciante em si. Como ainda estava na mente do homem, Aries crispou os dedos das mãos, fechando-as em punho, sua testa franzindo ao sentir a dor aguda no homem. Por um momento, o próprio telepata jurava que iria cair também com a sensação de agonia do meliante, porém conseguiu cessar a ordem telepática antes que sofresse mais. Então, a moça sabia muito bem cuidar de si mesma, provando possuir poderes telecinéticos. Bem, geralmente telecinéticos são agraciados com telepatia também, então o loiro decidira não invadir o espaço da outra. Meio sem jeito, ele estendeu a mão.

— Prazer, Aries. Você é? — Perguntou-a com um largo sorriso, ignorando o homem ajoelhado. Como queria saber mais sobre a morena, decidiu lhe enviar uma leve mensagem. ”Você é uma mutante, não é? É telepata?”, perguntou o Cuco, de forma orgânica e curiosa, com um gentil sorriso na face. Não queria problemas para si, mas ele tinha de admitir que conhecer outros como ele ainda era diferente e estranho – num bom sentido, claro.


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Re: Double Trouble

Mensagem por Serena Adamatti em Sab Jan 20, 2018 8:35 am


Tinha por instinto natural uma desconfiança absoluta — embora discreta — por tudo e todos que não conhecia. Observava e analisava, se possível à distância, antes de optar por uma abordagem direta, visto que esta poderia representar uma ameaça à seu bem estar, que colocava quase sempre em primeiríssimo lugar. Conheça seu inimigo. Era um mecanismo de defesa, diria. Mas nem sempre funcionava. Por vezes, em ocasiões como aquela na qual se encontrava, Serena experimentava o sabor de um pouco de liberdade, um pouco de imprudência, e por impulso agia antes mesmo que pudesse perceber o que estava fazendo. O rapaz que choramingava a seus pés era uma infeliz prova viva de seus problemas de comportamento.

Colocou alguns passos entre ela e Trent, deixando por completo as sombras do beco à sua direita. Talvez ele tivesse a sorte de ser socorrido em breve... ou não. Ela não se importou, realmente. Moveu-se sem pressa, com passadas firmes, repentinamente ciente de que o ataque ao sujeitinho desprezível, apesar de merecido, talvez não tivesse sido a mais sensata de suas ações, afinal. Ela tinha quase certeza de que seu salvador, que agora apresentava-se sob a denominação de “Aries”, estivera na mente do ladrãozinho no momento em que ela o colocou de joelhos; a expressão no rosto de Aries era de desconforto, para dizer o mínimo, mas ele se recompôs em tempo recorde. Havia assistido a coisa toda como um espectador interessado, e certamente agora tinha ciência de que ela não era apenas mais uma humana.

— Serena — respondeu ela, aceitando a mão estendida com o cuidado de manter a sua própria, metálica, escondida sob a ilusão. Manteve o aperto leve pelo breve tempo que um cumprimento casual exigia, nem um segundo a mais ou a menos. Olhou-o nos olhos — olhos claros, como ela sonhava em ter quando criança — e estudou-os à procura de alguma coisa, qualquer coisa, que lhe desse uma pista sobre aquele desconhecido, mas falhou miseravelmente. Suas intenções pareciam genuínas; uma gentileza até então inexplicável para ela.

Foi então que ouviu. Duas perguntas, apenas, de natureza aparentemente inocente. Não foram verbalizadas, apenas deixadas em sua mente para que soubesse que estava lidando com um telepata, como ela. Seu corpo ficou tenso por um momento, e Serena contemplou a ideia de vasculhar a mente alheia em busca de respostas que satisfizessem seu senso de autopreservação. Não sentia o menor apreço pela prática; era como ver alguém nu sem permissão. Entrar na mente de alguém era intrusivo demais, desconfortável demais.

Assim, optou por não fazê-lo e, em vez disso, respondeu da mesma forma: através de pensamentos. “Sim para as duas perguntas.”

— Sempre salva as donzelas em perigo? — perguntou, desta vez em alto e bom som, com uma dose sadia de sarcasmo e a voz carregada com o sotaque italiano que parecia incapaz de perder.
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Re: Double Trouble

Mensagem por Aries Yorath Vaughn em Sab Jan 20, 2018 6:33 pm


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Com um sorriso simpático, Aries ouviu seu nome vindo dos lábios carnudos da morena de sotaque italiano sutil. Serena. Parecia encantadora, apesar de praticamente ter matado o homem, quebrando-lhe as pernas. Tudo bem, o telepata de fios dourados havia tentado fazer o meliante engolir um canivete, então rapidamente ele tentou não julgar as ações da outra, buscando ser o mais agradável o possível para, quem sabe, evitar algum tipo de combate no meio da rua. Não que ele sempre esperasse agressividade de outros seres poderosos, entretanto havia sempre a desconfiança de que nem todos eles eram bons e fáceis de se lidar. E, na maioria das vezes, Aries estava correto. Mas ela era diferente, apesar da violência contra o bandido.

Com sua pergunta sobre donzelas em perigo, Aries sorriu; uma risada divertida e repleta de carisma, como era de seu feitio rir quando haviam perguntas sarcásticas como aquela. A outra tinha senso de amor, notara o Cuco. Realmente, com a pergunta da mutante, o rapaz parara e pensara sobre suas intenções e ações; ele tinha como principal objetivo proteger os seus irmãos, por isso decidira dar um fim aos anos de enclausurado, fugindo do laboratório subterrâneo onde eles moravam, mas, agora, aqui ao ar livre e com tantas pessoas ao seu redor, ele acabava por sentir também um dever implorando para ser seguido, uma ação, uma posição. Aquilo soava deveras heroico, mas o loiro tinha de confessar para si que gostava de ajudar as pessoas sempre que podia, seja enviando bons pensamentos para pessoas tristes e depressivas ao seu redor, ajudando-as mentalmente sem que estas percebessem que estavam recebendo apoio, e, no caso de Serena, uma mãozinha para se livrar de um assaltante.

— Na verdade não. Sempre mantive como prioridade outras coisas, mas, ultimamente, até que eu estou me sentindo generoso. Se você tem poderes, use-os, faça-se útil. — Comentando, o loiro dera de ombros, suspirando.

— Então... Vamos tomar um café ou comer algo? Pelo menos não corremos o risco de sermos abordados por outros amiguinhos desse cara e não vamos precisar dar queixa quando a polícia aparecer com mil perguntas. — Fazendo a sugestão, Aries indicou com um acenar de queixo uma lanchonete do outro lado da rua.


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Re: Double Trouble

Mensagem por Serena Adamatti em Qua Jan 31, 2018 11:14 am


Àquela altura, era certo que as autoridades não tardariam a chegar. O relógio anunciava o início da madrugada e a lua estava alta no céu negro límpido e, ainda assim, Nova Iorque fazia jus à sua fama de "nunca dormir", pois considerável parcela dos habitantes dali ainda encontrava-se desperta, certamente aproveitando o que de melhor a noite tinha a oferecer. Ergueu os olhos por um momento. Os apartamentos ainda ostentavam luzes acesas e janelas abertas, os carros transitavam indefinidamente e, ouvindo com atenção, era possível escutar o distinto som de música eletrônica pulsando em alguma boate próxima. Nova Iorque nunca dorme.

Nem Serena Adamatti, aparentemente. O olhar divergiu para o homem no beco, o sangue no chão, o canivete descartado pintado de escarlate, mas a expressão permaneceu neutra até tornar a proporcionar o encontro com as orbes alheias mais uma vez. Eram injustamente azuis, ela pensou. Por que 99% da população nova-iorquina possuía olhos claros? Surpreendeu-se mediante a resposta do outro à sua pergunta anterior. Era sincera, ignorando o tom leviano expressado no elaborar do questionamento prévio. O riso foi agradável de se ouvir, no entanto. Genuíno. Tranquilizador, até, de alguma maneira. O riso de alguém certo da pureza das próprias convicções. A italiana sentiu os ombros relaxarem um pouco; os cantos de seus lábios puxaram-se no mais suave dos sorrisos. Não abaixaria a guarda, mas permitiria-se ceder, uma única vez, o benefício da dúvida.

— Você tem um ponto — admitiu, apenas parcialmente capaz de acreditar nas próprias palavras. Ele ostentava um ponto de vista válido, verdadeiramente. Mas a utilidade é subjetiva; o útil para um pode apresentar-se inútil para outro. O canivete de Trent poderia ter sido útil contra um humano comum, por exemplo, assim como os poderes dela poderiam ter sido inúteis contra um telecinético melhor. Ela expressava a utilidade de seus poderes em atividades ilegais; ele, com atos de bondade. E, ainda assim, ambos eram "úteis", como ele colocara.

O mencionar da palavra "prioridades" roubou a atenção dela por um momento. Piscou, escondendo temporariamente as íris castanhas enquanto refletia acerca da proposta alheia, fornecida em seguida. Não. Era óbvia aquela resposta. Todavia, aqueles dizeres jamais lhe alcançaram os lábios róseos; encontrou-se respondendo, ao invés, com o sutil movimento de cabeça. — Café parece bom. — E parecia, de fato. O corpo apresentava os primeiros traços de exaustão, ocasionada pelo dia que tivera. A cafeína seria bem-vinda ao organismo. Proveria alguma energia extra, com sorte. A mente focalizou na imagem de um cappuccino bem produzido, tal como costumava beber todas as manhãs durante a moradia na Itália. O paladar quase podia proporcionar o gosto. Quase. Ostentou uma expressão de simpatia enquanto os passos a levavam na direção indicada por Aries.
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Re: Double Trouble

Mensagem por Aries Yorath Vaughn em Sab Fev 10, 2018 1:21 am


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A música eletrônica distante preenchia os ouvidos de Aries sutilmente, baixa, porém audível. Enquanto caminhavam rumo a cafeteria, o loiro de íris azulada não conseguia parar de pensar na quantidade de seres com poderes que existiam no mundo afora. Os únicos lugares que os irmãos Vaughn haviam conhecido bem era a prisão onde viveram trancafiados e, agora, Nova Iorque. O conceito de liberdade era algo novo e que, querendo ou não, os três ainda estavam começando a aprender o jeito certo de lidar com toda a imensidão do mundo. Para Aries, era ainda solitário caminhar sozinho ou ter de fazer decisões sem seus dois irmãos ao seu lado, mas era até bem-vinda as horas em privado que o mais velho dos trigêmeos tinha. De poucas palavras e de mente impenetrável, a morena de olhos da cor de cacau revelava muito pouco sobre si, mantendo seu passado e sua identidade fechada a sete chaves, apesar de ter falado o seu nome.

O pequeno estabelecimento de placa com dizeres escritos em letras maiúsculas e chamativas lembrava um letreiro de cinema antigo, por dentro havia um cheiro característico de cafeína que encheram as narinas do telepata com seu aroma sedutor. Seguindo seu caminho rumo a uma mesa mais afastada, sentou-se Aries de pernas cruzadas e fez seu pedido, fitando pela janela ampla o céu noturno e as estrelas parcas teimando contra a iluminação artificial terrena. Era belo, apesar de haverem milhares de estrelas recônditas naquele mesmo céu, visíveis apenas na escuridão e ausência de civilização. Era quase poético, para ser honesto. Foi então que o silêncio fora quebrado com a chegada do simpático funcionário de fios capilares dourados, que entregara os pedidos dos dois mutantes e logo se retirara. Pegando sua caneca vermelha – a contrastar com a mesma cor de sangue da parede da cafeteria – e bebericando do café negro puro com açúcar, Aries suspirou.

— Você não é muito de falar, certo? Devo presumir que seu passado não seja dos melhores e esteja fugindo de algo? — Questionando-a, o loiro não evitou de soerguer levemente uma de suas sobrancelhas em clara oposição ao silêncio – não era seu intento força-la a nada, mas a sua curiosidade falava mais alto. — Também tenho demônios oriundos do passado. — Admitiu Aries dando de ombros, bebendo um pouco mais de seu café. Definitivamente, a outra havia captado a sua total atenção e curiosidade em níveis que, até mesmo para o próprio telepata, eram uma novidade que talvez não fosse tão favorável assim – afinal era uma completa estranha à sua frente.


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Re: Double Trouble

Mensagem por Serena Adamatti em Qui Fev 15, 2018 4:53 pm


Estava pensando se não teria acabado de cruzar os limites de uma imprudência saudável quando o letreiro neon da cafeteria lhe arrebatou a atenção por um minuto. Era um estabelecimento comum, pequeno, mas ela se sentiu tentada a registrar aquilo por algum motivo desconhecido. Tinha olhos bons para encontrar beleza nas pequenas coisas, diziam. Se interessava por detalhes mínimos que outros talvez ignorariam — não era a toa que ocupava a posição de fotógrafa no New York Times. Além disso, gostava da sensação de registrar memórias para mais tarde. Deixou que o outro caminhasse a sua frente antes de puxar a câmera da bolsa que carregava. Com um movimento rápido, a mão firme permitiu uma imagem impecável, tirada na pretensão de adicioná-la à coleção na parede de seu apartamento. Apressou-se em guardar o objeto, adentrando, por fim, a cafeteria.

Se o letreiro não a tivesse atraído ao lugar, o cheiro teria; podia sentir o aroma sutil de cafeína no ar, o suficiente para enaltecer o desejo de consumir a bebida logo, e não tardou a seguir o exemplo de Aries. Sentou-se de frente para ele sem cruzar as pernas — se houvesse a necessidade de agir com rapidez, estaria economizando segundos preciosos com a postura preparada —, mas não escondeu a mania de batucar as unhas na superfície mais próxima, no entanto. Era algo que ela fazia quando estava inquieta, incapaz de se conter.

O que estou fazendo? A pergunta surgiu de um canto recôndito da mente dela, que viu-se incapaz de responder o próprio questionamento, mais uma vez. Não sabia o que estava fazendo, simples assim. Mas o fato de não saber não era apreciado pela mutante de gênero feminino, que havia passado considerável parte da vida mantendo-se no controle de cada passo — não que tivesse uma escolha. Controle-se, freie seus instintos primários, ou sucumba ao vírus que seu pai lhe deixou de herança. Parecia bastante simples.

Ao rapaz que os atendeu, indicou o desejo por um cappuccino do cardápio com um sorriso cativante, mas não prestou atenção o suficiente para perceber se o ato foi recíproco. Enquanto Adamatti e o heróico Aries aguardavam a chegada de seus pedidos, um silêncio ensurdecedor ameaçou se instalar entre os dois. Ela parou de tocar as unhas na mesa, ligeiramente desconfortável, e comentou: — Nunca estive aqui. Você já? — o questionamento foi firme, mas não rude, e a voz suave fez passar a mensagem de que ela não tinha intenção de prejudicar ou intimidar de qualquer maneira o outro, apesar da cena no beco. A pergunta era referente ao estabelecimento em que se encontravam. Estava tarde, tarde demais, e ela se perguntou para onde Aries estava indo quando a encontrou, e por que ele havia de tão bom grado ignorado qualquer que fosse o compromisso para passar tempo com uma estranha. Teria algum assunto inacabado com os Adamatti?

Parecia improvável. Envolveu os dedos na caneca de cappuccino fumegante tão logo a bebida foi depositada na superfície da mesa. O gosto era bom, afinal, e servia bem para aplacar o frio de janeiro que envolvia Nova Iorque naquela noite. Serena não ficou surpresa em ver que o pedido de Aries consistia em uma simples xícara de café preto. Ela tinha uma sensação de que o mundo se dividia em dois tipos de pessoas: as que gostavam de café, e as que gostavam de frescuras. Ela se encaixava com um pouco de culpa na segunda categoria.

Você não é de falar muito. Ela não era, mesmo, mas o questionar alheio a relembrou de uma reprimenda em especial que recebera do pai. Quem fala demais, pensa de menos, mia cara. Inconscientemente seguia o conselho desde então, por mais que odiasse admitir. Giuseppe poderia ser um monstro, mas possuía uma mente afiada. — Não estou fugindo de nada — o tom defensivo assumido foi impossível de disfarçar. Permitiu, então, que o ar entrasse pelas narinas e saísse através dos lábios entreabertos antes que tornasse a verbalizar os pensamentos com maior tranquilidade. — Passado é passado. O meu é bem monótono, na verdade. Morava na Itália, como deve ter percebido pelo sotaque, mas "fugi" — Sinalizou aspas com os dedos e ao falar, sorriu para desviar a atenção do outro. — Pai superprotetor e tudo o mais.

A mentira saiu tão facilmente quanto o ato de respirar, embora não fosse uma completa mentira; estava mais para uma distorção favorável da verdade. Serena bebericou o cappuccino, apoiando o queixo na mão, o cotovelo tocando a superfície da mesa. — Que tipo de demônios?

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Re: Double Trouble

Mensagem por Aries Yorath Vaughn em Sab Fev 17, 2018 10:17 am


Trouble


Talvez não estivesse sendo tão amigável quanto achava que estava sendo, mas Aries não conseguia deixar de se sentir estranho e num campo minado ao conversar com a mutante à sua frente. Pequenas palavras torciam o significado de perguntas aparentemente simples e, de repente, o jovem telepata se via num jogo de palavras que, a qualquer momento, poderia vir a criar quem sabe uma contenda ou, na pior das hipóteses, uma desavença – onde terminaria com a morena indo embora sem pensar nem duas vezes. Apesar de se sentir acuado naquela situação, o loiro não conseguia deixar de sentir-se atraído pela ideia de conhecer melhor uma semelhante. Ao ser questionado sobre já conhecer o lugar, ele larga a sua xícara e assente, dando uma olhada pela janela e, ao ouvir novamente a mulher falar, ele se volta para a mesma, ouvindo-a com clareza.

A primeira ressalva de Vaughn quanto a morena foi o tom defensivo que ela assumira quando a palavra “fugir” fora citada pelo mesmo. Uma sobrancelha soerguera-se em clara diversão pelo fato de, pela primeira vez desde que se conheceram, Serena ter aparentemente baixado as suas guardas. “Então, seu pé de Aquiles é o medo de demonstrar fraqueza e covardia...”, anotou mentalmente o loiro e, ao ouvi-la prosseguir com sua história, percebeu ele que estava sendo exageradamente estrategista e até mesmo um pouco perverso. Analisar as pessoas o tempo inteiro era um hábito deveras negativo e paranoico que, se Aries não soubesse dosar bem, poderia metê-lo em brigas e problemas. Antes que pudesse dar-se conta, eis que a outra lhe indagava sobre demônios. Honestamente, o mutante de fios loiros dá de ombros.

— Bem, pela forma que tratara o homem lá fora, me pareceu ser uma pessoa sem medo de meter a mão na massa, o que me leva a crer que deve ter tido ou uma criação rígida que lhe tornou uma mulher sem medo de “fazer o que é necessário de forma incisiva”, ou que você deve confiar nos seus poderes ao ponto de fazer aquilo com o homem sem medo algum de ser pega ou punida, o que se enquadra numa categoria bem bizarra. Esse tipo de comportamento, na minha opinião, é de uma pessoa que é ou uma coisa que eu falei, ou outra, ou as duas ao mesmo tempo. Impossível uma menininha filhinha de papai que veio da Itália viver em Nova Iorque ter o estômago necessário para quebrar as pernas de um assaltante sem nem pestanejar. — Tomando um longo gole de café, Aries sorriu com os lábios comprimidos, com receio de ter ou acertado demais sobre ela e deixa-la irritada, ou de ter errado demais e irritá-la igualmente. — Desculpe-me caso tenha ofendido, é que estudei psicologia e, como deve saber por ser telepata; a gente aprende sobre as pessoas. — Sorrindo um pouco mais abertamente, o loiro suspirou, tendo sua xícara enchida automaticamente pelo rapaz da loja.


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